O céu começou a clarear devagar.
Primeiro um tom azul muito escuro, quase imperceptível no horizonte atrás do morro. Depois uma linha mais clara surgindo entre as casas, iluminando aos poucos os telhados de zinco e as vielas ainda silenciosas.
Dentro do bunker, o clima era completamente diferente de algumas horas antes.
A música tinha parado.
As garrafas estavam vazias.
As lanternas e lâmpadas improvisadas ainda iluminavam o espaço, mas agora tudo estava mais quieto.
A madrugada inteira de trabalho finalmente tinha cobrado seu preço.
Os homens estavam cansados.
Muito cansados.
Alguns se sentaram nas caixas que tinham acabado de empilhar. Outros apenas encostaram nas paredes de concreto, alongando os braços doloridos.
Valente passou a mão no rosto.
A barba áspera raspando na palma.
O corpo inteiro pesava.
Mas quando ele olhou ao redor e viu as fileiras de caixas organizadas no bunker, uma satisfação silenciosa atravessou seu peito.
Aquilo ali representava meses de dinheiro.
Mas ele ainda precisa de mais.
Só que era bom, saber que tinham conseguido trazer tudo sem perder nada.
Ele respirou fundo.
— Chega por hoje.
A voz dele ecoou pelo bunker.
— Todo mundo trabalhou demais.
Alguns homens assentiram imediatamente.
— Graças a Deus.
— Eu não sinto mais minhas costas.
Dioguinho riu, jogando uma caixa de luvas no chão.
— Ninguém mandou envelhecer.
— Vai se ferrar — respondeu um dos rapazes, arrancando algumas risadas.
Alice estava encostada na mesa onde antes tinha organizado os pagamentos.
Ela também parecia cansada.
As olheiras suaves denunciavam a madrugada sem descanso.
Mas ainda assim o olhar dela estava atento.
Observando.
Calculando.
Valente se aproximou dela.
— Acho que acabou.
Ela olhou ao redor.
Caixas empilhadas.
Caminhões vazios lá fora.
Homens se preparando para ir embora.
— Por enquanto — respondeu ela.
Ele soltou um pequeno sorriso.
— Você nunca para, né?
Alice deu de ombros.
— Alguém precisa pensar no amanhã.
Dioguinho apareceu ao lado deles, esfregando os olhos.
— Amanhã não.
— Hoje.
Ele apontou para fora do bunker.
— Já tá amanhecendo.
Valente olhou também.
A luz do dia já começava a entrar pela entrada do bunker.
O céu estava mais claro.
— Então é isso.
Ele ergueu a voz novamente.
— Pode todo mundo ir.
Os homens começaram a se dispersar.
Alguns apertavam as mãos uns dos outros.
Outros apenas levantavam os envelopes recebidos como despedida.
— Valeu, chefe.
— Valeu, Barbie.
— Qualquer coisa chama de novo.
Um por um foram saindo.
Subindo as escadas do bunker.
Desaparecendo na luz fraca da manhã.
Em poucos minutos, restaram apenas três pessoas ali dentro.
Valente.
Dioguinho.
Alice.
O silêncio que ficou parecia estranho depois de tanta movimentação.
Dioguinho abriu os braços.
— Finalmente.
— Eu vou dormir três dias seguidos.
Valente riu.
— Sonha.
Ele olhou para Alice.
— Você vem?
Ela assentiu.
— Sim.
Desde que tinha chegado ao morro, Alice estava ficando na casa de Valente.
Era uma solução temporária.
Pelo menos era o que ela dizia.
Até recuperar o dinheiro que Valente tinha perdido.
Até juntar novamente a quantia que precisava. Ganhar uma parte e abrir seu próprio negócio, para esfregar na cara do pai e da irmã que ela é sim, capaz de gerenciar um negócio rentável.
Na cabeça dela, aquela quantia era de vinte milhões.
Um número absurdo para qualquer pessoa comum.
Mas Alice não fazia ideia de que a verdade era bem pior.
Valente sabia.
E carregava aquilo como um peso constante.
Porque a dívida real não era de vinte milhões.
Era cinquenta.
E as ameaças que ele vinha recebendo nas últimas semanas eram cada vez mais claras.
Cada vez mais violentas.
Mas Alice não sabia disso.
Ainda não.
E, naquele momento, Valente também não tinha intenção de contar.
Saíram do bunker juntos.
A luz da manhã já iluminava o morro.
