THALES Já era noite quando ouvi a chave girar na porta outra vez. O som seco da madeira abrindo arranhou minha paciência. Eu já sabia quem era. Só podia ser ela. Lara. A única louca o bastante pra continuar voltando pra esse circo de merda que virou minha vida. Ela entrou firme. Sem fala mansa, sem saco cheio. Só raiva. Daquelas que vinha pronta, embalada no olhar. O salto cruzou o apartamento com pressa. E quando ela parou na porta do quarto, a luz acesa revelou a zona: prato quebrado no chão, toalha suja embolada no canto, e eu — no mesmo lugar de sempre — igual a uma âncora no fundo do oceano. Ela olhou tudo em silêncio. E quando olhou pra mim, não teve pena. Teve nojo. — “Tu acha bonito isso, Thales?” — a voz saiu seca, sem tempo pra jogo. — “Acha bonito fazer a mulher sair daqu

