capítulo 08

1090 Palavras
Lobo narrando Não sei que p***a essa mina tem. Só sei que, só de estar perto dela, eu fico bolado. Não é raiva direito, não é só desejo, não é só vontade de mandar ela calar a boca e sumir da minha frente. É um bagulho que mistura tudo, que me deixa desnorteado, como se eu tivesse perdido o controle da situação — e eu nunca perco o controle de nada. Ou pelo menos não perdia. Assim que chegamos em casa ontem, eu subi direto para o meu quarto porque a minha vista tava toda embaçada. A cachaça batendo, a cabeça rodando, o peito pesado de um jeito que não era só bebida. Fui sentar na cama e passei direto, como se o mundo tivesse saído do lugar. Bati a cabeça na cômoda do lado e fiquei ali jogado no chão, sentindo uma dor do cäcete e tentando entender onde eu tava. Fiquei uns minutos largado, encarando o teto, com aquela sensação de que tudo tava girando. Ódio de mim mesmo por ter perdido a linha. Ódio dela por mexer comigo daquele jeito. Ouvi barulhos de passos e ela entrou no meu quarto toda apressada. Nem sei como conseguiu subir sem eu ouvir. Só sei que, quando vi a silhueta dela na porta, já me subiu uma irritação no peito. Mandei sair. Falei que não pedi ajuda. Que eu tava suave. Mentira. Eu m*l conseguia levantar. Mas levantei. Fui direto pro banheiro, liguei o chuveiro e entrei debaixo da água gelada. Senti o gelo descendo pela cabeça, escorrendo pelo rosto, levando embora a cachaça, levando embora a confusão. Fiquei ali parado uns dez minutos, só respirando, ouvindo o barulho da água batendo no azulejo. Eu precisava esfriar a cabeça. Quando saí, me troquei. Só uma bermuda de jogar bola. Sequei o cabelo, passei desodorante, estendi a toalha no box. Fiquei me olhando no espelho por uns segundos. Sabe Quando tu fica com aquela sensação de que fez alguma parada errada? Saí do quarto decidido a fazer o que tinha que ser feito. Fui até o quarto da Bárbara pra pedir desculpas. Não era do meu feitio, mas eu tinha pesado a mão. Tinha mandado ela se virar sozinha na frente de geral. Depois ainda fui atrás, cheio de marra, parecendo um adolescente com ciúme. Bati na porta. Nada. Esperei. Nada. Abri. Ela tava dormindo de bruços, sem coberta, o ar ligado no máximo. O celular vibrando em cima da mesa de cabeceira. Eu entrei devagar, descalço, tentando não fazer barulho. Foi aí que eu vi. Na tela do celular tava escrito “amor”. E a foto de um cara. Um cara com cara de playboy, sorriso de comercial de pasta de dente. Fiquei encarando a tela vibrando. Meu maxilar travou na hora. Senti o estômago revirar, mas não era fome ainda. Era outra coisa. Deixei tocar. Não era problema meu. Saí do quarto antes que eu fizesse merda. Antes que eu pegasse aquele celular e jogasse na parede. Antes que eu atendesse e arrumasse b.o pra mim depois. Entrei no meu quarto, fechei a porta e me joguei na cama. Liguei o ar, a televisão, qualquer coisa pra distrair a cabeça. Mas a imagem da tela não saía da minha mente. “Amor.” Tentei dormir, mas meu estômago começou a roncar. Desci pra cozinha já eram quase três da manhã. Eu m*l tinha comido o lanche, porque a mandada molhou tudo. A casa inteira em silêncio. Abri a geladeira e vi a lasanha que a Jaqueline trouxe da lanchonete. Esquentei um pedaço no micro-ondas e fiquei sentado mexendo no celular enquanto o prato girava. Pensando. Meu pai não tava no morro. Eu tava na responsa. Carga nova chegando. Movimento aumentando. E eu ali, com a cabeça ocupada por causa de uma mina que nem era minha. Isso me irritava mais do que qualquer coisa. Depois que comi, subi e finalmente consegui dormir. Acordei às oito com o Juninho me chamando no rádio. — E aí, arrombadø, vai dormir o dia inteiro? A carga chegou e até agora você não apareceu. Mandei ele contar dez que eu tava chegando. A cabeça ainda latejando por causa da queda. Levantei, fiz minhas higienes, joguei água no rosto pra espantar o resto do sono e fui me vestir. A casa ainda tava em silêncio. Ela devia estar dormindo ainda. Ou falando com o tal “amor”. Saí sem fazer barulho, subi na moto e fui pro galpão. O vento batendo na cara ajudou a clarear a mente. Quando encostei lá, o celular tocou. Meu pai. Atendi na hora. Ele perguntou se tava tudo na paz. Falei que sim, que já ia conferir a carga. Ele avisou da blitz, que ia atrasar. Normal. Até que ele soltou a bomba: — Autorizei o namorado da Bárbara entrar no morro. Quando ele chegar, manda liberar. Fiquei em silêncio por meio segundo. Namorado. Então era oficial. Respondi um “uhum” seco e desliguei. Meu peito ficou pesado de novo. Não era raiva do cara. Eu nem conhecia ele. Era uma sensação estranha de território invadido. Fiz um toque com o Juninho assim que chegueie ele já veio cheio de ideia torta. — que pörra aconteceu ontem com tu lobo? tu fez a Mina passar a maior vergonha e depois foi atrás dela levar ela em casa igual um o****o. — viaja não Juninho, não aconteceu pörra nenhuma não. Eu só ajudei ela porque depois meu pai ia ficar pesando na minha. Ele riu na minha cara. — Sei não hein, me pareceu mais um tipo de ciúme tá ligado? — Vai tomar no cu vai, bora logo conferir essa p***a, porque ainda tenho que ir para a boca ver como que tá as paradas por lá. Os caras descarregando o caminhão, caixas passando de mão em mão. Eu abrindo, conferindo, anotando. Trabalho é trabalho. Quando eu tô na função, eu foco. Mas minha cabeça não tava 100%. Juninho ainda falava da Lisa, dizendo que não desistia dela. Eu falei que ele era maluco, que o senhor Clóvis nunca ia deixar ele se aproximar. Ele respondeu que brasileiro não desiste nunca. Balancei a cabeça. Moleque é insistente. Foi aí que um dos vapores se aproximou. — Aí, patrão, tem um playboy aqui na barreira falando que é namorado de uma tal de Bárbara. Meu coração deu uma batida diferente. peguei o rádio, olhei para o Juninho que estava prestando atenção e mandei na lata. — Vixe, sei quem é não. Pode mandar vazar.
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