A cidade brilhava diferente vista de cima.
As luzes não pareciam comuns. Não eram postes, nem carros, nem prédios. Era outra coisa. Era status. Era poder. Era o tipo de brilho que só quem mandava realmente enxergava daquela forma.
Abner estava encostado na varanda de um prédio de alto padrão, no coração da zona mais cara da cidade. Um copo de whisky na mão, gelo tilintando suavemente a cada pequeno movimento do pulso. O vento da noite bagunçava levemente o cabelo loiro, enquanto ele observava tudo lá embaixo com a calma de quem sabia exatamente o lugar que ocupava naquele mundo.
Não como espectador.
Mas como dono do jogo.
Atrás dele, a festa continuava.
Música eletrônica baixa, elegante, nada exagerado. Conversas calculadas, risadas ensaiadas, gente importante tentando parecer ainda mais importante. Era um evento fechado, daqueles que não apareciam em qualquer lugar, com empresários, investidores, herdeiros… e pessoas que fingiam ser tudo isso.
Abner não fingia.
Ele era.
E todo mundo ali sabia.
— Você sempre foge no melhor momento.
A voz feminina veio suave, carregada de intenção.
Ele nem precisou olhar para reconhecer.
Outra mulher que ele tinha ficado.
Mais uma.
Sempre mais uma.
Ele virou o rosto lentamente.
A mulher se aproximava com segurança, salto alto marcando o chão com precisão. Vestido caro, corpo bem cuidado, olhar treinado. Era do tipo que sabia o efeito que causava… mas também sabia que, com ele, precisava se esforçar um pouco mais.
E isso deixava tudo mais interessante.
— Ou talvez o melhor momento seja justamente sair — ele respondeu, com um leve meio sorriso.
Ela riu baixo, se aproximando mais.
— Você gosta de dificultar, né?
— Eu gosto de ver até onde as pessoas vão.
Os olhos dela brilharam.
Desafio aceito.
Ela encostou ao lado dele na varanda, perto o suficiente para o perfume envolver o ar entre os dois.
— E até onde eu teria que ir?
Abner tomou um gole do whisky antes de responder.
Não por dúvida.
Mas por controle.
— Depende do que você quer.
Ela virou o corpo levemente na direção dele.
— Você.
Direta.
Sem rodeio.
Como quase todas.
Mas a diferença estava na forma como dizia.
Sem vergonha.
Sem recuo.
Só desejo.
Abner observou por alguns segundos.
Analisando.
Pesando.
Calculando.
E então inclinou levemente a cabeça.
— Então você já foi longe o suficiente. Teve gente que não teve o que você conseguiu, uma noite comigo já é uma grande vitória.
Ela sorriu.
Vitoriosa.
Mas não sabia…
Que ali não existia vitória.
Só concessão.
Minutos depois, os dois estavam dentro de um quarto amplo do apartamento. Luz baixa, cidade ainda visível pelas janelas de vidro, o ambiente perfeito para o tipo de coisa que Abner fazia melhor do que qualquer outro ali.
Controle.
Ele nunca se apressava.
Nunca demonstrava necessidade.
Nunca se entregava.
Era sempre ele no comando.
Sempre ele decidindo o ritmo.
O momento.
O fim.
E isso era exatamente o que fazia com que mulheres como aquela… se tornassem completamente envolvidas.
Porque não era só atração.
Era domínio. Sex0 viciante. Canalh4.
Mais tarde, ela estava deitada, tentando recuperar o fôlego, enquanto ele já estava de pé, abotoando a camisa com calma.
— Você vai embora? — ela perguntou, ainda meio perdida.
Ele nem olhou.
— Já acabou.
Simples.
Cru.
Sem espaço pra interpretação.
Ela ficou em silêncio.
Não por não entender.
Mas porque sabia que insistir não mudaria nada.
Nunca mudava.
Abner saiu do quarto como entrou.
Impecável.
Intocável.
Indiferente.
No corredor, algumas pessoas ainda circulavam. Olhares se voltaram imediatamente para ele. Alguns discretos, outros descarados.
