Capítulo 02

924 Palavras
Bárbara narrando O carro seguia subindo o morro, enquanto eu tentava reconhecer qualquer coisa pela janela. As ruas iam ficando mais estreitas, as casas mais próximas umas das outras, e o barulho parecia crescer a cada curva. Eu apertava a alça da mochila no colo, como se aquilo fosse a única coisa sólida que ainda me ligava à vida que eu conhecia. Minha mãe dirigia em silêncio por alguns minutos, até perceber que eu estava tensa demais. — Você não precisa se preocupar com nada, Bárbara — ela disse, com a voz calma, quase carinhosa. — De verdade. Enquanto você estiver comigo, eu vou cuidar de você. Olhei pra ela de lado, sem saber exatamente como reagir. Era estranho ouvir aquilo agora, depois de tantos anos de distância. — Eu vou continuar pagando sua faculdade — ela continuou. — Você não vai precisar sair. Não quero que sua vida pare por causa disso tudo. Meu peito apertou. — Mãe… — eu murmurei. — Eu achei que… sei lá… que eu ia ter que largar tudo. — Não — ela respondeu firme. — Você lutou pra chegar onde chegou. Eu não vou tirar isso de você. Fiquei em silêncio, engolindo o nó na garganta. Talvez fosse tarde pra recuperar tudo que a gente perdeu, mas aquele cuidado inesperado mexia comigo mais do que eu gostaria de admitir. — A gente tem um espaço no morro — ela continuou, como se quisesse me distrair. — Fica bem no pico. — Espaço? — perguntei, confusa. — Dois ambientes. No começo era um bar que eu abri quando cheguei aqui. Mas as coisas mudaram. — Ela sorriu de leve. — Hoje embaixo funciona como uma lanchonete, e em cima é uma tabacaria. O pessoal sobe muito pra fumar narguilé, conversar… virou ponto. Eu tentava imaginar minha mãe naquele cenário. Empreendendo. Crescendo. Sobrevivendo. — Se você quiser — ela disse —, pode até me ajudar a administrar. Você faz Administração, não faz? Pode ser bom pra você. Aprender na prática. Suspirei fundo. — Agora eu não tô com cabeça pra isso — respondi, sincera. — Ainda tá tudo muito recente. Ela assentiu, respeitando. — Eu sei. Não tô te pressionando. Olhei de novo pela janela. O morro era vivo demais pra alguém que só queria silêncio. — Mas… — eu completei —, fico feliz por você. De verdade. Pelo menos você conseguiu seguir em frente. Construiu alguma coisa. Ela sorriu, dessa vez com os olhos marejados. — Você também vai conseguir, filha. Seguimos em silêncio por mais alguns minutos, até que percebi que ela estava inquieta. As mãos apertavam o volante com mais força do que antes. — Tem uma coisa que eu preciso te contar — ela disse, finalmente. Meu coração acelerou. — O quê? — Você não precisa se preocupar, tá? — ela apressou-se em dizer. — Mas eu não quero que você descubra depois. Virei o corpo inteiro pra ela. — Mãe, fala logo. Ela respirou fundo. — Meu marido é envolvido. Senti um choque percorrer meu corpo. — Envolvido como? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta. — Ele… — ela hesitou —, ele é o Caveira. Meu mundo parou. — O quê?! — arregalei os olhos, sentindo o sangue gelar. — Você tá falando daquele Caveira? Ela assentiu devagar. — Ele tem um filho também. O Lobo. Eu levei a mão à testa, incrédula. — Agora eu entendo — falei, a voz já carregada de raiva. — Agora eu entendo por que a vó sempre dizia que eu tinha que manter distância de você. Porque você nunca teve juízo nenhum! — Bárbara, calma… — ela tentou. — Calma? — rebati, sentindo a dor virar indignação. — Um desses marginais tirou a vida da minha avó! E você acha mesmo que eu vou conseguir viver no meio deles como se nada tivesse acontecido? Ela freou um pouco mais à frente, respirou fundo antes de responder. — Você não sabe quem foi — disse, com cuidado. — E não pode colocar todo mundo no mesmo saco. O Caveira é um homem bom. Ele ajuda os moradores. Mantém ordem aqui. Eu ri, sem humor. — Ordem? — perguntei. — E o que acontece quando alguém faz algo que ele não gosta? Ela ficou em silêncio. — Ele passa a mão na cabeça das pessoas… — continuei —, ou ele cobra com a vida? Minha mãe engoliu seco. Não respondeu. E, naquele silêncio, eu tive a resposta. Olhei pra frente, sentindo uma mistura de medo, nojo e decepção. Tudo dentro de mim gritava que aquele não era o meu lugar. — Eu agradeço pela ajuda — falei, num tom mais frio do que eu esperava —, mas isso vai ser provisório. Assim que eu puder, eu vou embora desse lugar. Ela suspirou, derrotada. — Eu só quero te proteger. — Então me protege de tudo isso — respondi baixo. O carro parou. Ergui o olhar devagar. A casa era grande, imponente, diferente de tudo ao redor. E, parado na porta, como se estivesse esperando por nós, estava ele. Caveira. Alto, postura firme, sorriso enorme no rosto — um sorriso que não combinava em nada com o que aquele nome representava pra mim. Ele parecia genuinamente feliz com a situação. Como se minha chegada fosse um presente. Meu estômago revirou. Ali, olhando praquele homem, eu tive certeza de uma coisa: eu tinha acabado de entrar no lugar mais errado possível. E não fazia ideia de como — ou se — conseguiria sair inteira dali.
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