CAPÍTULO 22

1146 Palavras
Sentado à mesa de carvalho maciço está seu bisavô, Elias Willis. Ele parece muito com seu pai, Thomas, mas seus olhos carregam um cansaço secular, uma vigilância que beira a paranoia. À sua frente, em pé, está uma figura que faz o coração de Annabella disparar: Augustus Foster. Augustus é a imagem cuspida de Luke, mas com uma aura de crueldade aristocrática muito mais explícita. Ele não finge ser "engraçadinho". Ele é puro gelo e comando. — Você entende o que está assinando, Elias? — a voz de Augustus ecoa como o estalo de um chicote. — Este papel não é sobre terras. É sobre as almas desta cidade. Meus filhos terão o direito de se banquetear nas sombras, desde que mantenham a ordem que os humanos não conseguem manter. — E os meus descendentes terão que viver com essa mancha? — Elias pergunta, a caneta de pena tremendo em sua mão. — Seus descendentes serão os Reis de Silver Falls — Augustus retruca, inclinando-se sobre a mesa. — Eles terão a lei, o distintivo e a autoridade. Mas eles serão os nossos carcereiros. E se eles falharem... o "Fogo" que vocês trouxeram da reserva não fará distinção entre nós e vocês. Elias Willis assina. No momento em que a ponta da pena toca o papel, o sangue de Elias parece escorrer da tinta, transformando-se em chamas que consomem o escritório. No meio do incêndio do sonho, a porta do escritório explode. Uma silhueta massiva de um lobo — maior que Dylan, com olhos que brilham como lava — surge entre as chamas. O Clímax do Sonho: O lobo não ataca Augustus. Ele olha diretamente para Annabella, que observa tudo como um fantasma no canto da sala. — A linhagem despertou — a voz do lobo ressoa não nos ouvidos dela, mas nos seus ossos. — O pacto está quebrado pela proximidade do gelo. O fogo deve purificar a última Fisher antes que o gelo a transforme em pedra. Annabella acorda com um sobressalto, o suor frio escorrendo por seu pescoço. O quarto está mergulhado em um silêncio absoluto. Luke ainda está lá, sentado exatamente na mesma posição, uma estátua de mármore que não pisca. Seus olhos encontram os dela instantaneamente. Annabella percebe que o aviso do lobo no sonho (provavelmente a voz ancestral dos Cooper) foi um alerta real. A proximidade dela com Luke está invalidando o tratado de paz. Ela precisa saber se o que o lobo disse — que o "fogo" (a alcateia) vai tentar purificá-la (matá-la ou capturá-la) — é uma ameaça que Luke pode realmente impedir. A atmosfera do quarto, que antes parecia uma bolha de proteção gélida, subitamente se torna elétrica. Annabella se senta na cama, o peito subindo e descendo com força, ainda sentindo o calor das chamas do sonho e o olhar de lava do lobo ancestral. Luke não se move, mas seus olhos, que pareciam absorver toda a pouca luz do ambiente, estreitam-se. Ele estende a mão fria, mas desta vez Annabella a segura, sentindo a necessidade física de se ancorar na realidade — ou no que passou a ser a sua realidade. Annabella conta tudo. A voz sai em sussurros urgentes, descrevendo o escritório de pedra, a assinatura de Elias Fisher ao lado de Augustus Foster, e o aviso final do lobo de fogo. — Ele disse que o pacto foi quebrado, Luke — ela sussurrou, os olhos fixos nos dele. — O lobo disse que o "fogo" deve me purificar antes que o "gelo" me transforme em pedra. O que isso significa? Eles vão vir atrás de mim por causa do que aconteceu entre nós? Por causa do beijo? Luke permaneceu em silêncio por um longo momento, a expressão mais sombria do que Annabella jamais vira. Ele não parecia surpreso, mas sim... confirmado em seus piores temores. — Significa que o equilíbrio de um século ruiu — Luke respondeu, a voz soando como o vento cortante em um desfiladeiro. — O pacto exigia que os Willis fossem juízes neutros, os carcereiros que nunca se apaixonam pelos prisioneiros. Ao me deixar entrar no seu quarto, ao permitir que nossas energias se fundissem... você deixou de ser a juíza para se tornar parte do jogo. Luke se levantou, caminhando até a janela e olhando para a escuridão da floresta, onde as sombras pareciam mais densas do que o normal. — A palavra "purificar" para os Cooper é um eufemismo para eliminação ou captura, Annabella — ele continuou, sem se virar. — Para Julian e Weston, você não é mais a filha do Xerife que eles devem proteger; você é uma falha no sistema de segurança deles. Eles acreditam que, se você for removida, o pacto será resetado ou eles terão o direito de nos atacar abertamente. Annabella sentiu um calafrio que nada tinha a ver com a temperatura de Luke. — E você? — ela perguntou, a voz firme apesar do medo. — Você pode realmente impedi-los? O lobo no meu sonho era... imenso. Ele parecia ser a própria fundação desta cidade. Luke se virou, e por um breve segundo, Annabella viu algo neles que ia além da beleza: uma determinação predatória que fazia o ar vibrar. — Eu não sou apenas um estudante de direito, Annabella. Eu sou o herdeiro do sangue que assinou aquele papel. Se o "Fogo" quer purificar você, eles terão que apagar o "Gelo" primeiro. Mas saiba de uma coisa: os Foster não lutam sozinhos. Se a alcateia se mover contra você, meu clã verá isso como uma declaração de guerra total. A tensão que parecia prestes a quebrar o quarto em dois se dissolveu sob o magnetismo de Luke. Ele se aproximou novamente, a expressão suavizando de uma forma que quase fazia Annabella esquecer que ele era um dos "monstros" do pacto. Ele colocou a mão sobre a dela, interrompendo o tremor que o sonho deixara. O frio de sua pele, antes assustador, agora parecia uma compressa calmante para a febre de seus pensamentos. — Esqueça o lobo de fogo por enquanto, Annabella — ele sussurrou, a voz voltando ao tom aveludado e seguro que a envolvera no clube. — Sonhos são ecos de medos antigos, e o passado não tem jurisdição sobre o que eu decido proteger. Eu vou resolver isso com a alcateia. Eles não ousariam quebrar o tratado enquanto eu estiver aqui. Ele a ajeitou suavemente nos travesseiros, puxando o edredom com uma delicadeza quase humana. — Volte a dormir. Você precisa de descanso. Afinal — ele fez uma pausa dramática, e aquele brilho "engraçadinho" voltou aos seus olhos — você tem uma prova surpresa de Direito Constitucional amanhã na primeira aula. E eu sei que você odeia não estar preparada. Annabella franziu a testa, a confusão lutando contra o sono que voltava a pesar em suas pálpebras, impulsionado pela aura hipnótica de Luke.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR