ANASTASIA/LIZZY
“Cara mia,
Dúvida da luz dos astros, de que o sol tenha calor, dúvida até da verdade, mas confia em meu amor
-H”
Esse era o bilhete que encontrei em meio ao buquê de flores negras e rubras que estava na minha porta esta manhã quando voltei da corrida com Sirius. As letras foram escritas à mão com uma caneta metálica dourada em papel preto.
A ira cresceu dentro de mim como uma tempestade descontrolada. Quem diabos esse "H" pensava que era? Amassei o bilhete cega pela raiva. Agarrei o buquê e marchei até a lixeira, despedaçando as rosas com força, uma catarse para minha raiva crescente, deixando as pétalas caírem aos pedaços como confete.
Sirius permanecia ao meu lado, observando-me com olhos atentos, como se compartilhasse da minha indignação. Ainda nervosa, entrei em casa batendo a porta como se ela tivesse culpa de algo. Olhei rapidamente meu celular vendo que quem havia deixado as flores foi um entregador de uma floricultura bem conhecida na cidade.
— Desgraçado! — Grunhi atirando meu celular no sofá em uma crise de raiva.
Foi quando ouvi uma vibração vindo da mesa da cozinha. Era o celular que estava na boca do infeliz Elliot vibrando e vibrando com uma ligação, acendendo a letra H e apagando como uma provocação a minha curiosidade.
— Não gostou das flores, Lizzy? — Uma voz rouca e desconhecida ecoou do outro lado da linha.
Minha paciência já estava desgastada, e o tom insinuante na voz do indivíduo só aumentou minha irritação. Ele sabia que eu havia as jogado fora? Então está por perto.
— Quem diabos é você e o que pensa que está fazendo? — Rosnei, sem hesitar em mostrar minha indignação. Olhando pela janela procurando atentamente por alguém que também estivesse no telefone.
Uma risada suave reverberou do outro lado, mas não havia uma resposta direta.
— Achei que fosse gostar das rosas… Prefere tulipas? — Seu tom de voz transbordava sarcasmo.
— Sabe, H… — Eu falava continuando a caminhar passando pelas janelas a procura de alguém suspeito. — Você não passa de um covarde que se esconde no anonimato. Por que não aparece? Não é homem o suficiente pra isso?
— … — O silêncio tomou o outro lado da linha.
— O que foi? O gato comeu sua língua? — O provoquei olhando pela janela que dava para o jardim dos fundos. Nada ainda.
— Você fica ainda mais sexy brava, sabia? Tudo no seu tempo, ratinha.
— NÃO ME CHAME ASSIM!
Quando ouvi o som da chamada sendo desligada peguei a primeira almofada que vi na minha frente e afundei meu rosto nela gritando a plenos pulmões com o som sendo abafado. Virei o rosto com algumas mechas do meu cabelo grudados em mim, Sirius me observava confuso, talvez pensasse que eu estou louca… Talvez eu realmente esteja.
Depois do trabalho parecia que cada músculo do meu corpo pesava o dobro. Coloquei ração para o Sirius e fui em direção ao banheiro abrindo a torneira da banheira e acendendo algumas velas aromáticas de baunilha pelo lugar. Todo esse estresse vai acabar fazendo meu cabelo cair.
Entrei na banheira quando ela já estava cheia e com espuma. Recostei e fechei os olhos por um momento tentando esquecer tudo a minha volta, tentei silenciar a minha mente, mas era como se meus pensamentos e lembranças se atropelasse lutando para saber qual deles me deixaria insana primeiro.
Estiquei o braço até a pia pegando meu celular. Ainda precisava fazer as reservas do jantar de aniversário da Jude, ou melhor, Helena, então comecei a procurar por bons restaurantes italianos por perto e fiz duas reservas encaminhando para Helena em seguida que me respondeu com um emoji de “joinha” e “carinha sorrindo”.
Calma Anastasia, paciência é uma virtude. - Tentava me lembrar a todo momento em que a sentia distante.
Sai da banheira soprando as velas e depois de vestir o pijama (uma camiseta 3 vezes maior que eu) me joguei embaixo dos lençóis abraçando um dos travesseiros na minha cama.
Uma sensação estranha como um arrepio na nuca me fez acordar, ainda era noite, estava escuro e eu não fazia ideia de que horas eram.
Um pouco atordoada me virei na cama, minha visão ainda se adaptando a penumbra, mas podia enxergar uma silhueta, um homem, sentado na minha poltrona a poucos metros de mim, escondido nas sombras com uma perna em cima da outra e o capuz do moletom cobrindo o rosto.
