O medo não foi embora.
Ele não diminuiu.
Não suavizou com o tempo.
Pelo contrário.
Ele mudou de forma.
Agora não era mais só aquele aperto no peito quando lembrava das palavras dele.
Não era só o incômodo de sentir que estava sendo observada.
Não era só a tensão constante.
Era presença.
Abner passou a aparecer com mais frequência.
Sem aviso.
Sem padrão.
Sem respeito por espaço, tempo ou limite.
Às vezes no hospital.
Encostado em algum lugar estratégico, como se fosse só mais alguém ali.
Mas não era.
Nunca era.
Às vezes na rua.
No meio do caminho.
Como se calculasse exatamente o momento em que ela estaria mais vulnerável.
E, mais de uma vez…
Na porta da casa.
Sempre com aquele olhar.
Sempre com aquela calma.
Sempre com aquela ameaça silenciosa.
Marcela já não conseguia ignorar.
Não conseguia fingir.
Não conseguia mais sustentar aquela postura de que estava tudo sob controle.
Porque não estava.
Ela estava perto de pagar.
Muito perto.
O dinheiro já estava praticamente completo.
Mais alguns dias.
Pouquíssimos.
Mas ele…
Não parecia interessado nisso.
Parecia interessado nela.
E aquilo…
Era muito pior.
Naquela tarde, o céu estava pesado.
Carregado.
Como se anunciasse chuva.
O ar quente, denso, difícil de respirar.
Marcela estava saindo do hospital.
Mais cedo do que o normal.
Tinha conseguido reorganizar o plantão.
Queria ir pra casa.
Ver a mãe.
Respirar um pouco.
Mas não conseguiu.
Ele estava lá.
Dessa vez, não escondido.
Não distante.
Encostado no carro dela.
De novo.
Como se aquele lugar fosse dele.
Marcela parou a alguns passos.
O olhar travou nele.
O corpo inteiro ficou tenso.
— Você não cansa?
A voz saiu carregada.
Cansada.
Mais emocional do que ela gostaria.
Abner ergueu o olhar devagar.
Como se estivesse esperando.
— Não.
Simples.
Ela riu.
Mas sem humor.
— Claro que não.
Caminhou até ele.
Sem desviar.
Sem fugir.
— Qual é o seu problema?
Perguntou, direta.
Ele descruzou os braços.
Se aproximou.
— Você.
Marcela franziu a testa.
— Eu?
Ele assentiu.
— Você fala que vai pagar.
— Você trabalha.
— Você corre atrás.
Pausa.
— Mas ainda não pagou.
Ela respirou fundo.
Tentando não explodir.
— Eu tô praticamente com o valor completo.
— Praticamente não paga dívida.
A resposta veio imediata.
Fria.
Marcela fechou os olhos por um segundo.
Se controlando.
— Você tá fazendo isso de propósito.
Ele inclinou a cabeça.
— Isso o quê?
— Isso.
Ela gesticulou, irritada.
— Ficar aparecendo, pressionando, ameaçando.
Silêncio.
E então ele disse.
— Eu tô sendo gentil com você.
Aquilo fez algo dentro dela estalar.
— Gentil?
A palavra saiu incrédula.
— Você chama isso de gentileza?
Ele deu um passo mais perto.
— Você não faz ideia do que eu faço com quem me deve.
A voz abaixou.
Mais pesada.
Mais real.
— Você devia agradecer.
Marcela sentiu o sangue ferver.
— Eu não tenho nada pra agradecer a você.
Silêncio.
Ele a observou por alguns segundos.
E então…
Mudou.
O olhar ficou mais duro.
Mais afiado.
— Você é ingrata.
Marcela riu.
Mas dessa vez com raiva.
— Ingrata?
— Eu te dei uma chance.
Ele continuou.
— Uma chance que ninguém teria.
Pausa.
— E você age como se eu fosse o problema.
Ela deu um passo à frente.
Agora invadindo o espaço dele.
— Você é o problema.
Silêncio.
E então…
Ele foi mais fundo.
— Você não conseguiu nem segurar o próprio marido.
A frase veio seca.
Direta.
Sem aviso.
O impacto foi imediato.
Marcela travou.
— O quê?
A voz saiu mais baixa.
Mais lenta.
Ele continuou.
Sem hesitar.
— Treze anos.
— E ele te deixou.
— Te enganou.
— Te roubou.
Os olhos dele estavam cravados nela.
— Que tipo de mulher não percebe isso?
O mundo pareceu girar mais devagar.
— Você acha que consegue lidar comigo?
Ele continuou.
— Se nem o próprio marido você conseguiu segurar? E mesmo separada, ainda serve de cachorrinha pra ele.
Silêncio.
Pesado.
Cortante.
Marcela sentiu algo quebrar.
Não de dor.
De limite.
— Você não sabe nada sobre mim.
A voz saiu firme.
Mas carregada.
— Eu sei o suficiente.
Ele respondeu.
Pausa.
— Sei que você só tá aqui…
Os olhos dele desceram pelo corpo dela.
Voltaram para o rosto.
— Porque eu tive dó.
Aquilo foi o estopim.
O som do t**a ecoou seco.
Alto.
Claro.
Por um segundo…
O mundo parou.
Abner virou o rosto com o impacto.
O maxilar travou.
A pele marcada.
O silêncio caiu pesado ao redor.
Marcela estava ofegante.
A mão ainda no ar.
O olhar queimando.
— Nunca mais fala assim comigo.
A voz saiu baixa.
Mas firme.
Irrevogável.
Abner ficou parado.
Sem reagir.
Sem se mover.
Os segundos passaram.
Longos.
Densos.
E então…
Ele virou o rosto de volta.
Devagar.
Os olhos estavam diferentes.
Não era só raiva.
Era algo mais profundo.
Mais escuro.
Mas ele não revidou.
Não levantou a mão.
Não avançou.
Só olhou.
— Interessante.
A voz saiu baixa.
Quase controlada demais.
Marcela não recuou.
— Você passou de todos os limites.
Silêncio.
Ele deu um passo mais perto.
Muito perto.
— Você também.
Pausa.
— E eu não vejo a hora…
Os olhos dele prenderam nos dela.
— Desse prazo acabar.
O ar pareceu desaparecer.
— Pra eu poder ir atrás de você…
A voz ficou ainda mais baixa.
Mais fria.
— E acabar com isso.
Marcela sentiu o coração bater forte.
Mas não desviou.
— Eu vou pagar.
Ele inclinou a cabeça.
— Eu espero.
Pausa.
— Porque se não pagar…
Silêncio.
— Eu não vou mais ter dó de você.
Aquilo foi direto.
Sem filtro.
Sem disfarce.
Marcela entendeu.
Perfeitamente.
Ele se afastou.
Como se nada tivesse acontecido.
— Corre.
Disse, virando as costas.
— Porque o tempo tá acabando.
E foi embora.
Deixando ela ali.
Parada.
Respirando pesado.
Com o rosto quente.
A mão ainda ardendo.
Mas agora…
Não era só medo.
Era guerra.
E ela…
Não ia recuar.