Comemorando

1164 Palavras
A estrada que levava de volta para o morro parecia diferente agora. Minutos antes, cada metro de asfalto tinha sido atravessado com o coração batendo na garganta, sirenes atrás, tensão estourando no rádio, a sensação constante de que tudo poderia desmoronar a qualquer segundo. Agora, o silêncio da madrugada voltava aos poucos. Valente mantinha as duas mãos firmes no volante do caminhão de "alimentos", os olhos atentos à estrada. O motor roncava pesado, constante, e o cheiro de diesel misturado com o ar frio da noite entrava pela fresta da janela. Atrás dele, Dioguinho vinha com o segundo caminhão. No rádio, apenas o chiado baixo. Nenhuma sirene. Nenhum grito. Nenhuma perseguição. Mesmo assim, ninguém relaxava. Porque ainda estavam no meio da estrada. Ainda estavam expostos. E qualquer erro ali podia colocar tudo a perder. No bunker, Alice permanecia sentada diante da mesa improvisada que tinha virado seu centro de comando naquela noite. O celular ainda estava ligado. O notebook aberto. Ao lado, um pequeno rádio portátil captava as frequências da polícia, que ela havia conseguido sintonizar alguns minutos antes. Era um truque antigo. Mas útil. Ela aumentou um pouco o volume. Uma voz distorcida ecoava pelo aparelho. — …unidades da região norte, manter atenção… Outro policial respondeu, a voz cheia de estática. — Caminhões suspeitos ainda não localizados. Alice se inclinou para frente. Prestando atenção. — Última informação aponta dois caminhões de transporte farmacêutico… Ela sorriu de leve. — Valente. Do outro lado da linha, o caminhão continuava avançando pela estrada. — Fala. Alice olhou novamente para o rádio. — Relaxa um pouco. Valente franziu a testa. — Como assim? Ela respondeu com uma calma quase divertida. — Eles estão procurando os caminhões de farmácia. Valente ficou em silêncio por um segundo. Depois soltou uma risada curta. — Sério? Alice continuou ouvindo o rádio. — Sério. A voz da polícia continuava repetindo a mesma informação. — Caminhões brancos, com identificação farmacêutica… Ela encostou na cadeira. — Os caminhões de vocês são de alimentos. Valente olhou rapidamente para o próprio painel. Para o adesivo grande na lateral da cabine. Uma marca de distribuição de alimentos. Ele balançou a cabeça, impressionado. — Você pensou em tudo mesmo. No segundo caminhão, Dioguinho entrou na conversa. — Então quer dizer que a gente tá passando batido? Alice respondeu: — Exatamente. Na estrada, os faróis iluminaram uma curva longa. Valente reduziu um pouco a velocidade. E foi então que ele viu. Luzes. Azuis. Piscando. Duas viaturas estavam paradas no acostamento mais à frente. O coração dele disparou. — Barbie… — Tem polícia aqui na frente. No bunker, Alice se endireitou na cadeira. — Quantas? — Duas viaturas. O silêncio tomou a linha. Dioguinho também tinha visto. — Eu também tô vendo. Valente sentiu o suor frio aparecer nas mãos. — E agora? Alice olhou novamente para o rádio. A voz dos policiais continuava discutindo sobre os caminhões farmacêuticos. Ela pensou por alguns segundos. Depois falou com calma. — Continua normal. Valente quase riu. — Normal? — Normal. — Não faz nada estranho. — Não acelera. — Não freia. — Só passa. A estrada parecia estreitar conforme os caminhões se aproximavam das viaturas. Os faróis dos policiais iluminavam parte da pista. Um dos agentes estava do lado de fora do carro. Conversando com outro. Valente manteve o caminhão na mesma velocidade. O motor roncando pesado. O coração batendo forte. A cabine parecia pequena demais naquele momento. Quando o caminhão passou pelas viaturas, um dos policiais levantou o olhar. Observou rapidamente. Valente sentiu o estômago travar. Mas o homem apenas voltou a falar com o colega. Nenhum sinal para parar. Nenhum gesto. O caminhão passou. Continuou pela estrada. No retrovisor, as viaturas ficaram para trás. Valente soltou o ar devagar. — Passamos. No segundo caminhão, Dioguinho quase gritou de alívio. — Caralh0… No bunker, Alice também soltou um suspiro. — Eu falei. Valente riu. Uma risada nervosa. — Você é perigosa, sabia? Ela respondeu com ironia: — Eu prefiro o termo competente. A estrada começou a subir. As primeiras casas do pé do morro surgiram. Pequenas luzes nas janelas. Cachorros latindo ao longe. Era território conhecido. Território seguro. Quando os caminhões começaram a subir a estrada de terra que levava ao morro das Garças, o clima dentro das cabines mudou completamente. A tensão começou a se dissolver. No rádio, alguns homens já comemoravam. — Conseguimos. — Não acredito que deu certo. Valente ainda dirigia concentrado. Mas um sorriso começava a aparecer no canto da boca. No bunker, Alice finalmente se levantou da cadeira. Caminhou até a porta. Quando ouviu o som pesado dos caminhões chegando lá fora, soube que tinham conseguido. De verdade. Os faróis iluminaram o pátio. Homens começaram a aparecer de todos os lados. Curiosos. Animados. Os caminhões pararam diante do bunker. Valente desceu da cabine. O ar do morro parecia diferente. Mais leve. Dioguinho também desceu do segundo caminhão. Ele olhou ao redor e abriu um sorriso largo. — A gente conseguiu mesmo. Os homens começaram a se aproximar. Alguns batendo nas laterais dos caminhões. Outros rindo. A notícia se espalhava rápido. Dentro de poucos minutos, o lugar estava cheio de gente. Alice saiu do bunker. Os cabelos loiros presos num r**o de cavalo alto. O olhar atento. Valente a viu atravessando o pátio. E caminhou até ela. Por alguns segundos, eles ficaram apenas se olhando. A tensão da noite ainda estava presente nos dois. Mas havia algo mais ali agora. Uma espécie de respeito silencioso. Valente passou a mão pelo rosto. — Você salvou essa porr4 hoje. Alice arqueou uma sobrancelha. — Eu? — Foi você que montou tudo. Ele balançou a cabeça. — Se não fosse por você… Ela cruzou os braços. — Tá me elogiando agora? Valente deu de ombros. — Tô sendo justo. Alice soltou uma risada curta. — Olha só. — O rei do morro reconhecendo o trabalho da contadora. — Isso vai entrar pra história. Valente revirou os olhos. — Para de tirar onda. Ela sorriu provocando. — Eu só estou aproveitando o momento. Dioguinho apareceu atrás deles com uma garrafa na mão. — Chega de conversa. — Hoje é dia de comemorar. Alguém ligou uma caixa de som. Música começou a tocar. As garrafas apareceram. Copos sendo distribuídos. Risos. Gritos de comemoração. A noite que tinha começado com tensão agora se transformava em festa. Valente pegou uma garrafa e encheu dois copos. Entregou um para Alice. Ela olhou para o copo. Depois para ele. — Isso é um pedido de trégua? Valente deu um sorriso torto. — Nem sonha. Ela riu. — Ainda bem. Eles brindaram. O som do vidro ecoou no meio da música. E por um momento, ali no meio do bunker iluminado, cercados pelos homens comemorando, parecia que o mundo inteiro tinha parado só para aquela pequena vitória. Mesmo que, no fundo, os dois soubessem que aquela paz não duraria muito. Porque com eles era sempre assim. Um momento de parceria. Outro de provocação. Cão e gato. Sempre.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR