Sem Ar

973 Palavras
O medo não chega gritando. Ele não invade de uma vez. Não quebra a porta. Não avisa. Ele se instala devagar. Silencioso. Constante. E quando você percebe… Ele já está em tudo. Marcela começou a sentir isso. Nos detalhes. Nos pequenos momentos. Nos espaços entre uma coisa e outra. No começo, ela ainda tentava racionalizar. Dizia para si mesma que estava exagerando. Que era só pressão. Que ele estava tentando intimidar. Que fazia parte do “negócio”. Mas com o passar dos dias… Essa ideia começou a ruir. Porque Abner não estava só cobrando. Ele estava entrando. Na rotina. Na mente. Na paz. E principalmente… Na segurança. A primeira vez que passou do limite… Foi numa manhã aparentemente comum. Marcela estava saindo de casa. A bolsa no ombro. Chave na mão. A cabeça já no hospital. Nos pacientes. Nos horários. Na vida que ela tentava manter funcionando. Quando abriu o portão… Ele já estava ali. Encostado no carro dela. Como se fosse natural. Como se sempre tivesse estado ali. O coração dela disparou. De susto. De raiva. De… algo mais. — Você perdeu o juízo? A voz saiu mais alta do que ela pretendia. — O que você tá fazendo aqui? Abner não se moveu. Não demonstrou surpresa. Não demonstrou nada. — Bom dia, Marcela. A voz calma. Controlada. Aquilo irritou. Mais do que a presença. Mais do que a invasão. — Você não pode aparecer assim na minha casa. Ele inclinou levemente a cabeça. Observando. — Posso. Silêncio. Pesado. Marcela deu um passo à frente. O olhar duro. — Não pode. Ele sorriu. Mas não era um sorriso leve. Era frio. Vazio. — Eu já sei onde você mora. Pausa. — Isso já aconteceu. O impacto foi imediato. Marcela travou por um segundo. Só um. Mas suficiente. — Então se acostuma. Ele continuou. — Porque agora eu posso aparecer quando eu quiser. O ar pareceu ficar mais pesado. — Você tá passando dos limites. Abner se aproximou. Devagar. Sem pressa. — Limite? Ele repetiu. Como se a palavra fosse estranha. Parou perto. Muito perto. — O único limite aqui… Pausa. Os olhos fixos nela. — É o prazo. Silêncio. Marcela engoliu seco. Mas não recuou. — Eu já falei que vou pagar. — Eu sei. Ele respondeu imediatamente. Sem dúvida. E isso… Foi pior. Porque não parecia preocupação com o dinheiro. Parecia outra coisa. Ele se inclinou um pouco. A voz mais baixa. Mais próxima. — Mas você tá demorando demais pra alguém que diz que consegue. Marcela respirou fundo. Tentando manter o controle. — Eu tô trabalhando. — Eu tô vendo. A resposta veio rápida. Ela franziu a testa. — Como assim? Silêncio. E então ele disse. — Plantão de ontem acabou três e vinte da manhã. Pausa. — Você saiu cansada. — Parou no posto da esquina. — Comprou café. — Ficou dentro do carro por dez minutos antes de ir embora. O sangue de Marcela gelou. Não era suposição. Não era blefe. Ele sabia. — Você tá me seguindo. A voz saiu mais baixa agora. Mais tensa. — Eu tô te observando. Simples. Direto. — Pra ter certeza de que você não tá me fazendo de idiot4. O silêncio caiu pesado. Marcela sentiu algo apertar dentro do peito. — Isso é doentio. Abner não reagiu à palavra. — Isso é necessário. Pausa. — Porque eu já vi muita gente prometer que ia pagar. Os olhos dele ficaram mais frios. Mais duros. — E depois sumir. Marcela cruzou os braços. Tentando se proteger. Mesmo sem perceber. — Eu não sou esse tipo de pessoa. Ele deu um passo mais perto. — Eu também não era esse tipo de homem. Silêncio. E então… Ele mudou. Foi sutil. Mas claro. — Você mora aqui com a sua mãe. A frase veio leve. Quase casual. Mas o efeito… Foi devastador. Marcela congelou. — Ela parece tranquila. Ele continuou. — Educada. — Gentil. Os olhos dele se fixaram nela. — Seria uma pena… Pausa. — Se algo acontecesse com ela. O mundo parou. Marcela sentiu o corpo inteiro travar. O coração disparar. O ar sumir. — Não. A palavra saiu imediata. Firme. — Não coloca ela nisso. Pela primeira vez… Havia medo real na voz dela. E Abner percebeu. Os olhos dele não suavizaram. Não hesitaram. — Então não me dá motivo. Silêncio. Pesado. Insuportável. Marcela deu um passo para trás. Respirando mais rápido agora. — Você é um doente. A voz tremia. Mas não de fraqueza. De raiva. De desespero. Ele não reagiu. — Eu sou um cara que quer o que é dele. Pausa. — E que não tem problema nenhum em fazer o que for preciso pra conseguir. O ar parecia mais denso. Mais difícil de respirar. — Inclusive… Ele completou. — Tirar o que você mais ama. Aquilo atingiu direto. Sem defesa. Marcela sentiu os olhos arderem. Mas não chorou. Não ali. Não na frente dele. — Você não vai encostar nela. A voz saiu baixa. Mas firme. Ele inclinou a cabeça. — Então paga. Simples assim. Sem negociação. Sem emoção. Só consequência. O silêncio se arrastou por alguns segundos. Longos. Pesados. E então… Ele se afastou. Como se tivesse terminado. — Você tá perto. Disse, já indo em direção ao carro. — Eu sei. Marcela ficou parada. Sem entender. Ele abriu a porta. Entrou. Mas antes de fechar… Olhou para ela mais uma vez. — Mas perto… Pausa. — Não é suficiente. E saiu. Marcela ficou ali. Sozinha. Parada. Respirando como se tivesse corrido quilômetros. O corpo tremia. As mãos frias. A mente em caos. Não era mais só pressão. Era medo. Medo de verdade. Porque agora… Não era só sobre ela. Era sobre a única pessoa… Que ela não podia perder. E Abner… Sabia exatamente onde atingir. E não tinha problema nenhum em fazer isso. Nenhum.
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