O movimento dentro do bunker foi diminuindo aos poucos.
Durante mais de uma hora, homens tinham ido e voltado entre os caminhões e o interior do galpão subterrâneo, carregando caixas, organizando espaços, empilhando tudo de maneira que não chamasse atenção caso alguém aparecesse ali sem aviso. Nem parecia que tinham transferido tudo aqui em 10 min de um caminhão para outro.
O ar estava pesado.
Mistura de poeira, cheiro de madeira das caixas e o suor de quem tinha passado a madrugada inteira trabalhando.
Valente apoiou as mãos na cintura e observou o interior do bunker.
O lugar estava diferente agora.
Antes parecia apenas um espaço grande, meio improvisado, com algumas mesas, cadeiras, prateleiras e equipamentos espalhados.
Agora estava cheio.
Caixas empilhadas em fileiras organizadas.
Algumas cobertas com lonas escuras.
Outras empurradas para áreas mais escondidas.
Alice — ou Barbie, como praticamente todo mundo ali já a chamava — caminhava lentamente entre os corredores improvisados, observando tudo com o olhar atento.
Ela não deixava passar nada.
Parava aqui.
Ajustava uma caixa ali.
Pedia para moverem outra alguns centímetros para o lado.
Dioguinho, encostado em um dos pilares de concreto, balançou a cabeça.
— Essa mulher é pior que fiscal.
Valente soltou um sorriso de canto.
— Ainda bem.
Ele também observava Alice.
Ela tinha trocado a postura da comemoração por algo completamente diferente.
Agora parecia novamente a estrategista que tinha guiado tudo naquela noite.
Concentrada.
Fria.
Organizada.
Depois de mais alguns minutos, um dos homens bateu as mãos para tirar a poeira.
— Acho que foi tudo.
Outro confirmou:
— Os caminhões estão vazios.
Valente assentiu.
— Beleza.
Alice parou no meio do espaço e olhou ao redor.
Dez homens.
Todos cansados.
Alguns suados.
Mas todos com aquela expressão de quem sabia que tinha participado de algo grande e receberiam grande também.
Ela respirou fundo.
Depois bateu duas vezes na mesa metálica que estava ali perto.
— Pessoal.
As conversas diminuíram.
— Chega aqui um minuto.
Os homens começaram a se aproximar.
Alguns ainda limpando as mãos nas calças.
Outros pegando copos de água.
Valente e Dioguinho também chegaram perto.
Alice apoiou as duas mãos na mesa e observou cada rosto ali.
Ela sabia exatamente quem eram.
Sabia o que tinham feito naquela noite.
E sabia que aquilo criava uma ligação complicada entre todos eles.
Porque agora todos compartilhavam o mesmo segredo.
Ela falou com calma.
— Primeiro…
— Obrigada.
Alguns homens trocaram olhares.
Não estavam acostumados com aquele tipo de reconhecimento.
Alice continuou.
— O que vocês fizeram hoje não foi simples.
— Não foi fácil.
— E não foi pequeno.
Ela apontou com a cabeça para as caixas empilhadas.
— Aquilo ali só está aqui por causa do trabalho de vocês.
Dioguinho cruzou os braços, observando em silêncio.
Alice continuou:
— E como combinado…
Ela abriu uma pasta que estava sobre a mesa.
Dentro havia vários envelopes organizados em ordem.
— Todo mundo vai receber muito bem pelo serviço.
Alguns homens trocaram olhares rápidos.
Era a parte que todo mundo esperava.
Alice levantou um dos envelopes.
— Mas antes…
Ela olhou diretamente para o grupo.
A expressão dela ficou mais séria.
— A gente precisa falar de uma coisa.
O bunker ficou em silêncio.
Ela continuou:
— O que aconteceu hoje aqui…
— Precisa ficar aqui.
Nenhum som.
Nenhuma brincadeira.
Nada.
Alice cruzou os braços.
— Isso não é segredo só meu.
— Não é só do Valente.
— Não é só do Diogo, ou Dioguinho.
Ela fez um pequeno gesto com a mão, apontando para o grupo inteiro.
— É de todo mundo que participou.
Os homens começaram a se entreolhar.
Ela continuou:
— Se essa informação vazar…
— Não vai sobrar só pra gente.
A frase ficou no ar.
Pesada.
Um dos homens coçou a nuca.
— A gente sabe.
Alice assentiu.
— Eu sei que vocês sabem.
Ela apoiou as mãos na mesa novamente.
— Mas eu prefiro deixar isso claro.
Ela falou mais devagar agora.
