Transferindo

1201 Palavras
A estrada parecia não terminar nunca. O caminhão avançava pesado pela escuridão, o motor roncando alto enquanto Valente mantinha os olhos fixos no asfalto que surgia iluminado apenas pelos faróis. As mãos dele estavam firmes no volante, mas a tensão corria pelo corpo inteiro. O coração ainda batia acelerado. Atrás deles, as sirenes tinham se tornado um som distante, mas ainda presente na memória recente de todos. Dioguinho vinha logo atrás, conduzindo o segundo caminhão. Pelo rádio, a respiração dele ainda saía pesada. — Aquilo foi por pouco… Valente não respondeu imediatamente. Ele apenas olhou pelo retrovisor mais uma vez. Dessa vez, a estrada atrás estava escura. Sem luzes azuis. Sem sirenes. Mas ele sabia que aquilo não significava segurança. Significava apenas que, por enquanto, tinham conseguido ganhar algum tempo. Nos carros que vinham atrás, os outros homens tinham assumido a tarefa de puxar a atenção das viaturas para outra direção. Era uma decisão arriscada. Mas necessária. No bunker, Alice permanecia parada diante da mesa, o telefone pressionado contra o ouvido. Ela ouvia o som dos motores. O vento batendo nas cabines. E a respiração pesada dos dois homens. — Situação? — perguntou. Valente respondeu depois de alguns segundos. — A gente tá limpo por enquanto. Alice respirou fundo. — Os outros? Um silêncio curto tomou a linha. — Levaram as viaturas para outro lado, a gente escutou uma troca de tiros. Ela assentiu devagar. Era o que precisava acontecer. Mesmo assim, um aperto incômodo surgiu no peito. Porque todos ali sabiam que aquela decisão tinha um preço. — Foco no ponto agora — disse ela. — Falta pouco. Valente olhou para a estrada novamente. A entrada da área industrial abandonada já aparecia alguns metros à frente. Galpões escuros. Terrenos vazios. Estradas secundárias praticamente sem iluminação. Era exatamente o tipo de lugar onde ninguém prestaria atenção em caminhões entrando no meio da madrugada. — Tô chegando — avisou ele. No segundo caminhão, Dioguinho respondeu: — Tô logo atrás. Os veículos fizeram a curva e deixaram a estrada principal. O barulho do asfalto mudou. Agora os pneus passavam por um trecho irregular de concreto antigo, cheio de rachaduras e manchas escuras. Os galpões abandonados pareciam gigantes adormecidos no escuro. Valente diminuiu a velocidade. — Cheguei no ponto. No bunker, Alice pegou o caderno e conferiu rapidamente o mapa que ela mesma havia desenhado horas antes. — Confirma o galpão. Valente observou ao redor. O prédio grande, de metal enferrujado. As portas laterais abertas. A área ampla atrás dele. — É esse. Alice assentiu. — Então entra. Os caminhões avançaram lentamente para dentro do terreno. Assim que os faróis iluminaram a área interna do galpão, as sombras começaram a se mover. Homens surgiram do escuro. Exatamente como combinado. Todos esperando. Todos prontos. Quando o primeiro caminhão parou, alguns deles já se aproximaram imediatamente. Dioguinho estacionou o segundo caminhão ao lado. O silêncio da madrugada agora era quebrado apenas pelos motores ainda ligados e pelas vozes rápidas dos homens. — Vamos, vamos! — Rápido! Valente desceu da cabine. O ar frio da madrugada bateu no rosto dele. Ele passou a mão pela barba, olhando ao redor. — Sem perder tempo. Os homens começaram a trabalhar imediatamente, era hora de transferir as cargas para os caminhões do morro. Movimento constante. Rápido. Preciso. As portas traseiras foram abertas. Dentro do galpão, as luzes fracas de algumas lanternas criavam sombras agitadas nas paredes metálicas. No bunker, Alice permanecia ouvindo tudo. O barulho de passos. As vozes rápidas. O eco metálico do