Thomas não responde imediatamente. Ele usa a ponta de uma caneta para afastar a gola da camisa de flanela da vítima. Lá, no pescoço, não existem centenas de pequenas mordidas de morcego. Existem apenas dois furos precisos, cirúrgicos, que parecem ter sido feitos por algo com uma força de sucção aterradora.
— Morcegos não fazem isso, Leo — Thomas diz, a voz soando como um veredito sombrio. — E eles não deixam um corpo seco desse jeito em questão de horas. Isso aqui foi algo maior. Algo que sabia exatamente onde morder para não fazer sujeira.
Ele se levanta, olhando para as sombras nos cantos do depósito. Por um segundo, ele se lembra das marcas no telhado de sua casa e do frio estranho no quarto de Annabella. Uma conexão começa a se formar em sua mente, mas é uma conexão que desafia todas as leis da física que ele jurou defender.
Os Foster em Silver Falls são "refinados" e evitam deixar corpos para trás para não atrair a atenção do Xerife. Este ataque foi descuidado, quase uma afronta.
Thomas está começando a agir como o "Carcereiro" descrito no documento do bisavô, mesmo sem saber do pacto. Ele está caçando algo que não pode ser preso.
A conversa no corredor da faculdade morre no instante em que o corpo de Luke fica rígido como uma estátua de gelo. Annabella percebe a mudança imediata: as pupilas dele se dilatam até que seus olhos fiquem completamente negros, e sua mandíbula se tensiona de uma forma que faz as veias de mármore em seu pescoço saltarem.
Ele não está mais ouvindo a "música" dela. Ele está ouvindo o grito silencioso de um pacto sendo estraçalhado no centro da cidade.
Luke nem sequer termina a frase sobre o Dylan. Ele dá um passo atrás, e a aura de namorado protetor desaparece, substituída pela frieza de um príncipe guerreiro que acaba de ser convocado para uma crise de estado.
— Fique aqui, Annabella. Vá para a biblioteca e não saia de perto de outras pessoas — ele ordena, a voz soando como o gotejar de uma estalactite.
Sem esperar por uma resposta, sem um toque de despedida, ele vira as costas e atravessa o corredor com uma velocidade que beira o sobrenatural, deixando-a parada ali, no meio do fluxo de estudantes, com as palavras de indignação ainda presas na garganta.
Luke encontra Mason no estacionamento, perto do SUV preto da família. Mason já está lá, encostado no capô, com os braços cruzados e uma expressão de tédio mortal que esconde uma fúria vulcânica. Ele também sentiu. O ar ao redor de Mason está tão denso que os pássaros parecem evitar as árvores próximas.
O Diálogo entre os Foster:
— Você sentiu? — Luke pergunta, parando a um palmo de distância, sem fôlego, apesar de não precisar respirar. — Alguém se alimentou. No depósito perto do rio. E foi... descuidado. Sujo.
Luke sente o sangue — que não corre mais em suas veias — gelar de uma forma diferente. Ele se vira para Mason, a voz soando como o estalar de uma geleira se partindo.
— Zoe? — Luke repete, e a fúria em seu tom é quase palpável. — Ela não foi apenas impulsiva, Mason. Ela foi estratégica. Ela sabe que ao deixar um corpo seco no depósito do rio, ela coloca o Xerife Thomas diretamente na nossa trilha. Ela está tentando forçar a nossa mão para eliminarmos os Willis e acabarmos com esse "teatro" de convivência.
Mason não n**a. Ele sabe que Zoe sempre desprezou a fixação de Luke pela "música" de Annabella. Para ela, os humanos são apenas peças em um tabuleiro de xadrez ou, na melhor das hipóteses, um banquete ocasional.
— Ela quer que o pacto sangre, Luke — Mason diz, a voz agora num sussurro perigoso. — Se o Xerife encontrar provas que nos liguem a esse crime, nós teremos que escolher entre a nossa exposição ou o silêncio dele. E você sabe qual escolha o Clã Superior vai exigir de nós.
— Eu não vou deixá-la tocar no Thomas — Luke sibilou, os olhos escurecendo. — Se ela acha que pode usar o pai da Annabella para me atingir, ela esqueceu do que eu sou capaz quando algo que me pertence é ameaçado.
— "Pertence"? — Mason solta um riso irônico. — Cuidado, irmão. O amor torna o imortal vulnerável. Zoe sabe disso. Ela não atacou o pescador por fome; ela atacou para se divertir.
Enquanto os irmãos discutem no estacionamento, a quilômetros dali, o Xerife Thomas está agachado no depósito, analisando algo que os morcegos não poderiam ter deixado: um pequeno fragmento de tecido, um lenço de seda fina...
Ela não é apenas uma "irmã impulsiva"; ela se tornou a sabotadora do romance proibido. Ela quer que Annabella sofra a perda do pai para que a "música" dela se transforme em um grito de dor que Luke não suporte ouvir.
Ele precisa chegar ao depósito e recuperar qualquer evidência que Zoe tenha deixado.
A Diretora Harper, mãe de Luke e matriarca do clã em Silver Falls, não usa o interfone; ela usa a frequência mental que apenas os seus eles conseguem sintonizar. É uma convocação real, sem espaço para desculpas.
A sala da diretoria é um santuário de carvalho escuro e silêncio absoluto. Quando Luke, Liam, Ella, Zoe, Lili e Nathan entram, a atmosfera é de um julgamento iminente. Zoe mantém o rosto impassível, mas há um brilho de desafio em seus olhos que Luke reconhece imediatamente.
A Diretora Harper caminha até a estante de livros raros atrás de sua mesa. Com um movimento fluido, ela toca a lombada de um volume encadernado em couro humano — o registro original de Silver Falls.
O som de engrenagens centenárias ecoa suavemente, e a parede de pedra se desloca, revelando uma escadaria em espiral que desce para as fundações da faculdade.
— Desçam — ordena Haper, a voz soando como o gotejar de uma caverna de gelo. — O que foi feito no depósito do rio não pode ser discutido sob a luz do sol.
Lá embaixo, em uma câmara protegida por runas que bloqueiam a audição apurada dos lobos da reserva, a Diretora Harper se vira para o grupo. A luz das tochas reflete na palidez mortal de cada um deles.
A tensão no subsolo da faculdade atinge um nível sufocante. As paredes de pedra parecem pulsar com o poder ancestral dos Foster, enquanto a hierarquia da família é reafirmada de forma brutal. O segredo da imortalidade deles não é apenas uma condição médica ou um acidente; é um pacto de dívida e sangue.
A Diretora Harper caminha até o centro do círculo, seus olhos fixos em Zoe. A autoridade dela não vem apenas da idade, mas do fato de que cada um ali dentro deve a ela a existência que possui.
— Chega de desculpas, Zoe — a voz de Harper corta o ar como uma lâmina de gelo. — Eu fui clara: a caça em Silver Falls é proibida. Se a fome se torna insuportável, vocês viajam quilômetros além das fronteiras desta cidade. O que você fez no depósito não foi um "deslize"; foi um ato de insubordinação que colocou o pescoço de todos nós na guilhotina do Clã Superior.
Zoe baixa a cabeça, o desafio em seus olhos sendo substituído por um temor genuíno.
— Sinto muito — Zoe sussurra, as mãos cerradas ao lado do corpo. — Eu só queria... acelerar o inevitável.