Dentro de Casa

1123 Palavras
O carro desceu o morro devagar. Marcela mantinha as duas mãos firmes no volante, os dedos levemente tensos, como se aquilo ajudasse a manter o controle da situação. A rua ainda estava movimentada, música ecoando ao fundo, pessoas andando sem se preocupar com nada, como se aquele mundo tivesse regras próprias. Mas dentro do carro… Era outro clima. Silêncio. Pesado. Presente. Ela conseguia sentir ele ali ao lado sem precisar olhar. A presença dele era forte demais para passar despercebida. Não era só física. Era algo maior, mais dominante, mais… difícil de ignorar. Marcela tentou focar na direção. Na rua. No caminho. Mas a mente não parava. O que acabou de acontecer? Por que eu fiz isso? Quem é esse homem? Ela respirou fundo, tentando organizar os pensamentos, mas não conseguiu ficar quieta por muito tempo. — Você ainda não me disse seu nome. A voz saiu controlada, mas carregada de curiosidade. Abner não respondeu. Ficou olhando para frente, como se a pergunta não fosse relevante. O silêncio voltou. Marcela apertou levemente os lábios. — Você sempre faz isso? Ela continuou. — Acompanha as pessoas depois que empresta dinheiro? Ainda sem resposta imediata. Ele só desviou o olhar por um segundo, observando o perfil dela enquanto ela dirigia, e então voltou a encarar a estrada. — Não. Simples. Curto. Marcela arqueou levemente a sobrancelha. — Então por que tá fazendo agora? Ele respondeu sem olhar para ela. — Quero saber onde você mora. Aquilo fez ela virar o rosto por um instante, surpresa. — Pra quê? A resposta veio no mesmo tom frio de sempre. — Caso eu precise ir te m***r. Marcela ficou em silêncio por meio segundo. E então… Ela riu. Não foi um riso forçado. Nem nervoso. Foi espontâneo. — Você é muito sombrio. Ela disse, ainda com um leve sorriso. — Mas, por incrível que pareça… eu não sinto medo de você. Aquilo fez ele virar o rosto. Devagar. O olhar encontrou o dela. Mais intenso agora. Mais direto. — Deveria. A palavra saiu baixa. Marcela sustentou. Sem recuar. — Talvez. Ela respondeu. — Mas não sinto. Silêncio. Curto. E então, de forma inesperada, ele puxou levemente o paletó para o lado. Revelando. A arma. Preta. Fria. Real. Muito real. Marcela arregalou os olhos. O susto foi imediato. Ela quase perdeu o controle do volante. O carro deu uma leve desviada. — Ei! Ela corrigiu rápido. O coração disparado. A respiração descompassada. Abner riu. Baixo. Divertido. — Agora sentiu? Marcela soltou o ar, ainda tensa. — Você é louco. Ele encostou novamente no banco, tranquilo. — Abner. Ela olhou rapidamente pra ele. — O quê? — Meu nome. Ele disse. — Abner. O nome ficou no ar por um segundo. Marcela repetiu mentalmente. Gravou. Sem perceber. — Marcela você já sabe. Ela respondeu, quase automático. — Eu sei. A resposta veio com um leve tom diferente. Mais baixo. Mais próximo. O resto do caminho seguiu em silêncio. Mas agora… diferente. Não era mais só tensão. Tinha algo novo ali. Algo que nenhum dos dois nomeava. Mas sentia. Quando o carro finalmente parou em frente à casa, Marcela respirou fundo. A mansão se destacava na rua. Grande. Imponente. Mesmo com o peso das dívidas, ainda carregava presença. Abner observou. Sem comentar. Mas analisando. Sempre analisando. Marcela desligou o carro. O silêncio voltou. Mais calmo agora. — Chegamos. Ela disse. Abner apenas assentiu. Saiu do carro. Deu a volta. Abriu o porta-malas. E pegou as malas como se não fossem nada. Mas eram. Pesadas. Muito. Marcela se aproximou. — Pode deixar aqui. Ela disse. — Eu levo. Abner nem olhou pra ela. — Não. Simples. — Tá pesado. Ela insistiu. — Eu consigo. Ele finalmente olhou. Direto. Silencioso. E aquilo já foi resposta. — Eu levo. Ele repetiu. Marcela soltou o ar. Sabia que discutir ali não ia adiantar. Abriu a porta da casa. — Só não faz barulho. Ela disse, mais baixa agora. — Minha mãe tá dormindo. Abner entrou. E, pela primeira vez, o ambiente mudou completamente. O morro ficou para trás. O luxo… voltou. Mas de uma forma diferente. Mais íntima. Mais pessoal. A casa era grande, bem cuidada, com móveis de bom gosto, decoração elegante, mas sem exagero. Tudo ali tinha história. Memória. Vida. Abner percebeu. Claro que percebeu. Ele sempre percebia. Subiram as escadas. Os passos dele firmes, silenciosos mesmo com o peso das malas. Marcela abriu a porta do quarto. — Pode deixar ali. Ela apontou para a cama. Abner entrou. Colocou as malas com cuidado. O som foi leve. Controlado. Ele olhou ao redor por um segundo. Rápido. Mas suficiente. O quarto dela. Organizado. Feminino. Mas forte. Como ela. Ele se ajeitou, passando a mão rapidamente no paletó. E então virou para sair. Sem enrolar. Sem estender. Como se aquilo fosse só mais uma parte do processo. Mas quando chegaram no corredor… Algo inesperado aconteceu. Uma porta se abriu. Devagar. E uma mulher apareceu. Madalena. O rosto suave. Olhos gentis. Mas com um leve cansaço que só quem estava prestando atenção perceberia. Ela olhou primeiro para Marcela. — Filha? A voz doce. Depois o olhar foi para Abner. Curioso. Mas sem julgamento. Sem medo. — Oh… Um leve sorriso apareceu. — Boa noite. Abner parou. Por um segundo. Mas o suficiente. E então… Algo completamente fora do padrão aconteceu. Ele mudou. Não de forma forçada. Mas natural. Instantânea. Respeitosa. Ele se aproximou levemente. Pegou a mão dela com cuidado. E beijou. Um gesto antigo. Elegante. Quase inesperado demais para quem ele era. — Boa noite, senhora. A voz saiu diferente. Mais suave. Mais educada. Mais… humana. Madalena sorriu. Encantada. — Que educação bonita. Ela disse. — Não se vê muito hoje em dia. Marcela observava. Sem acreditar. Aquilo não fazia sentido. Era o mesmo homem? O mesmo que ameaçou m***r ela minutos atrás? Madalena continuou. — Você é amigo da Marcela? Antes que ela respondesse, Abner respondeu. — Acabei de conhecê-la. Trouxe ela em segurança para casa. Simples. Mas educado. Madalena assentiu. — Então seja muito bem-vindo. Ela disse. — Eu acordei com vontade de tomar um chá. Um sorriso leve. — Querem me acompanhar? Marcela abriu a boca na hora. — Mãe, acho melhor— Mas não terminou. Porque Abner respondeu primeiro. — Eu aceito. Simples. Direto. Marcela virou o rosto pra ele na hora. Incrédula. Madalena sorriu, satisfeita. — Então vamos. Ela disse, já virando para ir. E naquele exato momento… Antes de seguir… Abner olhou para Marcela. E sorriu. De leve. Mas com intenção. Provocação pura. Como se dissesse, sem precisar falar: Agora eu fiquei. E, pela primeira vez desde que entrou naquele mundo… Marcela não sabia se aquilo era um problema maior… Ou pior do que todos os outros juntos.
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