Ação

970 Palavras
A noite já estava completamente tomada pela escuridão quando os dois caminhões avançavam pela estrada secundária que cortava a região industrial da cidade. As luzes amareladas dos postes apareciam espaçadas, criando longos trechos de sombra entre um ponto iluminado e outro. O asfalto irregular fazia o volante vibrar nas mãos de Valente, que mantinha os olhos fixos à frente, atento a qualquer movimento. O motor do caminhão roncava pesado. No banco ao lado, o rádio chiava baixo. Dioguinho vinha alguns metros atrás, conduzindo o segundo caminhão. Mais afastados, mantendo distância estratégica, os dois carros com os homens da equipe faziam a escolta. Até aquele momento, tudo parecia seguir exatamente como o planejado. A carga estava segura. Os caminhões avançavam sem chamar atenção. E o ponto de transferência não estava mais tão longe. No bunker, Alice — ou Barbie, como Valente insistia em chamá-la — permanecia sentada diante da mesa improvisada que havia se transformado em um verdadeiro centro de comando. O quadro com o plano ainda estava à frente dela. Linhas, horários, trajetos e pontos marcados com caneta vermelha. O celular permanecia aberto em chamada. O fone pressionado contra o ouvido. Ela escutava o ronco distante dos motores através da ligação. De vez em quando, o som metálico da cabine do caminhão vibrando. Respirou fundo. Até agora, tudo corria bem. — Situação? — ela perguntou, mantendo a voz calma. Valente respondeu quase imediatamente. — Tudo limpo. A voz dele parecia tranquila, concentrada. — Mais alguns minutos e a gente chega no ponto. Alice anotou algo no caderno. — Perfeito. Ela estava prestes a dizer mais alguma coisa quando Valente ficou em silêncio por alguns segundos. Longos segundos. O suficiente para que ela franzisse levemente a testa. — Valente? Do outro lado da linha, ele continuava em silêncio. Na estrada, Valente havia olhado pelo retrovisor. Uma vez. Duas. Três. Algo estava errado. Lá atrás, no fundo escuro da estrada, surgia uma luz azul intermitente. Pequena. Distante. Mas impossível de ignorar. Outra apareceu ao lado. Depois outra. Valente apertou o volante com mais força. O coração bateu mais rápido. — Barbie… A voz dele saiu diferente. Mais tensa. No bunker, Alice imediatamente percebeu. — O que foi? Valente respirou fundo. Os olhos ainda no retrovisor. As luzes agora estavam maiores. E o som distante de sirenes começava a chegar até ele. — A gente tem companhia. Alice ficou imóvel por um segundo. — Que tipo de companhia? Valente respondeu sem rodeios. — Polícia. O silêncio tomou a sala do bunker. Por alguns instantes, Alice não disse nada. Apenas olhou para o quadro do plano. Recalculando tudo mentalmente. — Quantas viaturas? — ela perguntou. Valente continuou observando. As luzes azuis agora piscavam com intensidade. — Pelo menos duas… talvez três. No caminhão atrás, Dioguinho também já tinha percebido. A voz dele entrou no rádio. — Valente… tem sirene atrás da gente. — Eu sei. No bunker, Alice passou a mão pelos cabelos loiros, pensando rápido. Muito rápido. — Eles estão perto? Valente apertou os olhos para enxergar melhor. — Estão encostando. O som das sirenes agora cortava a noite com força. Alice sentiu um leve frio subir pela espinha. Não era medo exatamente. Mas a consciência clara de que a situação havia mudado. E muito. Ela respirou fundo e voltou ao modo racional. — Escuta. A voz dela saiu firme novamente. — Não entra em pânico. — Continua dirigindo normalmente. — Não faz nada brusco ainda. Valente assentiu, mesmo sabendo que ela não podia ver. — Copiado. Atrás deles, os carros da equipe também já haviam percebido o que estava acontecendo. As luzes azuis refletiam no asfalto. Nas laterais dos caminhões. Nos retrovisores. A tensão dentro dos veículos era quase palpável. No bunker, Alice caminhava de um lado para o outro da sala. O telefone colado ao ouvido. — Talvez seja abordagem de rotina — ela disse, mais para testar a hipótese. Valente respondeu imediatamente. — Duvido. Ele voltou a olhar pelo retrovisor. Uma das viaturas se aproximava mais rápido agora. O motor potente rasgando a estrada. — Eles estão acelerando. No caminhão de trás, Dioguinho também parecia tenso. — Isso não tá com cara de rotina não. O silêncio que veio depois foi pesado. Alice parou diante do quadro novamente. Os olhos percorrendo cada detalhe do plano. Cada etapa. Cada rota. Cada alternativa. Então uma nova informação chegou pela linha. — Barbie… A voz de Valente estava mais grave agora. — Eles ligaram o giroflex. As sirenes aumentaram. Altas. Insistentes. Ecoando pela estrada vazia. No bunker, Alice fechou os olhos por um segundo. Pensando. Calculando. Depois falou: — Tá. — Então escuta com atenção. Do outro lado da linha, todos ficaram atentos. Ela continuou. — Mantenham a formação. — Não se separem. — E não parem ainda. Valente respirou fundo. — Entendido. A tensão crescia a cada segundo. A viatura agora estava muito mais próxima. As luzes azuis refletiam forte na traseira do caminhão. Dioguinho falou pelo rádio novamente. — Eles tão colando na gente. Valente respondeu: — Eu vi. No bunker, Alice sentiu o coração acelerar um pouco. Ela conseguia ouvir tudo. O ronco dos motores. O vento batendo na lataria. E ao fundo… As sirenes. Um som que parecia crescer dentro da ligação. A noite, que antes parecia silenciosa, agora estava carregada de urgência. Alice apoiou as mãos na mesa. Tentando manter o raciocínio frio. Porque sabia de uma coisa. Se entrasse em pânico, tudo desmoronaria. Então falou novamente, firme. — Escutem. — Ainda não acabou. Do outro lado da linha, os motores continuavam rugindo pela estrada escura. As luzes azuis piscavam cada vez mais fortes atrás deles. E a sensação de que o plano perfeito começava a sair dos trilhos pairava no ar como uma tempestade prestes a estourar. Mas, mesmo assim… Alice ainda não estava pronta para desistir.
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