galpão. Ela anotava mentalmente cada segundo que passava. Porque sabia que tempo era a coisa mais preciosa naquele momento. Valente caminhava de um lado para o outro, observando o trabalho. — Mais rápido. — Não para. Dioguinho também estava ajudando. O rosto dele ainda carregava a tensão da perseguição. — A gente precisa sair daqui logo. Valente assentiu. — Eu sei. O rádio então chiou. Um som inesperado. Valente pegou o aparelho imediatamente. — Fala. Por alguns segundos, apenas o chiado respondeu. Depois, uma voz conhecida surgiu. Tensa. Respiração pesada. Era um dos homens que tinham ficado nos carros. — Chefe… Valente franziu a testa. — Onde vocês estão? Do outro lado, um barulho confuso de vozes e motores podia ser ouvido. — A casa caiu. O silêncio tomou o galpão por um instante. Valente sentiu o estômago apertar. — Como assim? A resposta veio rápida. — Fecharam a gente na estrada, gambé de todo lado. — Não teve como sair. Valente passou a mão pelo rosto. — Merd4. No bunker, Alice também ficou imóvel. O coração batendo mais forte. A voz no rádio continuou. — Escuta… — Provavelmente vão pegar a gente. Um segundo de silêncio pesado veio depois. — Só queria avisar que os caminhões já estavam longe. Valente apertou o rádio com força. — Vocês tentaram sair? — Tentamos, a gente trocou tiro, mas apareceram mais carros, estamos parados. Um ruído metálico ecoou do outro lado da linha. Depois a voz voltou. Mais calma. Quase resignada. — Faz o que tem que fazer aí. — Não deixa isso ter sido à toa. Valente não respondeu imediatamente. Ele olhou ao redor. Os homens ainda trabalhavam. A movimentação continuava. O plano ainda precisava ser concluído. Do outro lado da linha, a voz disse apenas: — Colabora com eles e não abre o bico. Boa sorte. A gente pega vocês depois. Depois o rádio estourou em chiado. Silêncio. No bunker, Alice percebeu o momento em que a comunicação caiu. Ela fechou os olhos por um segundo. Sabia exatamente o que aquilo significava. No galpão, Valente permaneceu parado por alguns segundos. A mandíbula travada. A raiva crescendo. Mas ele sabia que não podia parar. Ainda não. Então respirou fundo. Guardou o rádio no bolso. E gritou para os homens: — Continua! A movimentação recomeçou com ainda mais urgência. Os passos ecoavam no galpão. As lanternas se moviam de um lado para o outro. Cada minuto parecia durar uma eternidade. Dioguinho se aproximou. — O que aconteceu? Valente respondeu seco: — Foram fechados. Dioguinho abaixou a cabeça por um instante. Depois olhou novamente para os homens trabalhando. — Então vamos terminar isso logo. Valente assentiu. Porque agora não era mais apenas sobre o plano. Era sobre não deixar que tudo aquilo tivesse sido em vão. Minutos depois, o movimento começou a diminuir. Os homens respiravam mais pesados. O galpão voltou a ficar mais silencioso. Valente olhou ao redor. — Terminou? Um dos homens assentiu. — Tudo. Valente olhou para Dioguinho. — Então vamos embora. Os motores dos caminhões voltaram a rugir. Os homens que ficaram pra trás foram os responsáveis por atear fogo nos caminhões roubados e depois se dispersarem pela estrada, rumo ao morro. As portas metálicas do galpão ficaram para trás. E os veículos começaram a sair novamente para a estrada escura. No bunker, Alice ainda estava parada diante da mesa. O telefone no ouvido. Esperando ouvir novamente o som dos motores. Quando a voz de Valente finalmente voltou pela linha, ela respirou fundo. — Estamos saindo. Alice assentiu devagar. — Então volta pro morro o quanto antes. Porque a noite ainda não tinha terminado. Mas pelo menos… A primeira parte da batalha tinha sido vencida.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR