Sem Segunda Chance

1311 Palavras
O carro parou antes da esquina. Não era por acaso. Nunca era. Abner não gostava de chegar direto em lugar nenhum quando o assunto era cobrança. Existia um tipo de silêncio que só se percebia quando você observava antes de entrar. Um tipo de tensão que não aparecia dentro de quatro paredes, mas no entorno. Ele ficou alguns segundos dentro do carro, olhando pela janela. A rua era estreita, m*l iluminada. Algumas casas com portas abertas, televisão alta, gente vivendo a própria rotina sem saber o que estava prestes a acontecer ali perto. Crianças correndo mais ao fundo, um cachorro latindo sem parar, uma moto passando devagar. Normal. Tudo normal. E isso era exatamente o que ele gostava. Porque quando o caos entrava em um cenário comum… ele era mais forte. Mais marcante. Mais definitivo. Um dos homens no banco da frente virou levemente o rosto. — É aqui. Abner não respondeu. Só abriu a porta e saiu. O ar da noite estava abafado, pesado. O tipo de calor que grudava na pele e deixava tudo mais irritante. Ele ajustou levemente o punho da camisa, olhando mais uma vez ao redor antes de começar a andar. Sem pressa. Sem pressa nunca. Cada passo dele parecia calculado, como se até o ritmo da caminhada fizesse parte do jogo. E fazia. Porque o medo começa antes da palavra. Antes do olhar. Antes do confronto. O medo começa na presença. A casa era simples, mas diferente da última. Mais arrumada. Pintura recente, portão fechado, luz acesa na sala. Não era alguém completamente perdido. Era alguém que achou que conseguiria escapar. Erro clássico. Abner parou em frente ao portão. Não bateu. Não chamou. Só empurrou. Destrancado. Outro erro. O portão rangeu baixo ao abrir, e o som pareceu mais alto do que realmente era. Dentro da casa, uma sombra se mexeu rápido. Alguém percebeu. Bom. Ele entrou. A porta da casa abriu antes que ele precisasse tocar. O homem apareceu nervoso, respiração acelerada, olhar indo de Abner para os dois homens atrás dele. — Eu… eu ia te procurar amanhã… A voz saiu embolada, atropelada pelo próprio desespero. Abner não respondeu. Entrou. Simples assim. Invadiu o espaço como se fosse dele. E naquele momento… passou a ser. A sala tinha cheiro de comida recente. Um prato ainda na mesa, copo pela metade, televisão ligada em um volume baixo. Vida acontecendo. E prestes a parar. O homem fechou a porta atrás deles, já derrotado antes mesmo de tentar qualquer coisa. — Eu juro que tô tentando resolver… Abner caminhou devagar até o centro da sala, observando cada detalhe como se aquilo tivesse algum valor. Mas não tinha. Nada ali tinha. Ele parou. Virou o corpo na direção do homem. Olhou. E ficou em silêncio. Aquilo era pior do que qualquer grito. Porque obrigava o outro a se afundar sozinho. — Eu perdi dinheiro… — o homem continuou, passando a mão no rosto — deu errado um negócio, mas eu vou recuperar, só preciso de mais— Abner levantou a mão. Devagar. Sem olhar para ele. E o homem calou na mesma hora. O silêncio que caiu ali foi pesado, sufocante, quase físico. Abner deu dois passos na direção dele. Parou perto. Perto demais. O homem recuou um pouco, instintivamente. Errado. Mostrava medo. E medo… só piorava tudo. — Você sabe qual é o seu problema? A voz de Abner saiu baixa. Calma. Sem alteração. O homem engoliu seco. — Eu… eu errei, eu sei, mas— — Não. Abner cortou. Agora olhando direto nos olhos dele. — Você não errou. Uma pausa curta. — Você decidiu. Aquilo confundiu o homem por um segundo. E esse segundo… foi o suficiente pra aprofundar o desespero. — Eu não… não foi decisão, eu só— — Foi. A palavra saiu firme. Pesada. Irrefutável. — Você decidiu pegar dinheiro comigo. Mais um passo à frente. — Você decidiu não pagar. Mais perto. — E agora você decidiu que pode pedir mais tempo. O homem começou a balançar a cabeça, nervoso. — Não, não é assim, eu— Abner inclinou levemente a cabeça. Os olhos agora completamente frios. — Então me explica como é. Silêncio. O homem não tinha resposta. Porque não existia resposta. Só tentativa. Só desculpa. Só atraso. E Abner não negociava com isso. Nunca negociou. — Eu tenho família… — o homem soltou, quase num último recurso — eu tenho filho… Erro. Grave. Muito grave. Abner ficou em silêncio por alguns segundos. Observando. Processando. E então deu um passo para trás. Como se tivesse perdido o interesse. — Você devia ter pensado nisso antes. Simples. Sem peso. Sem empatia. Como se fosse uma constatação óbvia. O homem começou a tremer de verdade agora. O tipo de tremor que não se controla. Que não se esconde. Que denuncia tudo. — Eu vou pagar… eu dou um jeito, eu vendo alguma coisa, eu— Abner não ouviu o resto. Porque já tinha decidido. E quando ele decidia… Acabava. Ele puxou a arma com a mesma naturalidade de quem pega o celular. Sem pressa. Sem tensão. Sem hesitação. O homem congelou. Os olhos arregalaram. O corpo travou. — Não… não faz isso… por favor… A voz agora não tinha mais estrutura. Era puro instinto. Puro desespero. Pura inutilidade. Abner olhou para ele por um segundo. Avaliando. Mas não a vida dele. Nunca era isso. Era a situação. O exemplo. A mensagem. Porque aquilo nunca era só sobre uma pessoa. Era sobre todo mundo que ouviria depois. Sobre todo mundo que pensaria duas vezes antes de tentar fazer o mesmo. — Você acha que eu faço isso porque eu gosto? A pergunta veio inesperada. O homem não soube responder. Nem teve tempo. Porque Abner continuou. — Eu faço porque funciona. E puxou o gatilho. O som foi seco. Direto. O corpo caiu para trás, batendo contra a mesa, derrubando o prato, o copo, fazendo um barulho alto que ecoou pela casa. Mas já não importava. Nada importava. O silêncio depois… era absoluto. Os dois homens atrás de Abner não se mexeram. Já estavam acostumados. Mas mesmo assim… Nunca ficava leve. Nunca ficava normal. Só… aceitável. Abner abaixou a arma devagar. Olhou ao redor mais uma vez. A casa. A comida. A vida interrompida. E não sentiu nada. Nem peso. Nem satisfação. Nem arrependimento. Nada. Porque pra ele… Aquilo não era fim de nada. Era continuação. Era manutenção. Era negócio. Ele virou as costas. — Pega o que tiver de valor. Falou com naturalidade. — E limpa. Sem olhar pra trás. Sem conferir. Sem hesitar. Saiu da casa como entrou. Com o mesmo ritmo. Com a mesma postura. Com o mesmo controle. Do lado de fora, a rua continuava. A mesma vida. Os mesmos sons. Como se nada tivesse acontecido. E pra maioria das pessoas ali… Nada tinha mesmo. Porque o mundo de Abner… Era invisível pra quem não devia enxergar. Ele entrou no carro. Fechou a porta. Encostou a cabeça por um segundo. Os olhos fechados. Respiração normal. Nenhuma alteração. Nenhuma descarga emocional. Nada. O motorista ligou o carro. — Pra onde? Abner abriu os olhos. Olhou pela janela. As luzes da cidade ao longe. O contraste entre o morro e o luxo. Entre o sangue e o brilho. E respondeu com a mesma calma de sempre. — Pra casa. Porque pra ele… Aquilo tudo… Era só mais um dia normal. E o pior… Era que ele nem precisava se convencer disso. Porque já era. Porque já fazia parte. Porque já estava dentro. E não tinha mais volta. Nenhuma. O monstro não estava nascendo. Já tinha nascido faz tempo. Agora… Ele só estava crescendo. E logo… Alguém ia cruzar o caminho dele sem saber no que estava se metendo. E dessa vez… Não seria só sobre dinheiro. Seria sobre algo que ele nunca soube lidar. Mas isso… Ainda estava prestes a começar.
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