O Preço

1238 Palavras
O silêncio entre os dois não era vazio. Era carregado. Pesado. Cheio de coisas não ditas, mas completamente presentes. Marcela ainda estava inclinada levemente para frente, sustentando o olhar, enquanto Abner a observava como se estivesse desmontando cada camada dela sem precisar encostar. Ele não respondeu de imediato. E aquilo… fazia parte do jogo. Tempo. Pressão. Controle. — Você não sabe onde tá se metendo. A voz dele veio mais baixa dessa vez, mas ainda firme. Marcela não desviou. — Sei o suficiente. — Não sabe. Ele respondeu, quase no mesmo instante. Os olhos estreitaram levemente. — Aqui não é banco. — Aqui não tem segunda chance. — Não tem negociação depois. Cada palavra saía com peso. Medida. — Se você não pagar… eu não cobro duas vezes. Marcela sentiu o impacto da frase. Sentiu. Mas não demonstrou. — Eu vou pagar. Simples. Direto. Sem tremor. Abner inclinou levemente a cabeça, analisando. — Todo mundo diz isso. Ela não respondeu de imediato. Respirou fundo. E então falou. — Eu não sou todo mundo. Silêncio. Curto. Mas suficiente. — Eu dou um jeito. Eu trabalho. Ela completou. Os olhos dele não saíram dela. Nem por um segundo. E ali, naquele momento… Ele percebeu algo. Ela não estava implorando. Ela não estava desesperada da forma comum. Ela estava decidida. E isso era diferente. Perigoso. Mas interessante. Muito interessante. — É arriscado pra mim. Ele disse, finalmente. Mais baixo agora. Quase como se estivesse falando mais pra si do que pra ela. — Você é nova aqui. — Eu não te conheço. — Não sei como você lida com pressão. — Não sei até onde você aguenta. Marcela respondeu sem hesitar. — Aguento o suficiente. Os olhos dele voltaram a prender nos dela. Mais intensos. Mais focados. — Aguenta morrer? A pergunta veio seca. Sem emoção. Marcela segurou o olhar. E respondeu. — Se eu não fizer isso… Não tenho outro jeito. Aquilo fez o ambiente mudar. Muito pouco. Mas mudou. Foi rápido. Quase imperceptível. Mas ele percebeu. E ela também. E, pela primeira vez… Ela tinha deixado escapar uma parte da verdade. Não tudo. Mas o suficiente. Abner ficou em silêncio. Pensando. Pesando. Calculando. Mas, no meio de tudo isso… Tinha outra coisa ali. Algo que ele não estava acostumado a considerar. Ela. O jeito dela. O olhar firme. A ausência de medo. Ou a capacidade absurda de esconder. E, principalmente… A forma como ela não abaixava a cabeça. Nunca. Ele respirou fundo. Lentamente. E tomou a decisão. — Tá. A palavra saiu simples. Mas mudou tudo. Marcela piscou uma vez. Como se confirmasse que tinha ouvido certo. — Eu vou emprestar. Ele completou. O coração dela disparou. Mas, por fora… Ela continuou firme. — Com juros. Ele continuou. — Altos. — E com prazo. Ele fez uma pausa. — Do meu jeito. Ela assentiu. Sem questionar. — Tudo bem. Abner puxou uma pasta da gaveta. Abriu com calma. Pegou alguns papéis. Caneta. Movimentos organizados. Preciso. Ele começou a escrever. Nome. Dados. Valores. Termos. Tudo ali. Na hora. Sem formalidade de banco. Mas com um peso muito maior. — Nome completo. Ele pediu, sem olhar. Marcela respondeu. Ele anotou. — Documento. Ela entregou. Ele conferiu. Escreveu. Cada detalhe. Cada informação. Como se estivesse gravando ela ali. Não só no papel. Mas na memória. Enquanto escrevia, os olhos dele voltavam para ela. Frequentemente. Demais. Observando. O cabelo loiro caindo pelos ombros. A forma como ela mantinha a postura. A maneira como os olhos não fugiam. Aquilo… Não era comum. Ele já tinha visto muitas mulheres. Muitas. Mas nenhuma… Assim. Sem jogo. Sem medo aparente. Sem submissão. E aquilo… Chamava atenção de um jeito perigoso. Quando terminou, ele girou o