O Homem

1182 Palavras
A cozinha estava silenciosa quando entraram. Era um silêncio diferente daquele do morro. Não carregado de tensão, mas de rotina, de casa, de vida acontecendo ali há anos. A luz amarelada deixava o ambiente mais acolhedor, mais íntimo, quase como um refúgio contra tudo que existia do lado de fora. Madalena caminhava com calma, mesmo com o cansaço evidente no corpo. Havia uma delicadeza nos movimentos, algo que não vinha de força física, mas de costume. Era o tipo de mulher que aprendeu a continuar mesmo quando tudo pesava. Marcela encostou levemente no batente da porta da cozinha, os braços cruzados, observando. Ainda estava tentando entender o que exatamente estava acontecendo. Aquilo parecia um cenário montado, deslocado da realidade que ela tinha acabado de viver. Abner entrou logo atrás de Madalena, mas não com a postura de quem invadiu um espaço. Era como se ele se adaptasse rápido demais aos ambientes. Como se soubesse exatamente como se portar em qualquer lugar. — Fique à vontade — Madalena disse, abrindo um armário e pegando algumas xícaras. — A casa é simples, mas é de coração. Abner deu um leve sorriso. — Casas assim são as melhores. A resposta saiu natural. Sem esforço. Sem exagero. Marcela percebeu. E aquilo incomodou um pouco. Porque parecia… verdadeiro. Madalena começou a preparar o chá com movimentos lentos, mas seguros. Pegou a chaleira, colocou água, acendeu o fogão. Tudo com aquele cuidado que só quem faz isso há anos tem. Fizeram uma breve apresentação... Abner observou por um segundo. E então se aproximou. — Posso ajudar? A pergunta foi simples. Mas inesperada. Madalena virou o rosto, surpresa. — Claro que pode. Ela sorriu, satisfeita. — Pega aquele pote ali, por favor. Chá de camomila. Ele foi. Sem hesitar. Sem parecer deslocado. Sem parecer que aquilo não fazia parte do mundo dele. Pegou o pote, abriu, sentiu o cheiro por um segundo, como se estivesse realmente presente naquele momento. Marcela continuava parada, olhando. Aquilo não encaixava. Não encaixava com o homem que colocou duas malas cheias de dinheiro na cama dela, depois de ameaçar ela várias vezes. Não encaixava com o homem que disse que mataria ela sem piscar. E, ainda assim… Era o mesmo. — Você mora aqui há muito tempo? — Abner perguntou, enquanto ajudava a organizar as xícaras. — Há anos — Madalena respondeu. — Essa casa era do meu marido. A voz ficou um pouco mais suave. Mais carregada. — Ele faleceu recentemente. Abner assentiu. Respeitoso. — Sinto muito. — A vida é assim — ela respondeu, com um sorriso leve. — A gente perde… e aprende a continuar. Marcela desviou o olhar por um segundo. Aquilo doeu. Mas ela voltou a encarar a cena. Sem interferir. Sem se envolver. Só observando. — E você, Abner? — Madalena perguntou, enquanto colocava a água para ferver. — O que você faz? Marcela prestou atenção na hora. Aquilo importava. Ela queria ouvir. Precisava ouvir. Abner não hesitou. — Sou empresário. Simples. Direto. Mas verdadeiro. — Tenho algumas empresas. — Que tipo de empresa? A curiosidade de Madalena era leve. Sem desconfiança. Sem malícia. Abner encostou levemente na bancada, relaxado. — Trabalho com luxo. — Joalherias. — Algumas marcas. — Construção também. Falava com naturalidade. Sem ostentar. Sem diminuir. Apenas dizendo. Madalena abriu um sorriso encantado. — Que interessante. Ela realmente parecia admirada. — Sempre admirei quem constrói coisas grandes. Abner inclinou levemente a cabeça. — Dá trabalho. — Mas compensa. Ela riu. — Imagino que sim. A água começou a ferver. O