Damian
Helena não deveria ter aceitado o jantar.
Ela sabia disso.
Eu sabia disso.
Mas, quando ofereci , ou melhor, determinei , que ela me acompanhasse para uma “reunião fora do expediente”, a pequena hesitação que vi em seus olhos me disse tudo.
Ela tinha medo.
E, ainda assim veio.
Cheguei primeiro ao restaurante.
Escolhi o mesmo canto onde sempre negocio contratos importantes, onde fecho acordos que mudam destinos.
Mas, dessa vez, o acordo era outro.
A mesa era pequena demais para qualquer distância segura.
O ambiente é escuro demais para ela esconder qualquer reação.
Perfeito.
Quando ela entrou, acompanhada pelo maître, algo em mim apertou.
O vestido simples, o casaco leve, o cabelo cuidadosamente preso , tudo nela gritava que tentou parecer neutra, discreta, profissional.
E falhou miseravelmente.
Porque Helena nunca passa despercebida.
— Sente-se — pedi, mantendo o rosto neutro.
Ela obedeceu, mas sem olhar diretamente para mim.
Sempre tentando evitar. Sempre lutando contra algo que ela já perdeu.
— Não entendi por que precisava ser aqui , ela disse, ajeitando-se na cadeira, desconfortável com o olhar atento que eu mantinha nela.
Eu entrelacei os dedos sobre a mesa.
— Porque queria conversar com você sem interrupções.
Ela franziu o cenho.
— Sobre trabalho?
Meu sorriso foi quase imperceptível.
— Claro — menti.
Ela percebeu.
Helena sempre percebe.
É isso que torna tudo tão interessante.
O garçom apareceu, e eu pedi por nós dois.
Helena abriu a boca para protestar, mas eu a silenciei com um simples olhar.
— Você não perguntou o que eu quero comer — ela disse, tensa.
— Sei exatamente o que você vai gostar — respondi.
E sabia.
Desde o primeiro dia, eu a observo mais do que ela imagina.
Por alguns minutos, houve silêncio.
A música suave do restaurante preenchia o espaço enquanto ela mexia nos dedos, inquieta.
Eu queria estender a mão e segurá-los para que parassem de tremer.
Mas ainda não.
— Você está me evitando — eu disse finalmente, encarando-a abertamente.
Ela se mexeu na cadeira.
— Não estou. Só… quero manter as coisas profissionais.
— Não acredito em você.
Ela ergueu os olhos, irritada.
— Damian, eu estou tentando fazer o meu trabalho. E você está deixando isso cada vez mais difícil.
Gostei da coragem dela.
— Por quê? — perguntei, inclinando-me um pouco para frente.
— Porque eu olho para você?
Ela engoliu seco.
— Porque você ultrapassa limites.
Meu sorriso cresceu devagar.
— Limites que você mesma não sabe se quer manter.
Ela abriu a boca para responder, mas o garçom chegou com os pratos.
Helena agradeceu, claramente, aliviada pela interrupção.
Eu, não.
Esperei o garçom se afastar.
— Helena, você acha que tem controle sobre isso? — perguntei, a voz baixa, quase um sussurro.
Ela franziu a sobrancelha.
— Sobre o quê?
Inclinei a cabeça, analisando cada detalhe dela:
as mãos, o pescoço, os lábios, a respiração.
— Sobre nós.
— Não existe “nós”, Damian.
— Existe desde o primeiro dia.
Ela ficou em silêncio.
— Você não devia — começou, mas a voz falhou.
— Não devia o quê? — pressionei.
Ela respirou fundo, tentando recuperar firmeza.
— Não devia me chamar para jantar. Não devia me tocar. Não devia me olhar desse jeito.
Eu apoiei o cotovelo na mesa, aproximando-me ainda mais.
— E, mesmo assim, você veio.
Ela travou.
— Eu não tinha opção. Você é meu chefe.
— Você sempre tem opção.
Parei por um segundo, deixei o silêncio pesar, deixei minha presença ocupar o espaço entre nós.
— Mas escolheu estar aqui.
Os olhos dela brilharam de raiva e… outra coisa.
Algo que ela tenta esconder.
Algo que eu reconheço porque habita em mim também, multiplicado.
— Damian o que você quer de mim? — ela perguntou, finalmente, quase em sussurro.
A pergunta que eu esperava.
A pergunta que muda tudo.
Eu me inclinei, e pela primeira vez naquela noite, deixei a máscara de frieza cair por alguns segundos.
— Eu quero — minha voz saiu mais grave, mais honesta do que deveria , você mantendo distância mas sempre me olhando.
Quero você tentando fugir enquanto eu te puxo de volta.
Quero você lutando contra algo que já sabe que é inevitável.
Helena arregalou os olhos.
E eu concluí
— E quero que entenda, Helena, que esse jantar não é sobre trabalho.
Silêncio.
A respiração dela falhou por um segundo.
E então, antes que ela pudesse reagir, acrescentei.
— Considere isso um segundo aviso.
E o jantar estava apenas começando.