O medo não chega gritando.
Ele não invade de uma vez.
Não quebra a porta.
Não avisa.
Ele se instala devagar.
Silencioso.
Constante.
E quando você percebe…
Ele já está em tudo.
Marcela começou a sentir isso.
Nos detalhes.
Nos pequenos momentos.
Nos espaços entre uma coisa e outra.
No começo, ela ainda tentava racionalizar.
Dizia para si mesma que estava exagerando.
Que era só pressão.
Que ele estava tentando intimidar.
Que fazia parte do “negócio”.
Mas com o passar dos dias…
Essa ideia começou a ruir.
Porque Abner não estava só cobrando.
Ele estava entrando.
Na rotina.
Na mente.
Na paz.
E principalmente…
Na segurança.
A primeira vez que passou do limite…
Foi numa manhã aparentemente comum.
Marcela estava saindo de casa.
A bolsa no ombro.
Chave na mão.
A cabeça já no hospital.
Nos pacientes.
Nos horários.
Na vida que ela tentava manter funcionando.
Quando abriu o portão…
Ele já estava ali.
Encostado no carro dela.
Como se fosse natural.
Como se sempre tivesse estado ali.
O coração dela disparou.
De susto.
De raiva.
De… algo mais.
— Você perdeu o juízo?
A voz saiu mais alta do que ela pretendia.
— O que você tá fazendo aqui?
Abner não se moveu.
Não demonstrou surpresa.
Não demonstrou nada.
— Bom dia, Marcela.
A voz calma.
Controlada.
Aquilo irritou.
Mais do que a presença.
Mais do que a invasão.
— Você não pode aparecer assim na minha casa.
Ele inclinou levemente a cabeça.
Observando.
— Posso.
Silêncio.
Pesado.
Marcela deu um passo à frente.
O olhar duro.
— Não pode.
Ele sorriu.
Mas não era um sorriso leve.
Era frio.
Vazio.
— Eu já sei onde você mora.
Pausa.
— Isso já aconteceu.
O impacto foi imediato.
Marcela travou por um segundo.
Só um.
Mas suficiente.
— Então se acostuma.
Ele continuou.
— Porque agora eu posso aparecer quando eu quiser.
O ar pareceu ficar mais pesado.
— Você tá passando dos limites.
Abner se aproximou.
Devagar.
Sem pressa.
— Limite?
Ele repetiu.
Como se a palavra fosse estranha.
Parou perto.
Muito perto.
— O único limite aqui…
Pausa.
Os olhos fixos nela.
— É o prazo.
Silêncio.
Marcela engoliu seco.
Mas não recuou.
— Eu já falei que vou pagar.
— Eu sei.
Ele respondeu imediatamente.
Sem dúvida.
E isso…
Foi pior.
Porque não parecia preocupação com o dinheiro.
Parecia outra coisa.
Ele se inclinou um pouco.
A voz mais baixa.
Mais próxima.
— Mas você tá demorando demais pra alguém que diz que consegue.
Marcela respirou fundo.
Tentando manter o controle.
— Eu tô trabalhando.
— Eu tô vendo.
A resposta veio rápida.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
Silêncio.
E então ele disse.
— Plantão de ontem acabou três e vinte da manhã.
Pausa.
— Você saiu cansada.
— Parou no posto da esquina.
— Comprou café.
— Ficou dentro do carro por dez minutos antes de ir embora.
O sangue de Marcela gelou.
Não era suposição.
Não era blefe.
Ele sabia.
— Você tá me seguindo.
A voz saiu mais baixa agora.
Mais tensa.
— Eu tô te observando.
Simples.
Direto.
— Pra ter certeza de que você não tá me fazendo de idiot4.
O silêncio caiu pesado.
Marcela sentiu algo apertar dentro do peito.
— Isso é doentio.
Abner não reagiu à palavra.
— Isso é necessário.
Pausa.
— Porque eu já vi muita gente prometer que ia pagar.
Os olhos dele ficaram mais frios.
Mais duros.
— E depois sumir.
Marcela cruzou os braços.
Tentando se proteger.
Mesmo sem perceber.
— Eu não sou esse tipo de pessoa.
Ele deu um passo mais perto.
— Eu também não era esse tipo de homem.
Silêncio.
E então…
Ele mudou.
Foi sutil.
Mas claro.
— Você mora aqui com a sua mãe.
A frase veio leve.
Quase casual.
Mas o efeito…
Foi devastador.
Marcela congelou.
— Ela parece tranquila.
Ele continuou.
— Educada.
— Gentil.
Os olhos dele se fixaram nela.
— Seria uma pena…
Pausa.
— Se algo acontecesse com ela.
O mundo parou.
Marcela sentiu o corpo inteiro travar.
O coração disparar.
O ar sumir.
— Não.
A palavra saiu imediata.
Firme.
— Não coloca ela nisso.
Pela primeira vez…
Havia medo real na voz dela.
E Abner percebeu.
Os olhos dele não suavizaram.
Não hesitaram.
— Então não me dá motivo.
Silêncio.
Pesado.
Insuportável.
Marcela deu um passo para trás.
Respirando mais rápido agora.
— Você é um doente.
A voz tremia.
Mas não de fraqueza.
De raiva.
De desespero.
Ele não reagiu.
— Eu sou um cara que quer o que é dele.
Pausa.
— E que não tem problema nenhum em fazer o que for preciso pra conseguir.
O ar parecia mais denso.
Mais difícil de respirar.
— Inclusive…
Ele completou.
— Tirar o que você mais ama.
Aquilo atingiu direto.
Sem defesa.
Marcela sentiu os olhos arderem.
Mas não chorou.
Não ali.
Não na frente dele.
— Você não vai encostar nela.
A voz saiu baixa.
Mas firme.
Ele inclinou a cabeça.
— Então paga.
Simples assim.
Sem negociação.
Sem emoção.
Só consequência.
O silêncio se arrastou por alguns segundos.
Longos.
Pesados.
E então…
Ele se afastou.
Como se tivesse terminado.
— Você tá perto.
Disse, já indo em direção ao carro.
— Eu sei.
Marcela ficou parada.
Sem entender.
Ele abriu a porta.
Entrou.
Mas antes de fechar…
Olhou para ela mais uma vez.
— Mas perto…
Pausa.
— Não é suficiente.
E saiu.
Marcela ficou ali.
Sozinha.
Parada.
Respirando como se tivesse corrido quilômetros.
O corpo tremia.
As mãos frias.
A mente em caos.
Não era mais só pressão.
Era medo.
Medo de verdade.
Porque agora…
Não era só sobre ela.
Era sobre a única pessoa…
Que ela não podia perder.
E Abner…
Sabia exatamente onde atingir.
E não tinha problema nenhum em fazer isso.
Nenhum.