O rugido do motor parecia mais alto dentro da cabine.
Ou talvez fosse apenas a adrenalina correndo nas veias de Valente.
O caminhão avançava pela estrada como um animal pesado e furioso, a carroceria vibrando a cada irregularidade do asfalto. O volante tremia em suas mãos, exigindo força constante para manter o veículo estável nas curvas longas que começavam a aparecer.
Mas o que realmente prendia sua atenção estava atrás.
As luzes azuis continuavam piscando no retrovisor.
Agora muito mais próximas.
As sirenes ecoavam pela noite como um grito interminável.
No banco ao lado, o rádio chiava com as vozes tensas da equipe.
— Eles tão colando!
A voz de Dioguinho vinha do segundo caminhão.
Carregada de nervosismo.
— Tô vendo — respondeu Valente, sem tirar os olhos da estrada.
Ele respirou fundo, tentando manter a cabeça fria.
Atrás dele, a viatura mais próxima mudou de faixa, aproximando-se pela lateral da pista. Os faróis iluminavam completamente a traseira do caminhão, projetando sombras enormes na lataria.
Então a voz metálica voltou a ecoar pelo alto-falante.
— CAMINHÃO À FRENTE!
— ENCOSTE O VEÍCULO!
O comando reverberou na noite silenciosa da estrada rural.
Valente apenas apertou os dentes.
— Sonha — murmurou.
No bunker, Alice permanecia de pé diante da mesa improvisada.
O coração batendo rápido, mas o rosto continuava sereno.
Ela escutava cada som vindo da ligação.
O motor pesado dos caminhões.
O chiado do rádio.
E ao fundo…
As sirenes.
Aquilo fazia o ar da sala parecer mais pesado.
Ela olhou novamente para o quadro onde havia desenhado todo o plano.
A linha vermelha que marcava o trajeto até o ponto de transferência parecia agora muito mais frágil do que antes.
— Valente — disse ela, com voz firme.
— Quanto falta?
Ele olhou rapidamente para o marcador de quilometragem e depois para a estrada.
— Dez minutos… talvez menos.
Alice assentiu para si mesma.
Dez minutos.
Era pouco.
Mas, naquela situação, parecia tempo demais.
No caminhão de trás, Dioguinho parecia cada vez mais tenso.
— Esses caras não vão largar.
Valente respondeu seco:
— Então a gente não dá chance.
A estrada começou a descer por uma longa ladeira cercada por mato alto e árvores densas. A iluminação pública praticamente desaparecia ali, deixando apenas os faróis dos veículos iluminarem o caminho.
No retrovisor, as luzes azuis refletiam no asfalto escuro como relâmpagos.
Atrás dos caminhões, os dois carros da equipe mantinham posição.
Protegendo a retaguarda.
Dentro de um deles, um dos homens olhou para trás e soltou um palavrão baixo.
— Tem mais uma viatura vindo lá de trás.
O motorista respondeu sem tirar os olhos da estrada.
— Hoje não vai ser fácil.
No bunker, Alice ouviu aquilo pelo rádio.
Ela passou a mão pelos cabelos loiros, tentando organizar o raciocínio.
— Escutem — disse ela.
O rádio ficou em silêncio.
— Não deixem eles fecharem vocês.
— O importante agora é ganhar distância, eles não podem chegar junto com vocês.
Valente assentiu.
O caminhão começou a ganhar velocidade na descida da estrada.
O motor roncava forte.
O velocímetro subia lentamente.
Mas subia.
Atrás dele, a viatura tentou acompanhar.
As sirenes ficaram ainda mais altas.
Quase ensurdecedoras.
No segundo caminhão, Dioguinho olhava constantemente pelo espelho lateral.
— Valente…
— A primeira viatura tá quase emparelhando.
Valente respirou fundo.
— Segura firme.
Ele manteve o caminhão no centro da pista, impedindo qualquer tentativa fácil de ultrapassagem.
O peso do veículo fazia cada movimento exigir cuidado extremo.
Qualquer erro ali poderia virar desastre.
No bunker, Alice caminhava lentamente de um lado para o outro.
O telefone ainda colado ao ouvido.
Ela conseguia imaginar perfeitamente a cena.
A estrada escura.
Os caminhões correndo.
As luzes azuis piscando atrás.
A pressão crescendo a cada segundo.
— Falta pouco — ela disse.
— Aguenta mais um pouco.
Valente respondeu:
— Tô segurando.
A estrada fez outra curva longa.
Quando o caminhão saiu dela, algo mudou.
No retrovisor, a distância entre eles e a primeira viatura parecia ter aumentado um pouco.
Não muito.
Mas o suficiente para que Valente percebesse.
Ele estreitou os olhos.
Observando.
Atrás, um dos carros da equipe parecia ter ficado mais próximo da viatura.
O motorista daquele carro conduzia de forma agressiva, ocupando a pista e dificultando qualquer tentativa de aproximação direta dos caminhões.
Isso criava uma espécie de barreira improvisada.
— Eles tão segurando os caras lá atrás — disse Valente pelo rádio.
Dioguinho respondeu:
— Tô vendo.
As sirenes continuavam altas.
Mas agora pareciam um pouco mais distantes.
No bunker, Alice percebeu a mudança pelo tom da voz deles.
— O que tá acontecendo?
Valente respondeu:
— A gente ganhou um pouco de espaço.
Alice respirou fundo.
— Então aproveita.
— Segue direto pro ponto.
A estrada começou a subir novamente.
Mas agora os caminhões já estavam embalados.
Os motores trabalhavam forte.
O ronco ecoava entre as árvores.
Valente olhou novamente pelo retrovisor.
As luzes azuis ainda estavam lá.
Mas um pouco menores.
Um pouco mais distantes.
Ele soltou um longo suspiro.
— Acho que eles tão ficando pra trás.
No segundo caminhão, Dioguinho soltou uma risada nervosa.
— Tomara.
No bunker, Alice finalmente parou de andar.
Ficou parada diante da mesa.
O olhar fixo no mapa desenhado no quadro.
O ponto de transferência estava cada vez mais perto.
Mas ela sabia de uma coisa.
Nada ainda estava garantido.
Porque a noite ainda era longa.
E aquela perseguição podia mudar novamente a qualquer momento.
Mesmo assim…
Pela primeira vez desde que as sirenes haviam surgido na estrada, parecia que o plano tinha uma chance real de sobreviver.