{P.O.V × Mihael Keehl}
"você consegue ser tão egoísta e antipático, quanto seu pai era!" Essas palavras não saiam da minha cabeça, se ele falava tanto sobre confiança naquele momento, ele errou muito em usar algo como isso para me atacar.
Conhecíamos a história um do outro perfeitamente, do começo ao fim e isso nunca gerou problemas ou receios, medo era uma coisa que não parecia existir quando falávamos sobre nós mesmos.
Desde que finalmente oficializamos a nossa relação, nunca pensei que ele usaria alguma insegurança ou mágoa minha para me machucar, até dois dias atrás no momento da briga.
Continuamos dormindo em quartos separados, pela forma como ele agia e falava eu sabia que ele não estava se alimentando bem, e muito menos dormindo durante a noite.
Por mais que eu me preocupasse, eu não conseguia falar com ele e nem mesmo olhar em seus olhos, sem que aquela expressão fria e enfurecida dele aparecesse em minhas memórias.
Dormir havia se tornado uma tarefa difícil, sentia como se algo estivesse faltando e de fato, estava, o cheiro dele ainda permanecia no travesseiro que ele usava me trazendo doces memórias.
Desviei meu pensamento para Near, que entrou no quarto procurando alguma coisa no guarda roupa, e eu o observava sentado sobre a cama, então ele se virou para mim e nossos olhares se cruzaram pela primeira vez naquele dia.
Desviei rapidamente, sentindo o choque do momento arrepiar meu corpo, involuntariamente desejando que ele viesse se deitar ao meu lado, para esclarecer as coisas.
Mas não aconteceu, eu realmente não sabia se ele estava irritado ou só não sabia como deveria chegar até mim, seu medo parecia falar mais alto e talvez por isso ele se recusava a vir.
Além de lidar com o peso da investigação toda em cima dele praticamente, eu sabia que ele não tinha para onde correr com o caso sem pistas, mas ainda sim ele não desistiria.
Depois que descemos para falar sobre como tudo ocorreria, ele fez uma teoria rápida, e o restante dos policiais sem terem muito o que fazer por aqui, foram ajudar nos casos mais simples que chegavam na delegacia.
Com o dia todo livre eu fiquei no quarto, gastando meu tempo pensando sobre a discussão e afogando minhas mágoas nas barras de chocolate, que eu costumava comer diariamente.
Eu ainda estava bravo com Matt por ter falado com Near sobre o que descobriu, desencadeando toda aquela briga que tivemos e mesmo depois de questionar ele sobre o que havia feito, ele me respondeu que não teria feito por m*l.
Eu acreditava nele, Matt e eu éramos amigos há muito tempo e sua bondade era de natureza própria, ele nunca faria m*l a Near de propósito mas mesmo assim não conseguia relevar o que ele, em parte tinha causado, olhei para o lado de repente, vendo meu reflexo em um espelho que estava ali.
"Você nunca se perguntou se isso não seria vergonha?" As palavras de Matt se fizeram presentes em minha mente, por qual motivo Near teria vergonha de mim? Me questionei.
Tentando afastar esse pensamento, olhei para a estante que tinha perto da cama e percebi que o chocolate havia acabado, me levantei da cama e em passos leves eu fui até o armário, procurar mais para satisfazer meu vício.
Não achando desci as escadas indo até a cozinha, para buscar por mais algumas barras e assim que as encontrei caminhei até a porta do lugar, mas ouvi passos vindo.
A noite já havia caído e o silêncio reinava dentro do prédio, com os ouvidos atentos passei a ouvir o andar com mais clareza à medida que eles se aproximavam, o que me chamava atenção era que não se tratavam de passos dados por sapatos e sim, por algum salto alto.
Assim que vi a silhueta da pessoa passar pela porta da cozinha, coloquei minha cabeça para fora do cômodo vendo que a mesma tinha estatura baixa, e pelos cabelos loiros identifiquei que era Misa.
Segui automaticamente, me perguntando onde ela iria a aquela hora da noite, aparentemente sem avisar Light e Lawliet e com uma maleta em sua mão esquerda.
Andei atrás dela por alguns quarteirões até chegar em um beco, achando tudo muito estranho eu a vi entrando por uma porta enferrujada dentro do beco, sem pensar tentei puxar seu braço mas senti uma pancada forte em minha cabeça.
Caí no chão no mesmo momento, tentando ficar acordado eu via com minha vista embaçada a silhueta borrada de um homem, do qual eu não conseguia identificar o rosto me levando para algum lugar.
Quando tudo se tornou escuro, eu ainda ouvia de longe algumas vozes confusas mas não conseguia abrir os olhos, cheguei a pensar que estava delirando ou que aquilo não passava de um sonho.
Sentindo a água bater contra o meu rosto, eu finalmente abri os olhos estranhando totalmente o ambiente, confuso com a pancada e a dor aguda que sentia, observei o lugar.
As paredes eram feitas de uma madeira velha, o lugar parecia úmido e aparentemente tinha infiltrações, no chão não havia piso sendo ele todo de concreto, e o cheiro forte de gasolina ardia minhas vias nasais, havia uma pequena mesa de madeira com alguns alicates e uma maleta preta.
Não era espaçoso e a única fonte de luz era uma lâmpada amarela, pendurada no teto pelo fio que lhe trazia energia, olhando para meu lado direito vi Misa com as mãos amarradas e sua boca tampada por uma fita.
Ela me lançou um olhar desesperado assim que me viu, e eu olhei para ela da mesma forma visto que eu estava amarrado como ela, em uma cadeira de madeira.
— Eu te disse para não trazer ninguém. — Um homem de cabelos escuros se pronunciou em nossa frente.
— Você é tão burra Misa Amane, não percebeu que ele te seguia? — Perguntou retoricamente, em tom de deboche.
— Agora vocês dois vão morrer. — Ele disse, abrindo um cilindro de gás e acendendo um fósforo jogando o palito no chão, fazendo uma labareda de fogo se formar dentro do lugar.
Ele saiu pela porta da frente trancando a mesma, olhei para a Amane que chorava desesperada, comecei a tentar pegar um canivete que estava em meu bolso, e ao conseguir rasguei com certa dificuldade a corda que amarrava minhas mãos.
Meu coração acelerava e a adrenalina que corria em minhas veias fazia eu respirar devagar, não engolindo muita fumaça, eu tinha muito pouco tempo antes que a explosão acontecesse.
Comecei a cortar a corda que amarrava os pulsos de Misa, tampando meu nariz e boca com a blusa que usava, a Amane tossia, e eu sabia que ela não aguentaria por muito tempo consciente pela fumaça.
Puxei Misa para perto da porta enferrujada, peguei um pé de c***a, que estava jogado no chão e quebrei a maçaneta amassando um pouco sua fechadura, comecei a empurrar a porta com força junto de Misa, sentindo a sala ficar cada vez mais quente.
Comecei a notar minha respiração falhando e o corpo cansado, pensei por um momento que morreria naquele lugar, Misa então desmaiou e eu pude ouvir as sirenes da polícia ao fundo e involuntariamente, lembrei de Near.
Peguei o corpo da garota e empurrei aquela porta com toda a força que me restava, mas assim que ia empurrar uma última vez para abrir, a explosão aconteceu fazendo meu corpo rolar junto com o da Amane pelo chão.
Bati a cabeça e só me permiti fechar totalmente meus olhos quando ouvi as sirenes se aproximarem, ficando mais fortes, só então me senti seguro o suficiente para dar um longo suspiro e deixar minha visão escurecer.