som trouxe um conforto estranho ao ambiente. Madalena desligou o fogo, colocou o chá, esperou um pouco. Abner ajudou a servir. Como se já tivesse feito aquilo antes. Como se fosse parte de quem ele era. E, de certa forma… Era. Eles se sentaram à mesa. Marcela mais afastada. Ainda em silêncio. Observando. Tentando entender. — E você, dona Madalena — Abner disse, segurando a xícara com cuidado. — o que gosta de fazer? Ela sorriu. — Eu gostava de trabalhar. — Trabalhei muitos anos em hotel. — Hoje… eu gosto de cuidar da casa. — E da minha filha. O olhar dela foi até Marcela. Carregado de carinho. De orgulho. Abner acompanhou. E, por um segundo… Observou Marcela de uma forma diferente. Mais suave. Mais curiosa. Mais… atenta. — Ela é médica — Madalena continuou, claramente orgulhosa. — Sempre foi muito dedicada. Marcela respirou fundo, desconfortável com o foco. — Mãe… Mas Madalena não parou. — Sempre cuidando dos outros. — Desde pequena. Abner voltou o olhar para Marcela. — Imagino. A voz saiu baixa. Quase pensativa. Marcela evitou sustentar por muito tempo. Desviou. Pegou a xícara. Tomou um gole. Mas sentiu. Ele estava observando. De novo. A conversa continuou. Leve. Natural. Madalena contando histórias simples, engraçadas, lembranças do passado. Abner ouvindo com atenção real. Interagindo. Rindo. Sim. Rindo. Um riso verdadeiro. Sem cálculo. Sem intenção. E aquilo… Era completamente fora do que Marcela tinha visto até agora. Em alguns momentos, ele ajudava a servir mais chá, puxava a cadeira para Madalena, ajustava alguma coisa na mesa. Pequenos gestos. Mas cheios de significado. De educação. De cuidado. De algo que não combinava com o homem que ela conheceu no morro. E, quanto mais o tempo passava… Mais confuso ficava. Porque ele não parecia estar fingindo. Não ali. Não com Madalena. Madalena, por sua vez, estava encantada. — Você é um rapaz muito educado — ela disse, sorrindo. — Raro hoje em dia. Abner deu um leve sorriso. — Fui bem ensinado. Mentira. Mas dita com tanta naturalidade… Que parecia verdade. — E muito divertido também — ela continuou, rindo de algo que ele tinha acabado de comentar. Marcela observava. Em silêncio. Mas por dentro… Algo se mexia. Não era confiança. Longe disso. Mas era dúvida. E dúvida… era perigosa. O tempo passou mais rápido do que parecia. Quando deram conta, as xícaras já estavam quase vazias. O ambiente mais leve. Mais confortável. Mas, para Marcela… Mais confuso do que nunca. Abner olhou discretamente para o relógio. E então se levantou. — Já vou indo. Simples. Madalena levantou também. — Já? — Foi um prazer — ele disse. E foi. De verdade. Ele se aproximou novamente. Pegou a mão dela com cuidado. Beijou. Como antes. Com respeito. Com elegância. — O prazer foi meu — Madalena respondeu. — Volte mais vezes. Marcela quase reagiu. Mas se segurou. Abner sorriu de leve. — Quem sabe. Ele virou para sair. Passou por Marcela. Mas, ao passar… Parou por um segundo. Muito rápido. Quase imperceptível. Olhou para ela. Sem falar nada. Mas com aquele mesmo olhar. Profundo. Intenso. E saiu. A porta se fechou. O silêncio voltou. Mas agora… Carregado de algo novo. Marcela ficou parada por alguns segundos. Sem se mexer. Sem pensar direito. Só sentindo. Madalena suspirou, satisfeita. — Que rapaz agradável. Marcela virou o rosto lentamente. — Mãe… Mas não terminou. Porque nem ela sabia o que dizer. Porque o homem que acabou de sair daquela casa… Não era o mesmo que ameaçou m***r ela. Mas era. E isso… Era o mais perigoso de tudo.
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