CAAPÍTULO 23

1209 Palavras
— Uma prova surpresa? — ela repetiu, a voz arrastada. — Como você pode saber disso, Luke? O professor Miller nunca avisa nada... ele guarda os testes a sete chaves na pasta de couro dele. Luke deu um sorriso de lado, revelando apenas um vislumbre da perfeição perigosa de seus dentes. Ele se inclinou, o rosto a centímetros do dela, e o cheiro de sândalo a envolveu completamente. — Digamos que o professor Miller tem pensamentos muito... barulhentos quando está organizando os papéis na sala dos professores — ele murmurou, piscando para ela. — É uma das poucas vantagens de ouvir o que as pessoas preferem esconder. Considere isso o meu presente de boa noite. Annabella sentiu os olhos fecharem quase contra a sua vontade. A presença de Luke ao seu lado era como um escudo de gelo impenetrável. Luke usa uma informação trivial (a prova) para desviar a mente de Annabella do horror do sonho e da ameaça de Julian. Ele quer que ela volte à "normalidade" da vida de estudante, onde ele detém todo o controle. O ambiente na sala de aula do Professor Miller estava carregado com aquele silêncio tenso de papel raspando e canetas batendo nervosamente contra as mesas. Annabella sentia o estômago dar voltas; o sonho com o bisavô e as revelações de Luke haviam drenado toda a sua capacidade de memorizar leis e cláusulas. O Professor Miller, com sua expressão severa, entregou as folhas de rosto para baixo. Quando ele deu o sinal para começar, o pânico de Annabella se confirmou: as questões eram complexas, exigindo uma análise profunda do Pacto Federativo que ela simplesmente não conseguia acessar em sua mente exausta. Annabella olhou para a folha em branco, a caneta pairando no ar. Três fileiras à frente, ela viu a nuca de Luke. Ele não parecia tenso; sua postura era de uma calma absoluta. De repente, um fenômeno estranho aconteceu. O tempo pareceu desacelerar para Annabella. Em um borrão de movimento que nenhum olho humano comum captaria, Luke terminou sua própria prova. No segundo seguinte, sem que ninguém notasse — nem mesmo o vigilante Professor Miller — a prova de Annabella foi puxada por uma força invisível, preenchida com uma caligrafia perfeita e técnica, e devolvida à sua mesa. Tudo aconteceu em uma fração de milésimo de segundo. Para os outros alunos, foi apenas um piscar de olhos. Para Annabella, foi a confirmação de que o "Gelo" não conhecia limites físicos. Annabella olhou para as respostas. Eram impecáveis. Cada citação jurídica, cada vírgula estava no lugar certo. Era uma nota dez garantida, mas o peso daquela ajuda parecia maior do que o peso do fracasso. Ela levantou o olhar e encontrou Luke observando-a. Ele se virou levemente na cadeira, com um meio sorriso que era uma mistura de proteção e arrogância. Annabella sentiu o rosto queimar. Ela não queria ser a "donzela em perigo" acadêmica. Ela queria merecer o lugar dela naquela faculdade de Direito, o lugar que o bisavô dela supostamente "comprou" com segredos. Ela fixou os olhos nos dele, tentando transmitir toda a sua frustração. — Eu não precisava disso, Luke — ela pensou com tanta força que esperava que ele ouvisse, mesmo sem telepatia. — Eu não sou um projeto seu. Luke apenas inclinou a cabeça, mantendo o olhar fixo nela por mais um segundo antes de entregar sua própria prova e sair da sala com a elegância de quem não pertence àquele mundo comum. Luke está começando a tratar a vida de Annabella como um tabuleiro que ele precisa controlar. Para ele, garantir que ela tire dez é tão importante quanto protegê-la de Julian. Ela agora tem uma prova perfeita na frente dela. Se ela entregar, estará aceitando a "intervenção" de Luke em sua vida profissional. Se ela apagar e refazer, corre o risco de reprovar e atrair a atenção do professor. Ao olhar pela janela da sala, Annabella percebe que a caminhonete de Dylan não está no lugar de sempre. Onde quer que o lobo esteja, ele não veio protegê-la hoje. O sinal toca, e o fluxo de estudantes de Direito inunda o corredor de pedra. Annabella sai da sala com a prova na mão, sentindo o peso daquela "perfeição" imposta por Luke. Ela o avista encostado em uma das colunas góticas, observando o movimento com um distanciamento quase divino. Annabella caminhou até ele, parando a uma distância que não permitia que o frio dele a envolvesse totalmente. Ela estendeu a folha de papel. — Você não tinha o direito de fazer isso, Luke — ela disse, a voz baixa, mas carregada de uma indignação genuína. — Eu estudo, eu me esforço. Essa nota não é minha. Você me tratou como se eu fosse incapaz de lidar com a minha própria vida. Luke se desencostou da coluna, diminuindo o espaço entre eles. O brilho nos olhos dele não era de arrependimento, mas de uma possessividade serena. — Eu não fiz isso pela sua nota, Annabella — ele murmurou, e o som da voz dele pareceu abafar todo o barulho dos outros estudantes ao redor. — Notas são números em papéis que apodrecerão em cem anos. Eu fiz porque o seu estresse estava fazendo a sua "música" desafinar. Ele deu um passo à frente, e Annabella sentiu o arrepio familiar subir por sua nuca. — O som da sua ansiedade era como um grito constante na minha mente, e eu não suporto ouvir você sofrer por algo tão insignificante quanto uma prova. Eu quero que sua mente esteja livre para coisas mais importantes... como o que está para acontecer nesta cidade. Ele é tão sensível a ela que a dor ou o estresse dela o machucam fisicamente (ou mentalmente). Ele quer poupá-la de qualquer desconforto, como um cavaleiro de gelo. Ele desvaloriza as conquistas humanas dela. Para ele, o esforço de Annabella para ser uma advogada é "insignificante". Ele quer que ela foque apenas no mundo dele. O cenário no antigo depósito de barcos, à beira do rio que corta Silver Falls, é desolador. O ar está impregnado com o cheiro metálico de sangue e o odor acre de mofo. O Xerife Thomas caminha com cautela, a lanterna de serviço cortando a penumbra densa, enquanto suas botas esmagam camadas de poeira e guano de morcego. No centro do depósito, caído entre redes de pesca rasgadas e motores de popa enferrujados, está o corpo de um pescador local, conhecido por todos na cidade. Thomas se agacha, sentindo um arrepio que não tem nada a ver com a umidade do lugar. O Diálogo: — Pelos céus, xerife... — o ajudante, um jovem oficial chamado Leo, cobre a boca com o braço, desviando o olhar. — Olhe para a pele dele. Parece papel pergaminho. Não sobrou uma gota de vida nesse homem. De repente, um ruído agudo vindo das vigas do teto faz os dois pularem. Centenas de morcegos, perturbados pela luz, mergulham em um redemoinho n***o e barulhento, saindo pelas janelas quebradas do depósito. — Devem ter sido os morcegos, senhor — Leo completa, a voz trêmula, tentando se convencer. — Um ataque em massa. Ouvi dizer que em algumas regiões eles podem transmitir doenças que drenam o sistema... ou talvez tenham se alimentado após a morte.
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