HADES
A janela do meu Impala estava aberta permitindo que o vento frio de Seattle invadisse o interior do carro conforme eu dirigia. Não conseguia parar de pensar no meu último encontro com Elizabeth, algo não se encaixa na grande equação que é essa mulher.
Imaginei que ela ligaria para a polícia quando abrisse meu presente aquela noite, mas pelo contrário, ela apenas se livrou da cabeça daquele verme de alguma forma e seguiu como se nada tivesse acontecido. E essa noite mais uma surpresa: Uma pistola 9mm embaixo do travesseiro e uma ótima força e reflexo.
Eu estava certo em não achá-la uma simples garçonete. Há algo a mais. Que segredos você esconde Elizabeth?
Infelizmente esta noite eu tinha negócios a tratar e não poderia ver minha ruiva, mas dizem que a distância as vezes faz bem para o coração apaixonado.
Estou aqui na Underworld, meu domínio sombrio onde os negócios ocultos florescem. A luz difusa e o aroma de uísque pairam no ar enquanto contemplo a sala, pensando na enigmática Lizzy. Ela é um quebra-cabeça intrigante, uma mulher que claramente guarda segredos que m*l posso esperar para desvendar.
Enquanto aprecio um gole de uísque, o pensamento dela me inquieta. A maneira como ela me desafiou, rejeitando minhas investidas, apenas alimenta minha curiosidade. Uma presa que não cede facilmente é sempre mais cativante.
Minha reflexão é interrompida pela chegada de uma cliente. Uma mulher elegante, aparentando estar na casa dos 50 anos, com traços que sugerem ascendência asiática. Hoje, ela opta por esconder sua verdadeira identidade, usando um pseudônimo, uma prática comum nesta casa de negócios clandestinos.
— Boa noite, Sra. Kasumi. Sou Hades, seu anfitrião nesta noite. Venha por aqui.
A mulher assente, mantendo um ar de mistério que permeia cada movimento. Guiando-a pela área premium a levo até a minha sala de negociações, um lugar discreto a prova de sons, um refúgio reservado para transações delicadas. Ofereço-lhe um assento e aguardo, mantendo minha expressão impassível enquanto me sento na cadeira de couro do outro lado da mesa.
— Gostaria de beber algo? Martini?
A mulher conhecida como Kasumi rompe seu silêncio.
— Não, obrigado. — Ela pigarreia. — Hades, ouvi falar muito sobre você e sua reputação neste… Submundo. Estou aqui para um negócio discreto.
Ela tentava demonstrar um tom casual, mas sua linguagem corporal me dizia o contrário. Estava nervosa. As mãos apertando a bolsa por baixo da mesa e o pé inquieto a delatava. Ela única havia feito isso antes.
— Discrição é a essência desta casa. Estou à sua disposição para discutir qualquer assunto que lhe interesse, Sra. Kasumi.
Os olhos dela examinam a sala, avaliando cada detalhe, talvez esteja procurando por alguma câmera ou microfone, os novatos nos negócios sempre são como ratinhos assustados, chega a ser até mesmo um tanto cômico.
Com seus dedos trêmulos ela abre a bolsa e tira uma fotografia a deslizando pela madeira da mesa em minha direção. A imagem mostra um homem gordo, sorridente, e a borda direita irregular me mostra que foi cortada de uma foto maior.
— Esse é o alvo? — Ergo os olhos da foto para encará-la.
Ela assente.
— Este é meu marido, George. Quero que ele desapareça, e rápido. Sem traços, sem rastros. Pode fazer isso? — Seus olhos refletem quase uma súplica.
A pergunta dela é carregada com uma urgência palpável. Seus olhos se fixam nos meus, buscando alguma confirmação em meu rosto impassível. Eu tomo outro gole de uísque. Não é a primeira mulher que me vem pedindo a cabeça do marido, na grande maioria das vezes por ele estar comendo a secretaria ou algo do tipo.
— Desaparecer é uma especialidade desta casa. Preciso do máximo de informações que puder me dar sobre ele e claro, pagamento adiantado. 70% antes e 30% depois do trabalho.
— Geralmente se cobra o contrário.
