Bárbara narrando
O carro seguia subindo o morro, enquanto eu tentava reconhecer qualquer coisa pela janela. As ruas iam ficando mais estreitas, as casas mais próximas umas das outras, e o barulho parecia crescer a cada curva. Eu apertava a alça da mochila no colo, como se aquilo fosse a única coisa sólida que ainda me ligava à vida que eu conhecia.
Minha mãe dirigia em silêncio por alguns minutos, até perceber que eu estava tensa demais.
— Você não precisa se preocupar com nada, Bárbara — ela disse, com a voz calma, quase carinhosa. — De verdade. Enquanto você estiver comigo, eu vou cuidar de você.
Olhei pra ela de lado, sem saber exatamente como reagir. Era estranho ouvir aquilo agora, depois de tantos anos de distância.
— Eu vou continuar pagando sua faculdade — ela continuou. — Você não vai precisar sair. Não quero que sua vida pare por causa disso tudo.
Meu peito apertou.
— Mãe… — eu murmurei. — Eu achei que… sei lá… que eu ia ter que largar tudo.
— Não — ela respondeu firme. — Você lutou pra chegar onde chegou. Eu não vou tirar isso de você.
Fiquei em silêncio, engolindo o nó na garganta. Talvez fosse tarde pra recuperar tudo que a gente perdeu, mas aquele cuidado inesperado mexia comigo mais do que eu gostaria de admitir.
— A gente tem um espaço no morro — ela continuou, como se quisesse me distrair. — Fica bem no pico.
— Espaço? — perguntei, confusa.
— Dois ambientes. No começo era um bar que eu abri quando cheguei aqui. Mas as coisas mudaram. — Ela sorriu de leve. — Hoje embaixo funciona como uma lanchonete, e em cima é uma tabacaria. O pessoal sobe muito pra fumar narguilé, conversar… virou ponto.
Eu tentava imaginar minha mãe naquele cenário. Empreendendo. Crescendo. Sobrevivendo.
— Se você quiser — ela disse —, pode até me ajudar a administrar. Você faz Administração, não faz? Pode ser bom pra você. Aprender na prática.
Suspirei fundo.
— Agora eu não tô com cabeça pra isso — respondi, sincera. — Ainda tá tudo muito recente.
Ela assentiu, respeitando.
— Eu sei. Não tô te pressionando.
Olhei de novo pela janela. O morro era vivo demais pra alguém que só queria silêncio.
— Mas… — eu completei —, fico feliz por você. De verdade. Pelo menos você conseguiu seguir em frente. Construiu alguma coisa.
Ela sorriu, dessa vez com os olhos marejados.
— Você também vai conseguir, filha.
Seguimos em silêncio por mais alguns minutos, até que percebi que ela estava inquieta. As mãos apertavam o volante com mais força do que antes.
— Tem uma coisa que eu preciso te contar — ela disse, finalmente.
Meu coração acelerou.
— O quê?
— Você não precisa se preocupar, tá? — ela apressou-se em dizer. — Mas eu não quero que você descubra depois.
Virei o corpo inteiro pra ela.
— Mãe, fala logo.
Ela respirou fundo.
— Meu marido é envolvido.
Senti um choque percorrer meu corpo.
— Envolvido como? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
— Ele… — ela hesitou —, ele é o Caveira.
Meu mundo parou.
— O quê?! — arregalei os olhos, sentindo o sangue gelar. — Você tá falando daquele Caveira?
Ela assentiu devagar.
— Ele tem um filho também. O Lobo.
Eu levei a mão à testa, incrédula.
— Agora eu entendo — falei, a voz já carregada de raiva. — Agora eu entendo por que a vó sempre dizia que eu tinha que manter distância de você. Porque você nunca teve juízo nenhum!
— Bárbara, calma… — ela tentou.
— Calma? — rebati, sentindo a dor virar indignação. — Um desses marginais tirou a vida da minha avó! E você acha mesmo que eu vou conseguir viver no meio deles como se nada tivesse acontecido?
Ela freou um pouco mais à frente, respirou fundo antes de responder.
— Você não sabe quem foi — disse, com cuidado. — E não pode colocar todo mundo no mesmo saco. O Caveira é um homem bom. Ele ajuda os moradores. Mantém ordem aqui.
Eu ri, sem humor.
— Ordem? — perguntei. — E o que acontece quando alguém faz algo que ele não gosta?
Ela ficou em silêncio.
— Ele passa a mão na cabeça das pessoas… — continuei —, ou ele cobra com a vida?
Minha mãe engoliu seco. Não respondeu.
E, naquele silêncio, eu tive a resposta.
Olhei pra frente, sentindo uma mistura de medo, nojo e decepção. Tudo dentro de mim gritava que aquele não era o meu lugar.
— Eu agradeço pela ajuda — falei, num tom mais frio do que eu esperava —, mas isso vai ser provisório. Assim que eu puder, eu vou embora desse lugar.
Ela suspirou, derrotada.
— Eu só quero te proteger.
— Então me protege de tudo isso — respondi baixo.
O carro parou.
Ergui o olhar devagar.
A casa era grande, imponente, diferente de tudo ao redor. E, parado na porta, como se estivesse esperando por nós, estava ele.
Caveira.
Alto, postura firme, sorriso enorme no rosto — um sorriso que não combinava em nada com o que aquele nome representava pra mim. Ele parecia genuinamente feliz com a situação. Como se minha chegada fosse um presente.
Meu estômago revirou.
Ali, olhando praquele homem, eu tive certeza de uma coisa: eu tinha acabado de entrar no lugar mais errado possível. E não fazia ideia de como — ou se — conseguiria sair inteira dali.