Algumas pessoas começavam a abrir as portas das casas.
Crianças ainda dormiam.
Cachorros latiam preguiçosamente.
A favela acordava devagar.
Eles caminharam pela rua principal em silêncio.
Alice esticou os braços.
— Eu estou destruída.
Dioguinho riu.
— E olha que você só mandou.
Ela lançou um olhar para ele.
— Só mandei?
Valente respondeu antes que a discussão começasse.
— Não provoca.
Dioguinho levantou as mãos.
— Eu tô quieto.
A casa de Valente ficava em uma parte mais alta do morro.
Uma construção grande.
Quando entraram, Alice foi direto para o sofá.
— Eu não existo mais.
Valente jogou as chaves sobre a mesa.
— Vai dormir.
Ela não discutiu.
Nem tinha energia para isso.
Alguns minutos depois, o silêncio tomou conta da casa.
Horas depois.
O sol já estava alto quando Alice abriu os olhos.
O corpo ainda pesado.
Ela se levantou devagar.
O relógio na parede marcava quase duas da tarde.
— Caramba…
Ela passou a mão no rosto e caminhou até a cozinha.
Valente estava lá.
Sentado à mesa.
Com uma xícara de café.
Ele olhou para ela.
— Bom dia.
Ela olhou o relógio novamente.
— Isso não é mais dia.
Ele deu um meio sorriso.
— Dormiu bem?
Ela se sentou.
— Como uma pedra.
Alguns minutos depois, Dioguinho chegou também.
— Vocês dois estão vivos?
Alice respondeu:
— Mais ou menos.
Ele abriu a geladeira.
— Então bora trabalhar.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Trabalhar?
Valente olhou para ela.
— Vamos pro bunker.
Alice imediatamente se animou um pouco.
— Certo.
Algum tempo depois, os três estavam novamente dentro do bunker.
Agora silencioso.
Sem a bagunça da madrugada.
A luz natural entrando pela entrada principal iluminava parte das caixas empilhadas.
Dioguinho cruzou os braços.
— Então…
— Agora a gente tem um problema.
Alice virou para ele.
— Qual?
Ele apontou ao redor.
— Isso tudo.
Valente também observava.
— Tem muita coisa aqui.
Alice respondeu calmamente:
— Eu sei.
Dioguinho franziu a testa.
— Então qual é o plano?
Alice caminhou lentamente entre as caixas.
Passando a mão por uma delas.
Depois virou para os dois.
— Primeiro…
— A gente vai contar tudo.
Os dois olharam para ela como se ela tivesse falado absurdo.
Valente foi o primeiro.
— Contar?
Dioguinho abriu os braços.
— Você tá vendo o tamanho disso?
— Tem coisa pra caramba aqui.
Alice cruzou os braços.
— Exatamente.
— Por isso precisa contar.
Valente suspirou.
— Barbie…
— Isso vai levar dias.
Ela respondeu imediatamente:
— Talvez.
— Mas é necessário.
Dioguinho balançou a cabeça.
— Pra quê?
Alice começou a explicar, como se estivesse falando com alunos.
— Porque a gente precisa saber exatamente quanto tem aqui.
Ela levantou um dedo.
— Primeiro: para saber quanto conseguimos produzir.
Outro dedo.
— Segundo: para saber quanto pode ser vendido.
Terceiro dedo.
— Terceiro: para definir preço.
Valente ficou em silêncio.
Ela continuou:
— Sem números…
— Vocês estão vendendo no escuro.
Dioguinho coçou a cabeça.
— Nunca contamos antes.
Alice respondeu:
— E provavelmente isso é um grande fator que explica que vocês perderam todo aquele dinheiro por causa disso também.
Valente olhou ao redor novamente.
As pilhas de caixas.
O bunker cheio.
Depois olhou para Alice.
Ela estava séria.
Concentrada.
Totalmente no modo estrategista.
Ele suspirou.
— Tá bom.
Dioguinho arregalou os olhos.
— Sério?
Valente deu de ombros.
— Se ela diz que precisa…
Alice pegou um caderno da mochila.
— Então vamos começar.
Ela abriu a primeira página.
Escreveu um título.
E olhou para os dois.
— Bem-vindos ao controle de estoque.
Dioguinho murmurou:
— Eu sabia que ela ia transformar isso num escritório.
Valente soltou uma pequena risada.
Mas no fundo…
Ele sabia.
Mais uma vez.
Ela provavelmente estava certa.