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LOBO - Minha Perdição

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Sinopse

SINOPSE Talita cresceu sem ter ninguém por ela. Abandonada ainda criança, aprendeu cedo que o mundo não passa a mão na cabeça de ninguém. Sobreviveu como deu, até encontrar abrigo na oficina de um senhor simples e de coração grande, que lhe ensinou mais do que um ofício — ensinou o que era ter um teto, respeito e um lugar pra voltar no fim do dia.Mas na quebrada, tudo pode mudar de um dia pro outro.Quando perde tudo de uma vez, Talita vê seu chão desabar e entende que ficar não é mais opção. É no Complexo da Maré que ela tenta recomeçar, num lugar onde a paz existe, sim — mas só pra quem sabe andar certo, baixar a cabeça quando precisa e respeitar quem manda.Decidida a levantar sua oficina do zero e proteger a única pessoa que ainda lhe restou, Talita faz escolhas que parecem certas no momento… mesmo sabendo que toda decisão ali tem preço.É então que o caminho dela cruza com o de Lobo. Dono do território, respeitado e temido, ele carrega o perigo no olhar e o silêncio de quem já viu coisa demais. Lobo desperta nela medo, curiosidade e um sentimento proibido que não pede permissão pra nascer.Entre becos, lealdades, perdas e promessas que podem custar caro, Talita começa a perceber que, na favela, não existe escolha sem consequência. E talvez entrar no mundo de Lobo seja mais fácil do que encontrar uma saída dele.

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Capitulo 01
Bárbara narrando Eu ainda estava com a roupa preta do enterro quando tudo desabou de vez. O cheiro das flores grudava em mim, misturado com aquele silêncio estranho que fica depois que todo mundo vai embora. A casa da minha avó parecia grande demais sem ela. Vazia. Fria. Cada passo meu ecoava como se eu estivesse invadindo um lugar que já não me pertencia, mesmo eu tendo vivido ali a vida inteira. Deixei a bolsa em cima da mesa e encostei na pia, tentando respirar. O enterro tinha sido rápido. Seco. Como se a morte dela fosse só mais uma notícia r**m no meio de tantas outras. Mas pra mim era o fim de tudo. Minha avó não era só minha avó. Era minha casa, minha segurança, minha família inteira resumida numa pessoa só. Eu m*l tive tempo de chorar. A porta foi aberta com força, batendo na parede, me arrancando do torpor. Minha tia entrou sem me olhar direito. O rosto duro, os braços cruzados, como quem já tinha ensaiado aquele momento. — Bárbara, a gente precisa conversar. Meu estômago revirou. — Agora não… — eu murmurei, a voz falhando. — Eu acabei de chegar do enterro. Ela deu de ombros, indiferente. — Pois é. E eu não vou ficar enrolando. Essa casa agora é minha. Eu senti o ar sumir dos meus pulmões. — Como assim… sua? — Sua avó deixou tudo pra mim. — Ela apontou em volta, impaciente. — E eu não quero ninguém aqui. Muito menos você. Meu coração começou a bater tão forte que doía. — Tia, eu sempre morei aqui… — tentei argumentar. — Essa casa também é minha lembrança com ela. Ela riu, sem humor. — Lembrança não paga conta. Você já é maior de idade. Não é mais minha responsabilidade. Eu senti as pernas fraquejarem. — Você tá me expulsando? — perguntei, mesmo sabendo a resposta. — Tô sendo clara. — Ela me encarou finalmente. — Você tem até amanhã de manhã pra sair. Arruma suas coisas e dá um jeito na sua vida. Cada palavra caiu como um tapa. Eu não gritei. Não chorei na frente dela. Só fiquei parada, sentindo a dor se espalhar pelo meu peito, pesada demais pra caber em mim. Ela saiu do jeito que entrou, deixando a porta aberta e um silêncio ensurdecedor atrás de si. Quando fiquei sozinha, eu desabei. Me sentei no chão da sala, ainda de preto, abraçando as pernas, chorando do jeito que não chorei no enterro. Chorei pela minha avó, pela injustiça, pela solidão, pelo medo. Chorei porque não tinha pra onde ir. Peguei o celular com a mão tremendo. O nome da minha mãe apareceu na tela e, por um segundo, eu hesitei. A gente m*l se falava. Eu sabia tão pouco da vida dela quanto ela da minha. Mas não existia outra opção. Disquei. Ela atendeu no terceiro toque. — Bárbara? — a voz dela veio surpresa. — Aconteceu alguma coisa? Eu tentei falar, mas só consegui chorar. — Filha… calma, respira… me conta. E eu contei. Do enterro. Da casa. Da minha tia. Do prazo até de manhã. Contei tudo entre soluços, com vergonha de estar ligando só quando precisava, com medo de ouvir um “não”. Do outro lado da linha, ela ficou em silêncio por alguns segundos. Eu prendi a respiração. — Você vem pra cá — ela disse, firme, mas doce. — Você é minha filha. Sua casa é comigo. Eu senti algo quebrar dentro de mim. — Mãe… eu não queria atrapalhar… — falei baixo. — Atrapalhar? — ela resportei rápido. — Bárbara, isso é tudo o que eu mais quero. Ter você comigo. Eu devia ter feito isso antes. Minha garganta fechou. — Eu vou te buscar — ela continuou. — Hoje. Agora, se você quiser. Você não vai passar essa noite sozinha. Fechei os olhos, deixando as lágrimas caírem livres. Pela primeira vez desde que minha avó morreu, eu senti um fio de segurança atravessar o caos. — Tá bom… — eu sussurrei. — Eu espero você. Desliguei o celular e fiquei ali, sentada no chão da casa que já não era mais minha, cercada de lembranças e dor. Mas, pela primeira vez em dias, eu não estava completamente sozinha. E isso, naquele momento, era tudo o que eu tinha.

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