— Se alguém abre a boca…
— Todo mundo se ferra junto. Os donos dessas cargas não devem ser muito simpáticos e eles vão caçar, sem dúvidas, com muita vontade... Quem causou esse prejuízo para eles.
O silêncio voltou.
Dessa vez mais longo.
Alguns homens assentiram lentamente.
Outros apenas ficaram olhando para o chão.
Porque todos ali entendiam perfeitamente o que aquilo significava.
Valente observava em silêncio.
No fundo, ele estava impressionado.
Alice tinha um jeito de falar que não parecia ameaça.
Mas também não deixava espaço para dúvida.
Um dos rapazes finalmente falou:
— Relaxa.
— Isso aqui morre aqui.
Outro completou:
— Ninguém é doido de abrir a boca.
Um terceiro levantou a mão como quem faz um juramento improvisado.
— Se alguém fala, a gente mesmo resolve.
Algumas risadas nervosas surgiram.
Alice levantou a mão.
— Calma.
— Não precisa disso.
Ela voltou ao tom mais tranquilo.
— Eu só precisava que todo mundo estivesse na mesma página.
Valente finalmente falou:
— E tá.
Ele olhou ao redor.
— Certo?
Os homens assentiram.
— Certo.
— Tá tranquilo.
— Pode confiar.
Alice respirou fundo.
Depois pegou uma caneta.
— Então vamos fazer a parte boa.
Ela abriu o primeiro envelope.
— Vamos por ordem.
Ela pegou um papel da pasta.
Uma lista.
Com nomes escritos à mão.
Ao lado, valores.
Dioguinho levantou a sobrancelha.
— Você fez lista até disso?
Alice nem olhou para ele.
— Claro.
Ela chamou:
— João.
Um dos homens levantou a mão.
— Aqui.
Ele se aproximou da mesa.
Alice pegou o envelope correspondente.
— Confere o nome.
Ele olhou o envelope.
— Tá certo.
Ela entregou.
— Conta depois.
Ele abriu só um pouquinho, só para espiar.
Um sorriso apareceu imediatamente.
— Tá bom.
Alice anotou algo na lista.
— Assina aqui.
Ela virou o papel e apontou uma linha.
João pegou a caneta.
Assinou.
Depois saiu da frente, ainda sorrindo.
— Valeu.
Alice chamou o próximo.
— Marcos.
Outro homem se aproximou.
O processo se repetiu.
Envelope.
Conferência.
Assinatura.
Valente observava tudo.
Encostado em um dos pilares.
Ele percebeu algo interessante.
Alice não apenas entregava os envelopes.
Ela conferia tudo.
Nome.
Valor.
Assinatura.
Como se aquilo fosse uma empresa formal.
Dioguinho cochichou:
— Ela trata isso como se fosse escritório.
Valente respondeu baixo:
— E é exatamente por isso que funciona.
Um por um, os homens foram passando pela mesa.
Alguns brincavam.
— Barbie, se tiver bônus de hora extra eu aceito.
Ela respondia sem levantar o olhar da lista.
— Trabalha mais que a gente conversa.
Outro disse:
— Da próxima vez chama de novo.
Alice respondeu:
— Se fizer direito como hoje, pode apostar que eu chamo.
As risadas continuavam surgindo.
Mas o processo seguia organizado.
Envelope.
Nome.
Assinatura.
Alice riscava cada nome da lista conforme terminava.
Depois de alguns minutos, restavam apenas dois nomes.
Ela chamou o penúltimo.
Depois o último.
Quando o último homem assinou o papel, Alice fechou a pasta.
— Pronto.
Ela bateu levemente na mesa.
— Todo mundo pago.
Os homens começaram a guardar os envelopes nos bolsos.
Alguns ainda comentavam entre si.
— Valeu a pena.
— Foi pesado, mas compensou.
Valente se aproximou da mesa.
Olhou a pasta.
Depois olhou para Alice.
— Você pensou em tudo mesmo.
Ela levantou os olhos.
— Alguém precisava manter ordem.
Ele sorriu de canto.
— Eu já falei isso hoje, mas vou repetir.
Ela arqueou a sobrancelha.
— O quê?
Valente respondeu:
— Se não fosse você…
— Talvez nada disso tivesse dado certo.
Alice apoiou o cotovelo na mesa.
— Cuidado.
— Você já me elogiou demais hoje.
Ele riu.
— Não se acostuma.
Ela fechou a pasta e respondeu:
— Não pretendo.
Mas no fundo…
Ela sabia que aquela noite tinha mudado alguma coisa.
Para todo mundo ali.
Especialmente entre ela e Valente.