A música já ecoava pelo pátio do bunker quando os primeiros copos começaram a circular.
Alguém tinha arrastado uma caixa de som grande para perto da entrada do galpão. As batidas graves reverberavam nas paredes de concreto, misturando-se com o barulho de gargalhadas, garrafas abrindo e vozes animadas.
A tensão que havia dominado a madrugada parecia ter se dissolvido completamente.
Depois de horas dirigindo com o coração acelerado, esperando sirenes surgirem a qualquer momento, aquele clima de vitória tinha um gosto quase surreal.
Um dos rapazes levantou o copo no meio da roda improvisada.
— Hoje a gente escapou bonito!
— Brinda isso aí!
Copos se chocaram no ar.
— À sorte!
— À coragem!
— Ao morro das Garças!
Outro gritou, levantando a garrafa:
— E à Barbie!
Uma onda de gritos e risadas tomou conta do pátio.
— À Barbie!
— À contadora!
— À loira!
Alice, que estava encostada em um dos pilares do bunker com o copo na mão, levantou as sobrancelhas ao ouvir o coro.
— Ah não…
Mas já era tarde.
Dioguinho apareceu ao lado dela, rindo.
— Hoje você virou celebridade.
Ele ergueu o copo também.
— Se não fosse você, a gente tava dormindo na cadeia agora.
Outro homem se aproximou, batendo levemente o copo no dela.
— A mulher salvou a operação.
Mais alguém completou:
— Essa daí pensa mais que todo mundo junto.
Alice riu, meio sem graça, meio orgulhosa.
— Vocês estão exagerando.
— Eu só fiz conta.
— Só fez conta? — alguém respondeu — Aquilo ali foi xadrez.
A gargalhada coletiva veio logo em seguida.
No meio da roda, Valente observava a cena em silêncio.
O copo ainda na mão.
Ele não participava muito da bagunça.
Sempre foi assim.
Gostava de deixar os homens comemorarem, mas mantinha certa distância.
A postura de quem comandava.
Mesmo assim, os olhos dele voltavam constantemente para o mesmo ponto.
Alice.
Ela estava rindo de alguma piada que Dioguinho tinha acabado de fazer.
Os cabelos loiros, presos de forma meio improvisada, escapavam em algumas mechas soltas ao redor do rosto.
O olhar vivo.
O jeito seguro.
Valente tomou um gole da bebida.
Sem perceber que continuava olhando.
Havia algo diferente ali.
Algo que ele não costumava sentir.
Durante anos no morro, ele tinha conhecido todo tipo de gente.
Aliados.
Inimigos.
Mulheres que vinham e iam.
Nada disso nunca tinha mexido muito com ele.
Mas Alice…
Era outra coisa.
Ela tinha chegado ali como uma peça útil.
A contadora.
A mulher que organizava números, contas, dinheiro.
Mas naquela noite, ele tinha visto outra coisa.
Visto ela comandando tudo com a cabeça fria enquanto o caos explodia do outro lado.
Calculando.
Antecipando.
Salvando um plano inteiro só com raciocínio.
E isso mexia com ele de um jeito estranho.
Um jeito que ele ainda não queria analisar muito.
Então preferiu fazer o que sempre fazia quando algo começava a sair do controle.
Ignorar.
Viver o momento.
Valente virou o restante do copo de uma vez.
Dioguinho apareceu ao lado dele.
— Tá quieto demais, chefe.
Valente deu de ombros.
— Só olhando.
Dioguinho seguiu o olhar dele.
Direto para Alice.
Um sorriso lento apareceu no rosto dele.
— Ah…
Valente franziu a testa.
— Ah o quê?
— Nada não.
— Fala logo.
Dioguinho riu.
— Você tá olhando pra ela faz meia hora.
Valente bufou.
— Tá viajando.
— Tô nada.
Ele deu mais um gole.
— Ela é boa no que faz.
Dioguinho levantou a sobrancelha.
— Só isso?
Valente não respondeu.
Porque no fundo ele sabia que não era só isso.
Mas também não estava pronto para dar nome àquilo.
Então apenas observou mais um pouco.
Enquanto Alice continuava cercada pelos homens que brindavam e riam.
A música aumentava.
Alguém começou a dançar no meio do pátio.
Garrafas passavam de mão em mão.
Mas a comemoração não durou para sempre.
Depois de algum tempo, Alice levantou a mão.
— Ei!