Fiquei olhando tentando entender se eu estava sonhando, ou aquele desgraçado realmente teve a audácia de invadir a minha casa no meio da noite e ainda ficar ali como se a casa fosse dele.
Quando percebi que não se tratava de um sonho rapidamente enfiei a mão por debaixo do meu travesseiro apenas para sentir um vazio onde deveria estar…
— Procurando por isso? — Ele esticou a arma usando o indicador no gatilho para balançar ela. Aquela voz rouca se tornou inconfundível. H.
— Você deve ter muito culhão pra estar aqui. — Grunhi me sentando o olhando com os olhos cerrados.
— E a pergunta que não quer calar é: Por que uma garçonete teria uma arma embaixo do travesseiro? — Sua voz soava provocativa.
— Se vai me matar sugiro que faça agora. Não terá outra oportunidade dessas.
— Te matar? — Ele soltou um riso nasal. Com um click o pente da arma caiu no chão.
— Quem é você? SIRIUS! — Chamei por ele, mas ele não veio. — O que fez com ele?
Ele se levantou da poltrona caminhando com uma enorme calma para mais perto tirando o capuz do moletom.
Ele parecia ter quase 2 metros de altura. Seu cabelo escuro caía um pouco sobre o rosto, o maxilar marcado com a barba por fazer, lábios levemente carnudos, talvez, em outras circunstâncias, eu pudesse achá-lo atraente, mas no momento ele era só o desgraçado que invadiu a minha casa.
— Ele está dormindo, só dei um sonífero, ele vai se acostumar comigo com o tempo assim como você. — Eu faltava espumar pela boca tamanha a minha raiva. — E me chamo Hades.
Claro. Deus do submundo mitológico. Era tanta prepotência que não pude evitar revirar os olhos.
— O que quer comigo, Hades? — Seu nome saía com desdém da minha boca.
— Isso é simples. Você. — O meio sorriso que se formou em seu rosto me mostrou um covinha na sua bochecha direita.
— Eu?
— Sim. Além disso, você pediu que eu aparecesse e eu vim. — Deu de ombros sentando na minha cama ao meu lado.
Ele estava próximo demais. Não seria difícil o derrubar acertando um golpe no lugar certo, ele pegou a arma, mas talvez não tenha visto as facas embaixo da cama e na mesa de cabeceira, poderia acabar com tudo aquilo ali mesmo… Mas… Não fiz. Era como se algo prendesse minha curiosidade naquele ser à minha frente querendo desvendar cada camada que o cobria.
— Fácil assim? — O olhei com uma sobrancelha arqueada.
— Você chama eu venho. Pra você cara mia, sou facinho facinho. — Seus olhos intercalavam entre os meus e os meus lábios.
Ele esticou uma das mãos ficando cada vez mais próxima do meu rosto. Por puro reflexo agarrei seu pulso com força antes que pudesse me tocar de fato.
— Nem pense nisso — Rosnei, meus olhos faiscando com a raiva contida.
Hades soltou uma risada rouca, como se estivesse se divertindo com a minha resistência ao seu toque.Seu sorriso deixou a mostra seus caninos mais pontudos juntos a uma fileira de dentes brancos perfeitos. Desgraçado.
— Você é mais forte do que aparenta, Lizzy. Gosto disso. — Sorriu afastando a mão. A ironia em sua voz era como um veneno sutil, mas eu não permitiria que suas palavras penetrantes abalassem minha determinação.
— Sua opinião sobre mim não me interessa. Cai fora da minha casa e não volte se não quiser uma bala no meio da testa.
Ele mantinha aquele sorriso irritante quando desviou o olhar para o relógio em seu pulso.
— O tempo voa quando estamos nos divertindo, não é cara mia? Mas tenho outros compromissos. Apenas passei para vê-la um minuto.
Ele ficou de pé voltando a cobrir seu rosto com o capuz indo em direção a porta do meu quarto parando com a mão na maçaneta e me olhando por cima do ombro
— Até a próxima, Lizzy. Esta noite foi apenas o começo.
A promessa flutuou no ar, um eco sinistro que pairava como uma nuvem escura. Eu permaneci, observando as sombras engolirem sua figura enquanto a porta se fechava. O silêncio que se seguiu foi a trégua efêmera antes da próxima tempestade, e eu me preparei mentalmente para os desafios que estavam por vir. Hades era uma presença que não se dissolveria facilmente, e eu estava determinada a enfrentar o furacão que ele representava.