A primeira vez que Marcela percebeu… foi quase imperceptível.
Não foi algo claro.
Não foi direto.
Foi sensação.
Ela estava saindo do hospital, fim de tarde, corpo cansado, cabeça cheia, aquela mistura de exaustão física com preocupação constante que já fazia parte da rotina.
O movimento na entrada estava normal.
Pacientes indo e vindo.
Carros parando.
Conversas soltas no ar.
Tudo comum.
Tudo igual.
Mas algo…
Não encaixava.
Marcela parou por um segundo, segurando a bolsa no ombro, olhando ao redor sem saber exatamente o que procurava.
E então viu.
O carro.
Preto.
Parado do outro lado da rua.
Vidros escuros.
Motor ligado.
Imóvel.
Não tinha nada de errado.
Qualquer pessoa veria aquilo e seguiria a vida.
Mas ela…
Sentiu.
Ficou parada por alguns segundos.
Observando.
Tentando identificar.
Tentando entender.
Até que a janela desceu lentamente.
E ele apareceu.
Abner.
Encostado no banco do motorista.
Um braço apoiado na porta.
Olhar fixo nela.
Sem pressa.
Sem expressão.
Como se estivesse ali há muito tempo.
Só esperando.
O coração de Marcela acelerou.
Não de susto.
Mas de impacto.
Ela não via ele desde aquela noite.
Desde o acordo.
Desde o dinheiro.
Desde o começo de tudo.
Teve o breve episódio no hospital com Lucas, mas ela nem pensou nisso.
E agora ele estava ali.
Como se nunca tivesse saído.
Ela atravessou a rua devagar.
Passo firme.
Olhar direto.
Sem demonstrar fraqueza.
Mesmo com o corpo reagindo.
Mesmo com o coração batendo mais forte.
Parou ao lado do carro.
— Você tá me seguindo?
A voz saiu controlada.
Mais firme do que ela realmente se sentia.
Abner inclinou levemente a cabeça.
Observando.
Analisando.
— Não.
Pausa curta.
— Eu tô te encontrando.
Marcela soltou uma respiração curta.
Irritada.
— Qual a diferença?
Ele deu um leve meio sorriso.
— Eu não perco tempo com o que não me interessa.
Silêncio.
A mensagem era clara.
Marcela cruzou os braços.
— O prazo ainda não venceu.
Abner abriu a porta do carro.
Saiu.
Devagar.
Sem tirar os olhos dela.
A diferença de presença era imediata.
Mais próximo.
Mais intenso.
Mais real.
Ele parou a poucos passos.
Perto demais.
— Eu sei.
A voz saiu baixa.
Controlada.
— Mas tá chegando.
Marcela sustentou o olhar.
— E eu vou pagar.
Ele não respondeu de imediato.
Só observou.
Os olhos percorrendo o rosto dela.
Os detalhes.
As reações.
— Eu espero que sim.
Disse por fim.
Sem alterar o tom.
O silêncio caiu entre os dois.
Pesado.
Denso.
Marcela desviou o olhar por um segundo.
Não por medo.
Mas por irritação.
— Então não precisa ficar aparecendo assim.
Abner deu um passo mais perto.
Invadindo o espaço.
De propósito.
— Eu apareço onde eu quiser.
A voz veio mais fria agora.
Mais direta.
Marcela ergueu o queixo levemente.
— Não na minha vida.
Aquilo fez algo nele.
Pequeno.
Mas fez.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
E então se inclinou um pouco mais.
Ficando perto o suficiente para que só ela ouvisse.
— A partir do momento que você pegou meu dinheiro…
Pausa.
— Essa vida deixou de ser só sua.
O impacto foi imediato.
Marcela sentiu o corpo tensionar.
Mas não recuou.
— Eu não sou sua.
A resposta saiu firme.
Sem hesitação.
Os olhos dele escureceram levemente.
Mas não de raiva.
De interesse.
— Eu não disse que você é.
Pausa.
— Eu disse que você tá no meu mundo.
Silêncio.
E então ele se afastou.
Como se nada tivesse acontecido.
— Boa noite, doutora.
A voz voltou ao tom neutro.
Quase educado.
Entrou no carro.
Deu partida.
E foi embora.
Deixando ela ali.
Parada.
Com o coração acelerado.
E a sensação clara de que aquilo…
Tinha acabado de começar.
E começou mesmo.
Nos dias seguintes…
Ele estava em todo lugar.
Não sempre visível.
Não sempre direto.
Mas presente.
Marcela começou a perceber padrões.
O carro estacionado longe.
Às vezes na esquina.
Às vezes do outro lado da rua.
Às vezes desaparecendo assim que ela notava.
No hospital.
Na saída.
Em frente à casa.
Ele não falava.
Não abordava.
Não interferia.
Só observava.
E aquilo…
Era pior.
Porque não dava para prever.
Não dava para controlar.
Não dava para ignorar.
Era como viver com uma sombra.
Sempre ali.
Sempre próxima.
Sempre lembrando.
E então…
Ele voltou a falar.
Dessa vez, direto.
Marcela estava saindo de um plantão noturno.
Cansada.
Mais do que o normal.
O corpo pesado.
A mente lenta.
O estacionamento estava quase vazio.
Poucos carros.
Pouca luz.
Silêncio.
Ela caminhava em direção ao carro quando ouviu a voz.
— Tá trabalhando demais.
Ela parou.
Fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo.
E virou.
Ele estava encostado no carro dela.
Como se fosse dono.
— Você não cansa?
Ele continuou.
O olhar fixo.
Marcela apertou a chave na mão.
— O que você quer?
Abner descruzou os braços.
Se aproximou.
Devagar.
— Saber se você tá se esforçando mesmo.
Ela riu curto.
Sem humor.
— Você tá me fiscalizando agora?
Ele parou perto.
Muito perto.
— Eu tô garantindo meu investimento.
A palavra ecoou.
Investimento.
Marcela sentiu a irritação subir.
— Eu não sou um investimento.
— Mas o dinheiro que você pegou é.
Silêncio.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— E eu não gosto de perder dinheiro.
Marcela deu um passo para trás.
Abrindo espaço.
— Você não vai perder.
— Eu espero que não.
Ele se aproximou de novo.
Encurralando.
Sem tocar.
Mas perto o suficiente para dominar o espaço.
— Porque se perder…
A voz abaixou.
Fria.
Sem emoção.
— Eu te caço.
Pausa.
— E eu te mato.
Não foi grito.
Não foi ameaça exagerada.
Foi simples.
E exatamente por isso…
Mais assustador.
Marcela sentiu o corpo reagir.
Um arrepio subindo pela coluna.
O coração acelerando.
Mas ela não abaixou o olhar.
— Então você vai ter que me encontrar. Que bom que já tá sabendo tudo sobre mim.
A resposta saiu firme.
Mesmo com tudo.
Silêncio.
Abner ficou olhando.
Por mais tempo do que deveria.
E então…
Um leve sorriso surgiu.
Pequeno.
Quase imperceptível.
— Eu sempre encontro.
Ele se afastou.
Como se tivesse terminado.
— Trabalha mais.
Disse, já virando as costas.
— Porque o tempo tá acabando.
E saiu.
De novo.
Deixando ela ali.
Respirando fundo.
Tentando manter o controle.
Mas agora era diferente.
Não era mais só dívida.
Não era mais só pressão.
Era jogo.
E Abner…
Não jogava pra perder.
E Marcela…
Estava cada vez mais dentro disso.
Sem saída.