Respeito.
Admiração.
E um pouco de medo.
Porque ali, naquele ambiente de luxo…
Todo mundo sabia quem ele era.
Não oficialmente.
Não em voz alta.
Mas sabiam que era um homem de poder.
As empresas dele cresciam em silêncio.
Joalherias que movimentavam valores absurdos.
Construtoras que erguiam prédios inteiros com dinheiro que ninguém perguntava de onde vinha.
Negócios limpos por fora.
Intocáveis.
Perfeitos.
E por trás de tudo isso…
O mesmo garoto que um dia se jogou na frente de um carro.
Só que agora…
Muito mais perigoso.
Mas o luxo era só metade da vida.
A outra metade…
Era onde o verdadeiro Abner existia.
A noite já estava mais fria quando o carro preto entrou no morro.
O contraste era imediato.
Luz baixa.
Ruas apertadas.
Olhares atentos.
Ali, ninguém fingia.
Ali, o respeito vinha de outra forma.
Quando o carro parou, dois homens já estavam esperando.
— Tá lá dentro.
Abner desceu sem pressa.
O sapato caro tocando o chão irregular sem qualquer hesitação.
Ele caminhou até a casa indicada.
Pequena.
Simples.
Mas carregada de tensão.
Dentro, três homens.
Um deles sentado.
Cabeça baixa.
Os outros dois em pé, claramente nervosos.
— Eu ia pagar… — o homem começou, sem levantar o olhar.
Abner fechou a porta atrás de si.
O som ecoou.
Pesado.
Definitivo.
Ele caminhou devagar até o centro do cômodo.
— Ia.
Repetiu.
Baixo.
Quase pensativo.
— Mas não pagou.
O silêncio que veio depois foi sufocante.
O homem tentou levantar o olhar.
Errou.
Não conseguiu sustentar.
— Me dá mais um prazo…
Abner inclinou levemente a cabeça.
— Eu já te dei prazo suficiente.
Um dos homens ao lado tentou interferir.
— A gente resolve isso, só precisa de mais—
Abner levantou a mão.
Nem olhou para ele.
Mas foi o suficiente para calar.
— Quando você pega dinheiro comigo — ele continuou, olhando fixamente para o devedor — você não compra tempo.
Uma pausa.
— Você compra problema.
O homem começou a tremer.
Agora não tinha mais discurso.
Não tinha mais argumento.
Só medo.
E medo…
Era tarde demais.
O primeiro disparo veio seco.
Sem aviso.
Sem preparação.
Sem hesitação.
O corpo caiu para trás, derrubando a cadeira.
O barulho foi alto dentro do espaço pequeno.
Os outros dois congelaram.
Um deles tentou recuar.
Erro.
O segundo tiro veio logo em seguida.
Direto.
Limpo.
Sem desperdício.
O terceiro homem nem tentou correr.
Já sabia.
O silêncio depois foi pesado.
Denso.
Irreversível.
Abner abaixou levemente a arma.
Respirando normal.
Sem alteração.
Sem emoção.
Como se aquilo fosse apenas mais uma parte do trabalho.
Ele virou as costas.
Indo em direção à porta.
— Limpa isso.
A voz saiu calma.
Controlada.
Como se tivesse pedido pra organizar uma sala.
E saiu.
Do lado de fora, o ar parecia mais leve.
Mas só para quem não sabia.
Abner entrou no carro novamente.
Encostou a cabeça no banco por um segundo.
Os olhos fechados.
Não por peso.
Mas por rotina.
Porque aquilo…
Não significava nada.
Nem as mulheres.
Nem o dinheiro.
Nem a morte.
Tudo era ferramenta.
Tudo era meio.
Nunca fim.
O carro desceu o morro.
As luzes da cidade voltando a aparecer.
O luxo esperando.
E Abner…
Continuava exatamente o mesmo.
Frio.
Intocável.
E cada vez mais perigoso.
Porque o pior tipo de monstro…
Não é o que sente raiva.
É o que não sente nada.