— Eu não sou muito convencional. — Dou de ombros. — Além disso, o preço da minha discrição está neste primeiro pagamento.
Ela solta um suspiro pesado, como se carregasse um fardo há muito tempo. Percebo que seus olhos estão avermelhados, talvez tenha andado chorando além de uma camada extra de maquiagem. Violência doméstica? Talvez.
— Só… Faça o mais rápido possível.
Ela puxa o celular da bolsa e com poucos toques no touchscreen na sala ecoa com o tilintar digital que confirma a conclusão da transação. Tiro meu celular da bolsa confirmando o valor em bitcoin que adorna minha conta.
— Aqui está tudo que precisa saber sobre ele. — Ela tira um pendrive também deslizando na mesa até mim.
Seus olhos expressam uma mistura de alívio e ansiedade. Estou acostumado a lidar com clientes que carregam consigo segredos e pecados, mas Kasumi parece diferente. Há uma fragilidade oculta sob sua fachada de confiança, uma mulher que busca libertação das correntes que a aprisionam? Não sei, o que sei neste momento é que seu marido já é um homem morto, apenas ele não sabe ainda.
— Pode ter certeza de que seu marido será apenas uma lembrança desagradável em breve. Meu trabalho é eficiente e discreto. Melhor preparar o vestido preto para o enterro. — Sorrio pegando o pen drive.
— Espero que cumpra sua palavra, Hades. Preciso disso feito sem deixar rastros.
Minha resposta é um sorriso sutil, uma promessa que não é preciso verbalizar. Os negócios na Underworld são regidos por um código não escrito, e a confiança entre cliente e executor é tão vital quanto o silêncio que envolve nossas transações.
— Não se preocupe, senhorita Kasumi. Será como se ele nunca tivesse existido.
— Eu sei onde fica a saída.
Com isso, ela se levanta, ajustando o casaco elegante e os óculos escuros antes de desaparecer nos corredores da Underworld. Estou sozinho novamente, meu copo de uísque agora vazio testemunhando mais uma transação concluída.
Conecto o pen drive ao meu notebook, ansioso para mergulhar nos segredos ocultos de George. O silêncio na sala da Underworld estava interrompido apenas pelo suave zumbido do equipamento eletrônico ao inicializar.
— Vamos ver o que nosso caro amigo esconde. — Murmuro para mim mesmo, como se o próprio notebook pudesse compartilhar meu interesse pela intriga.
A tela ganhou vida, revelando um tesouro digital de fotos, documentos e relatórios que compunham o perfil de George Addams. A primeira imagem mostrava um homem de 57 anos, olhar cansado e vincos que contavam histórias de uma vida repleta de desafios. Além de uma certa calvície.
Folheei as fotos, observando cada detalhe que poderia fornecer insights sobre o homem cujo destino estava agora nas minhas mãos. Fotos de eventos sociais, jantares luxuosos, viagens à Itália — a vida dele era pintada com as cores da riqueza e da opulência com certeza. Poderia dizer que a palavra “Ostentação” piscava para ele como luzes de natal.
Os documentos revelavam um segredo que explicava o desgaste visível em seu rosto: uma vinícola de renome internacional. George Addams era o orgulhoso proprietário de uma vinícola que exportava vinhos diretamente da Itália. Uma empresa bem-sucedida, mas nem tudo eram uvas e barris de carvalho.
Aprofundei-me nos relatórios financeiros, um vislumbre do lado sombrio que a fortuna de George escondia. Seu péssimo vício em jogos de azar e prostitutas emergiu como um ponto crucial em sua narrativa. Anos de apostas desenfreadas o levaram à beira da falência, uma revelação que tornava sua aparente prosperidade uma ilusão frágil.
— George, George, seus pecados são tão comuns quanto uma garrafa de vinho na mesa de um banquete — murmurei, sentindo o gosto da ironia enquanto navegava pelos registros.
O pen drive tornou-se minha lente para o passado de George Addams, revelando camadas de sua existência que o mundo nunca imaginaria. O jogo estava apenas começando, e eu, como um ceifador, estava pronto para conduzir os eventos que moldariam o destino desse homem enredado em suas próprias escolhas.
Havia encontrado meu próximo alvo.