CAPÍTULO 8

756 Palavras
 Damian Helena não deveria ter aceitado o jantar. Ela sabia disso. Eu sabia disso. Mas, quando ofereci , ou melhor, determinei , que ela me acompanhasse para uma “reunião fora do expediente”, a pequena hesitação que vi em seus olhos me disse tudo. Ela tinha medo. E, ainda assim veio. Cheguei primeiro ao restaurante. Escolhi o mesmo canto onde sempre negocio contratos importantes, onde fecho acordos que mudam destinos. Mas, dessa vez, o acordo era outro. A mesa era pequena demais para qualquer distância segura. O ambiente é escuro demais para ela esconder qualquer reação. Perfeito. Quando ela entrou, acompanhada pelo maître, algo em mim apertou. O vestido simples, o casaco leve, o cabelo cuidadosamente preso , tudo nela gritava que tentou parecer neutra, discreta, profissional. E falhou miseravelmente. Porque Helena nunca passa despercebida. — Sente-se — pedi, mantendo o rosto neutro. Ela obedeceu, mas sem olhar diretamente para mim. Sempre tentando evitar. Sempre lutando contra algo que ela já perdeu. — Não entendi por que precisava ser aqui , ela disse, ajeitando-se na cadeira, desconfortável com o olhar atento que eu mantinha nela. Eu entrelacei os dedos sobre a mesa. — Porque queria conversar com você sem interrupções. Ela franziu o cenho. — Sobre trabalho? Meu sorriso foi quase imperceptível. — Claro — menti. Ela percebeu. Helena sempre percebe. É isso que torna tudo tão interessante. O garçom apareceu, e eu pedi por nós dois. Helena abriu a boca para protestar, mas eu a silenciei com um simples olhar. — Você não perguntou o que eu quero comer — ela disse, tensa. — Sei exatamente o que você vai gostar — respondi. E sabia. Desde o primeiro dia, eu a observo mais do que ela imagina. Por alguns minutos, houve silêncio. A música suave do restaurante preenchia o espaço enquanto ela mexia nos dedos, inquieta. Eu queria estender a mão e segurá-los para que parassem de tremer. Mas ainda não. — Você está me evitando — eu disse finalmente, encarando-a abertamente. Ela se mexeu na cadeira. — Não estou. Só… quero manter as coisas profissionais. — Não acredito em você. Ela ergueu os olhos, irritada. — Damian, eu estou tentando fazer o meu trabalho. E você está deixando isso cada vez mais difícil. Gostei da coragem dela. — Por quê? — perguntei, inclinando-me um pouco para frente. — Porque eu olho para você? Ela engoliu seco. — Porque você ultrapassa limites. Meu sorriso cresceu devagar. — Limites que você mesma não sabe se quer manter. Ela abriu a boca para responder, mas o garçom chegou com os pratos. Helena agradeceu, claramente, aliviada pela interrupção. Eu, não. Esperei o garçom se afastar. — Helena, você acha que tem controle sobre isso? — perguntei, a voz baixa, quase um sussurro. Ela franziu a sobrancelha. — Sobre o quê? Inclinei a cabeça, analisando cada detalhe dela: as mãos, o pescoço, os lábios, a respiração. — Sobre nós. — Não existe “nós”, Damian. — Existe desde o primeiro dia. Ela ficou em silêncio. — Você não devia — começou, mas a voz falhou. — Não devia o quê? — pressionei. Ela respirou fundo, tentando recuperar firmeza. — Não devia me chamar para jantar. Não devia me tocar. Não devia me olhar desse jeito. Eu apoiei o cotovelo na mesa, aproximando-me ainda mais. — E, mesmo assim, você veio. Ela travou. — Eu não tinha opção. Você é meu chefe. — Você sempre tem opção. Parei por um segundo, deixei o silêncio pesar, deixei minha presença ocupar o espaço entre nós. — Mas escolheu estar aqui. Os olhos dela brilharam de raiva e… outra coisa. Algo que ela tenta esconder. Algo que eu reconheço porque habita em mim também, multiplicado. — Damian o que você quer de mim? — ela perguntou, finalmente, quase em sussurro. A pergunta que eu esperava. A pergunta que muda tudo. Eu me inclinei, e pela primeira vez naquela noite, deixei a máscara de frieza cair por alguns segundos. — Eu quero — minha voz saiu mais grave, mais honesta do que deveria , você mantendo distância mas sempre me olhando. Quero você tentando fugir enquanto eu te puxo de volta. Quero você lutando contra algo que já sabe que é inevitável. Helena arregalou os olhos. E eu concluí — E quero que entenda, Helena, que esse jantar não é sobre trabalho. Silêncio. A respiração dela falhou por um segundo. E então, antes que ela pudesse reagir, acrescentei. — Considere isso um segundo aviso. E o jantar estava apenas começando.
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