A voz dela cortou a bagunça.
— Chega de festa por um minuto.
Alguns homens ainda riam.
— Deixa a gente comemorar, Barbie!
Ela cruzou os braços.
— Vocês podem comemorar depois que a gente resolver uma coisa.
O tom dela mudou o clima imediatamente.
Valente percebeu.
E se aproximou.
— O que foi?
Alice apontou para os caminhões estacionados.
Ainda carregados.
— Aquilo ali.
O grupo ficou em silêncio.
— A gente precisa descarregar isso agora.
Dioguinho olhou para os caminhões.
— Achei que ia ser amanhã.
Alice balançou a cabeça.
— Nem pensar.
— Quanto menos tempo aquilo ficar parado ali, melhor.
Valente assentiu.
— Então vamos.
A comemoração se transformou rapidamente em trabalho.
Os homens começaram a abrir as portas dos caminhões.
O bunker foi iluminado com algumas lâmpadas fortes.
Sombras começaram a se mover novamente entre caixas e pallets.
Valente ajudava a coordenar o movimento.
— Cuidado com isso.
— Vai devagar.
— Coloca ali no fundo.
Alice observava tudo com atenção.
O olhar calculando cada detalhe.
Depois de alguns minutos, ela chamou Valente.
— A gente precisa conversar.
Ele se aproximou.
— Fala.
Ela apontou para o interior do bunker.
— Essa quantidade de matéria-prima…
Valente sorriu.
— Bonita, né?
Ela não sorriu.
— É exatamente por isso que é um problema.
Ele franziu a testa.
— Como assim?
Alice falou baixo, para que só ele ouvisse.
— Se essa quantidade começar a circular agora…
— Vai levantar suspeita.
Valente cruzou os braços.
— Suspeita de quem?
— De todo mundo, muita gente trabalha aqui, muita gente sabe que acabou a matéria-prima da produção, se você aparecer com tudo isso na mesma noite que houve o furto... Pode vazar a informação e chegar ao ouvido de quem não poderia.
Ela se inclinou levemente para frente.
— Inclusive dos verdadeiros donos.
Valente ficou em silêncio por um segundo.
O morro rival.
Ele sabia exatamente de quem ela estava falando.
Alice continuou:
— Eles fizeram um pedido grande.
— Essa carga desaparece.
— E logo depois o seu morro começa a produzir muito?
Ela abriu as mãos.
— Não precisa ser gênio pra ligar os pontos.
Valente apertou o maxilar.
— Então o que você quer?
— Que a gente deixe tudo parado?
Alice respondeu sem hesitar:
— Sim.
Ele soltou uma risada incrédula.
— Nem fodend0. A gente precisa da grana o quanto antes, isso aqui vai dar bastante dinheiro, mas ainda não chega nem perto do que a gente precisa levantar pra recuperar o que perdemos.
— A gente arriscou tudo por isso.
— Eu preciso produzir.
— Preciso vender.
Ela olhou direto nos olhos dele.
— E aí você entrega na bandeja que foi você que pegou.
Valente balançou a cabeça.
— Você tá sendo paranoica.
Alice respondeu imediatamente:
— Não.
— Eu estou sendo inteligente.
Ele respirou fundo.
— Então qual é a sua ideia?
Ela cruzou os braços.
— Duas opções.
Valente esperou.
— A primeira: a gente guarda tudo.
— Espera a poeira baixar.
Ele já começou a balançar a cabeça.
— Não.
— Muito tempo parado.
— Muito dinheiro parado.
Alice suspirou.
— Então sobra a segunda.
Valente arqueou a sobrancelha.
— Qual?
Ela respondeu calmamente:
— Produzir aos poucos.
— Bem aos poucos.
— Como se fosse uma operação normal.
Valente ficou pensando.
O barulho das caixas sendo movimentadas ecoava no bunker.
A comemoração tinha virado um trabalho silencioso novamente.
Ele olhou para Alice.
Ela estava séria.
Calculando.
Pensando dez passos à frente.
Valente passou a mão pela barba.
— Você realmente pensa em tudo.
Ela deu de ombros.
— Alguém tem que pensar.
Ele soltou uma risada curta.
— Você é um infern0.
Alice sorriu de canto.
— E você é impulsivo.
— Por isso a gente se equilibra.
Valente ficou olhando para ela por um segundo.
E percebeu que, de alguma forma estranha…
Ela estava certa.
De novo.