Episódio 10

1054 Palavras
Verena Eu estava no meu quarto, uma espécie de refúgio que transformei no meu pequeno e seguro mundo desde aquele dia. Duas semanas se passaram desde a morte da minha mãe, mas o tempo parece ter parado num ciclo interminável de horas. Não consegui reunir coragem para atravessar a porta para o mundo exterior. Aqui dentro, me sinto segura, estas paredes me protegem do que está lá fora. Meus amigos vieram me ver, tentaram me animar, me convidaram para sair, mas nada me empolgou. A cama tornou-se minha companheira mais fiel. Passo horas cochilando, tentando acalmar a dor que sussurra no meu ouvido toda vez que abro os olhos e me lembro da ausência da minha mãe. Mas há momentos em que o aperto no meu peito se torna insuportável, e então sei que preciso sair, preciso do jardim. Aquele era meu refúgio. Passei horas sentada na grama verde, olhando as flores do jardim que a minha mãe cuidava com tanto amor. Lá, no espaço que a minha mãe cuidava com tanta dedicação, sinto a sua presença como em nenhum outro lugar. As flores desabrochavam radiantes, atraindo borboletas que anunciavam a chegada iminente da primavera, a estação que eu tanto amava. Sentada no chão, fecho os olhos e, por um breve momento, consigo imaginá-la aqui comigo, como sempre. No entanto, ultimamente tenho me sentido estranho. Era como se uma sombra invisível rastejasse lentamente entre as flores, fazendo-me sentir observada. Não havia ninguém, mas eu não conseguia me livrar daquela sensação estranha que me arrepiava. Um arrepio percorreu a minha espinha e eu sabia que era hora de voltar para o meu quarto. De volta ao meu quarto, fechei a porta delicadamente atrás de mim, permitindo que a familiaridade das paredes me aquecesse. Foi um alívio escapar daqueles olhares invisíveis, reais ou imaginários, e me sentir segura no meu próprio mundinho novamente. Papai, como sempre, não estava lá. Às vezes, a casa parecia um espaço compartilhado com um fantasma em vez de um pai. Os nossos encontros eram breves, poucas palavras. Nós dois habitávamos aquele lugar, mas parecíamos dois estranhos vivendo juntos. A manhã de segunda-feira amanheceu com uma tranquilidade enganosa, uma calma que logo seria interrompida. Ainda sonolenta, ouvi uma leve batida na minha porta. Não permiti mais que ninguém entrasse sem a minha permissão, muito menos que abrisse as cortinas. Levantei-me e fui até a porta. Ao abrir, vi a minha babá, normalmente jovial, mas naquele dia a sua expressão quase me assustou. Ela estava pálida, os seus olhos tinham um brilho estranho, como se guardasse alguma notícia que não sabia como revelar. O que houve? Perguntei, movendo meus dedos rapidamente. — Verena, minha filha, o seu pai quer que você desça. Disse ela, com a voz suave, porém carregada de uma gravidade incomum. Ele voltou? A minha mente imediatamente se inundou de perguntas. Papai, que sempre parecia mais ausente do que presente, havia retornado. — Sim. Tentei decifrar algo mais na sua expressão, mas o seu rosto transmitia perplexidade, como se ela mesma não entendesse completamente o que estava acontecendo. O que houve, Nana? Insisti, na esperança de encontrar alguma pista que preparasse a minha mente para o que viria pela frente. — Desça e veja você mesma. Foi tudo o que ela disse. Respirei fundo, tentando acalmar a mistura de nervosismo e medo que se instalava no meu peito. Ajeitei o meu robe e a segui. A cada degrau que descia, eu me preparava para uma realidade que, de alguma forma, eu sabia que alteraria o curso tranquilo do dia, talvez da minha vida. Cheguei ao pé da escada e a cena que me esperava não era o que eu esperava. Lá estava o meu pai, conversando com uma jovem, mais ou menos da mesma idade que a minha mãe, e do outro lado, uma garota mais ou menos da minha idade. Os funcionários da casa estavam reunidos num silêncio respeitoso, com olhares expectantes. Papai ergueu os olhos, encontrando os meus, com uma seriedade que não podia passar despercebida. Ele me olhava com tanta intensidade que eu sabia que o que quer que ele estivesse prestes a dizer mudaria tudo. Olhei novamente para os dois estranhos. A jovem mantinha uma expressão serena, embora os seus olhos exalassem uma mistura de nervosismo e medo. A garota, por outro lado, olhou para mim com um toque de curiosidade, como se estivesse tentando me avaliar, descobrir quem eu era. A mesma coisa passava pela minha cabeça. Eu não entendia nada. Os meus pensamentos disparavam, tentando dar sentido àquele momento surreal. Quem eram elas e por que estavam ali? Algo na minha intuição me dizia que eu estava prestes a descobrir um segredo bem guardado, uma verdade que mudaria tudo. Fiquei de frente para papai, esperando que ele falasse. O que houve, pai? Perguntei, usando os meus gestos com as mãos, que ele entendeu. Ele respirou fundo, como se tentasse reunir forças antes de dizer uma verdade que poderia destruir tudo o que eu acreditava. — Verena, tenho algo para te contar. Disse ele, e o meu coração bateu mais rápido, cada batida ecoando como um tambor no meu peito. Olhei para ele, esperando que as suas palavras fossem um erro, que talvez eu tivesse interpretado m*al a situação. Eu não queria acreditar no que se passava na minha cabeça. Não, não podia ser. — Filha, quero que você dê as boas-vindas à Delia. Ela é... ela será a nova dona da casa. A minha boca literalmente se abriu quando o impacto das suas palavras deslizou como um raio de gelo pela minha espinha. Eu estava em choque, incapaz de processar o que ele havia dito. O quê? Os meus dedos procuraram a resposta para a pergunta que a minha mente havia formulado, procurando por qualquer sinal no seu rosto de que aquilo era apenas uma piada cr*uel. ‍‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌Ele continuou, com a voz trêmula. — E esta é Amara, sua... sua irmã. Foi como se o chão sob os meus pés tivesse se aberto. Senti uma tontura repentina. Não, não pode ser, papai não pode estar falando sério. É uma piada, uma piada nojenta e do cara*lho.
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