Lá estava a Hanna aos prantos, eu a chamei, disse que eu estava bem, mas ela não me ouvia, tampouco me via, e de repente lá estava eu jogado no chão. Mas como? Como eu podia estar em dois lugares ao mesmo tempo? Isso não era possível. Ou era...? E por que a minha namorada não conseguia me ver ali em sua frente gritando por ela?
Sem entender o que estava acontecendo, resolvi ir pra casa, cheguei no exato momento que mamãe abriu a porta para Hannah, que estava aos prantos, eu falava com ambas, que fingiam não me ver, nem me ouvir, deixei as duas e entrei na minha casa, onde tinha meu pai, Haley e três amigos meus, todos pareciam felizes, estavam esperando por mim, mas eu já havia chegado.
- Oi pessoal, que bom ver vocês aqui. - Falei.
Fui ignorado por todos. De repente escutei um grito da minha mãe, todos nos assustamos, me virei e ela estava abaixada no chão aos prantos e gritava muito, papai correu para ver o que tinha acontecido, mamãe o abraçou parecendo desesperada, e eu ali sem entender nada, foi aí que ela disse:
- O nosso filho. Ele... O nosso menino, ele... Ele está morto.
Morto? Como assim? Não, não podia, eu estava vivinho da silva, eu não tinha morrido, se eu tivesse, acho que eu saberia. Ou não?
- Mãe, eu estou aqui.
Tentei tocá-la, mas minha mão atravessou seu ombro, foi quando eu comecei a cogitar a hipótese de... Eu estava morto mesmo. Não. Eu não podia. Eu só tinha 16 anos, eu tinha uma vida inteira pela frente, tantos planos e sonhos. Não era pra eu ter morrido, era pra eu estar na festa do meu aniversário com as pessoas que eu amo.
Em questão de segundos já estavam todos chorando e tentando entender o que havia acontecido, Hanna comentou sobre o assalto e foi aí que eu lembrei do que havia ocorrido. Aquele tiro. Aquele maldito tiro. Aqueles malditos bandidos. p***a, eu não podia estar morto. Eu não me sentia como um fantasma ou um espírito, eu não sentia que estava morto. E se de fato, eu estava, não era pra eu estar no céu? A menos que... Ai, meu Deus, eu devia ter cometido algo terrível para não ter subido, uma vez eu tinha lido que se uma pessoa tem muitos pecados, quando ela morre seu espírito fica vagando por aí sem rumo. Eu não queria isso.
Hanna falou que meu corpo havia sido levado para o IML, e que havia preferido ir direto para minha casa dar a triste notícia, pois não queria que meus pais vissem o meu corpo, ou melhor, o meu cadáver.
(...)
De repente eu estava em um lugar estranho, eu não sabia onde era, não consegui reconhecer. Várias pessoas caminham por mim e me olham, não sei se fico feliz por elas poderem me ver ou assustado.
E então um Senhor se aproxima de mim, ele era alto, tinha a pele um pouco morena, barba por fazer e cabelo castanho encaracolado e curto. Eu nunca o tinha visto antes, mas algo dentro de mim me disse que eu sabia de quem se tratava.
- Stéfano, fico feliz em lhe ver. - Ele disse de forma simpática.
- Puxa, demorou, hein? Eu fiquei um tempão lá embaixo, sabia?
Ele me olhou com reprovação, acho que ninguém nunca tinha falado com Ele daquela maneira. Envergonhado, e arrependido da forma que eu havia falado, me encolhi em mim mesmo.
- Desculpe, Senhor. - Falei.
- Tudo bem, meu jovem. Venha, vamos passear para conversar um pouco.
Ele me levou para caminhar por entre aquelas nuvens que pareciam serem feitas de algodão, até que era divertido, parecia que eu estava flutuando. Eu olhava para aquele senhor sem ter plena certeza que ele era realmente quem eu achava que ele era, queria perguntar, mas fiquei com medo de ser uma pergunta estúpida.
O homem me confirmou o que eu já sabia, eu realmente estava morto, eu implorei muito para Ele me dar só mais uma chance, prometi que eu me comportaria e só tiraria 10 no colégio, mas infelizmente tive meu pedido negado.
Nesse novo plano eu não tinha mais as necessidades básicas (fome, sede, sono, vontade de ir ao banheiro, etc), eu adoraria estar estudando, mas vivo, ah, se eu tivesse uma segunda chance, eu só tiraria nota boa na escola.
De onde eu estava, podia observar tudo o que acontecia no andar de baixo (que era como as pessoas ali chamavam a terra). Eu conseguia ver minha família sofrendo, a Hannah e meus amigos também, eles estavam chorando por minha causa e infelizmente eu não podia fazer nada para eles ficarem bem. Sempre que alguém estava triste, eu buscava alegrar a pessoa, 99% das vezes eu conseguia, mas agora eu já não podia fazer isso.
Pude ver até o meu enterro, minha família toda estava presente, minha namorada, meus colegas e professores também e no dia do meu enterro acabou não havendo aula. Fiquei tão triste por toda aquela situação. Eu queria estar com eles.
E cada vez que eu via a minha família chorando por minha causa eu ficava mais triste, ah, se eu pudesse voltar pelo menos por cinco minutos só pra eu me despedir e dizer o quanto eu os amo.
- Não, é justo, não era pra eu estar aqui. - Pensei em voz alta enquanto via minha mãe chorando abraçada em uma foto da nossa família.
Uma senhora de cerca de 90 anos se aproximou de mim, e começou a falar:
- É, meu jovem. Eu vivi 9 décadas, passei por tanta coisa nessa vida, minha mãe morreu no meu parto, 2 anos depois eu perdi meu pai e meu irmão mais velho na primeira guerra mundial, sem família, acabei indo morar em um abrigo, onde eu era constantemente agredida pelas freiras e abusada pelos padres, fiquei 10 anos lá até ser adotada por um casal, mas os dois não queriam uma filha e sim uma empregada, eu era obrigada a trabalhar na casa e na loja deles em troca de comida e moradia. Mas graças ao meu bom Deus, com quase 16 anos eu conheci um rapaz de 24 por quem eu me apaixonei e acabamos indo morar juntos, casamos, tivemos 4 filhos e ainda eu tive 7 netos e 10 bisnetos. Eu vivi bastante, rapaz. Mas olhe para você, tinha uma vida inteira pela frente, com certeza você não devia estar aqui.
Ela me deu um sorriso simpático e se virou para se retirar.
- Espera. - Chamei fazendo com que ela se virasse para mim. - Qual é o teu nome?
- Cora Madalena. - Me sorriu e saiu.
Cora Madalena? Esse era o nome da minha bisavó, que faleceu há muitos anos. Mas será? Bom, esse não era um nome tão comum assim. Sorri com a possibilidade, que era quase uma certeza.