papel na direção dela. — Assina. Marcela pegou a caneta. O coração batia forte. Aquilo era real. Sem volta. Sem saída fácil. Ela leu rápido. Não tudo. Mas o suficiente. Sabia que não tinha escolha. E assinou. O nome ficou ali. Marcela Dias. Definitivo. Ela devolveu a caneta. E, por alguns segundos… Eles só se olharam. Sem falar nada. Sem desviar. O silêncio ali não era desconfortável. Era carregado. Tenso. Diferente. Algo novo. Algo que nenhum dos dois entendia ainda. Mas sentia. Abner quebrou o silêncio. — Espera. Ele levantou. Caminhou até uma parte do escritório. Uma porta discreta. Quase escondida. Abriu. Entrou. Marcela ficou sozinha. O coração ainda acelerado. A cabeça cheia. O corpo tenso. Segundos depois… Ele voltou. Carregando uma mala. Depois outra. Pesadas. Cheias. Dinheiro vivo. Muito. O tipo de quantia que não se vê normalmente. Ele colocou as malas no chão. O som foi firme. Real. Aquilo não era mais teoria. Era concreto. Abner se aproximou. Devagar. Até ficar perto. Muito perto. Mais do que o necessário. Marcela sentiu. A presença dele era forte. Dominante. O cheiro leve de perfume caro misturado com algo mais bruto. Os olhos dele encontraram os dela. Direto. Sem filtro. Sem suavizar. E então ele disse, baixo, mas extremamente claro: — Você tá levando o meu dinheiro. Uma pausa. — E eu quero ele de volta. Mais perto agora. Mais intenso. — Com todos os juros. Silêncio. — Se você não devolver… Ele inclinou levemente a cabeça. Os olhos ainda presos nos dela. — Eu te caço. A voz abaixou ainda mais. — E te mato. Não era ameaça vazia. Era promessa. Marcela sentiu o peso. Sentiu tudo. Mas não recuou. Não desviou. — Eu vou devolver. A resposta saiu firme. Direta. Sem espaço pra dúvida. Aquilo fez algo nele mudar. De novo. Sutil. Mas real. Ele se afastou. E, como se tivesse trocado um botão interno… Mudou completamente. A expressão suavizou. O tom ficou leve. Quase cordial. — Bom. Ele disse. — Negócio fechado. Um leve sorriso apareceu. — Prazer em te conhecer, Marcela. O nome dela agora não era mais desconhecido. Aquilo também tinha peso. Ela respondeu com um aceno leve. Ainda processando. Ainda sentindo. Abner pegou as malas. Como se não pesassem. E fez um gesto. — Vamos. Eles saíram do escritório. O ar do lado de fora parecia diferente agora. Mas o ambiente ainda era o mesmo. Morro. Música. Olhares. Só que agora… Com outro significado. Ele caminhava na frente. Ela atrás. E, mais uma vez, as pessoas reagiam. Abrindo espaço. Evitando. Respeitando. Ou temendo. Chegaram até o carro dela. Abner abriu o porta-malas. Colocou as malas com cuidado. Fechou. Marcela se aproximou da porta do motorista. Ia entrar. Quando percebeu. A porta do carona abrindo. E ele entrando. Simples assim. Como se fosse natural. Marcela travou. — O que você tá fazendo? Ele ajeitou o banco. Tranquilo. — Você tá andando com uma quantia alta em dinheiro. A voz calma. — É perigoso. Ela franziu a testa. — Eu não pedi isso. Ele olhou pra frente. Como se já estivesse decidido. — Não precisa pedir. Silêncio. Marcela apertou o volante. — Eu sei dirigir sozinha. — Não é sobre dirigir. Ele respondeu. Simples. — É sobre chegar viva e bem, sem perder o dinheiro. Aquilo calou. Mas não convenceu totalmente. — Eu não quero você indo comigo. Ela insistiu. Ele virou o rosto lentamente. Olhou pra ela. E naquele olhar… Tinha decisão. — Eu vou. Simples. Sem espaço pra discussão. Marcela percebeu. Ali… Ela não estava no controle. Ela nunca esteve. Respirou fundo. Ligou o carro. E saiu. Com ele ao lado. Com dinheiro no porta-malas. E com a certeza… De que a vida dela tinha mudado. Completamente.
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