CAPÍTULO 7

609 Palavras
 Damian Helena acha que pode me ignorar. É quase adorável. Ela pensa que, se não olhar para mim, se responder de forma rápida e neutra, se abaixar a cabeça e fingir foco absoluto no computador, tudo voltará ao normal. Como se “normal” fosse uma palavra que ainda existisse entre nós. Ela não percebe que eu noto tudo. Os ombros tensos. A respiração falha quando eu entro na sala. O jeito que os dedos dela aceleram no teclado sempre que passo perto. E, principalmente, o medo que não é só medo — é algo que ela não quer admitir. E que eu quero explorar. Hoje cedo, quando ela passou por mim no corredor e fingiu não me ver, aquilo me arranhou por dentro. Não porque eu precise da atenção de alguém… mas porque dela eu exijo. E ela sabe disso. Por isso, quando bati na porta de vidro da sala dela e ela respondeu sem olhar, eu soube que era hora de dar o primeiro aviso. Apenas o primeiro. Observei-a por alguns segundos. Ela mantinha as costas retas, os olhos colados na tela, como se eu fosse invisível. — Helena — chamei. Nada. Ela continuou digitando. Eu caminhei mais perto. Parei atrás dela. O perfume leve, quase imperceptível, me atingiu como uma lembrança proibida. — Helena — repeti, mais baixo. Ela finalmente respondeu, mas não olhou. — Sim, senhor Crawford? Um gelo tomou conta do meu sangue. Ela sabia exatamente o que estava fazendo. — Preciso falar com você — disse. Ela manteve a cabeça baixa. — No momento, estou ocupada. Ocupada. Ignorando. Empurrando limites. Respirei fundo, controlando o impulso de girar a cadeira dela e obrigá-la a olhar nos meus olhos. Ainda não. Inclinei-me devagar, aproximando o rosto do dela por trás. Senti quando o corpo dela enrijeceu, mesmo que tentasse esconder. — Olhe para mim — pedi. Não determinei. Nada. Ela respondeu com a mesma frieza calculada: — Estou trabalhando. Por um segundo, o silêncio entre nós foi mais alto que qualquer grito. Eu estiquei a mão, quase tocando o ombro dela. Parei no último instante. Se eu tocasse, eu não ia parar. — Você acha que me ignorar é uma boa ideia? — perguntei, a voz baixa demais para que alguém além dela escutasse. Ela ficou imóvel. — Não estou ignorando. Só… focada — ela respirou fundo. Pela primeira vez, ela mentiu para mim de forma consciente. Eu senti algo dentro de mim mudar. Um aviso silencioso acendeu. Então me afastei, caminhando ao redor da mesa até ficar à frente dela. Ela ainda não ergueu os olhos. O primeiro aviso então veio. Frio, simples, direto. O tipo de aviso que não precisa ser repetido. — Helena — falei, calmo demais. — Eu tolero muitas coisas, mas indiferença não é uma delas. Não de você. Ela engoliu seco. Bom. Continuei — Não teste meus limites. Você não tem ideia de onde eles realmente estão. Só então ela levantou o rosto. Os olhos encontrando os meus. Assustada. Mas curiosa. E, principalmente… afetada. Exatamente como eu queria. Inclinei o corpo um pouco para frente, apoiando uma mão na mesa dela. — Considere esse seu primeiro aviso. Larguei uma pasta sobre a mesa. O som ecoou alto. — Quando terminar, entre no meu escritório — acrescentei. — E desta vez, não me faça te chamar duas vezes. Virei-me e saí sem olhar para trás. Mas eu sabia que ela estava me observando quando atravessei o corredor. Eu sempre sei. Porque Helena pode até tentar me ignorar. Mas nunca consegue. E hoje, foi apenas o começo. O primeiro limite rompido. O primeiro aviso dado. Os próximos não serão tão gentis.
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