— Os Cooper são o "fogo" mencionado na cláusula — Luke explica, aproximando-se o suficiente para que ela sinta o vácuo de sua presença. — Eles foram trazidos pelos Willis para serem os carrascos, caso nós saíssemos da linha. Você entende agora? Você não caiu nesta guerra por acaso. Você nasceu nela. O seu DNA é a chave que mantém o tratado vivo... ou que pode incendiá-lo de vez.
Thomas é o único que não sabe de sua herança como "Censor das Sombras". Se ele descobrir que sua família serviu aos Foster por décadas, sua lealdade à lei será testada.
Ele entregou o documento para mostrar que a conexão deles é "destino", ou para alertá-la de que o Clã Superior sabe que ela é a última Willis e, portanto, a única que pode destruí-los.
A penumbra do quarto de Annabella parecia pulsar com a revelação contida naquele papel amarelado. O peso de gerações de segredos agora repousava sobre seus ombros, e o som dos passos pesados do Xerife Thomas subindo a escada de madeira — degrau por degrau — era o cronômetro de uma bomba prestes a explodir.
Annabella agarrou o documento com força, os nós dos dedos brancos, e encarou Luke com uma mistura de pânico e determinação.
— Tire o meu pai disso, Luke! — ela sibilou, a voz carregada de uma urgência desesperada. — Ele veio para proteger esta cidade com leis que ele acredita serem reais. Ele não sabe que é o guardião de um bando de monstros. Se ele souber que foi usado...
Luke não recuou. Ele permaneceu imóvel, uma sombra elegante contra a luz do abajur, enquanto o som da bota do pai dela batia no último degrau do corredor.
— Os Foster não farão m*l ao seu pai, Annabella. Ele é a peça que mantém a fachada de normalidade em Silver Falls — Luke afirmou, a voz soando como o estalo de gelo seco. — Mas eu não sou o único que conhece este contrato.
Luke inclinou-se para a frente, a expressão subitamente sombria. O ar ao redor dele pareceu endurecer.
— Os Cooper sabem desse documento. Jack Cooper não é apenas um ancião da reserva; ele é o "Fogo" que o seu bisavô invocou. E agora que você sabe a verdade, a caça a você pode começar a qualquer momento.
Annabella sentiu o pingente de Dylan queimar contra seu peito, como se estivesse tentando silenciar as palavras de Luke.
— O que você quer dizer com "caça"? — ela perguntou, o coração disparado.
— Julian e Weston... — Luke pronunciou os nomes dos membros mais agressivos da alcateia com um desprezo m*l contido. — Eles não têm a paciência do Dylan. Eles veem você como uma arma estratégica. Eles podem querer forçá-la a ficar do lado deles para anular o pacto dos Foster. Para eles, você é a chave para nos expulsar de Silver Falls para sempre... ou para nos destruir.
A maçaneta da porta do quarto começou a girar. Um uivo longo e lúgubre cortou o silêncio da floresta lá fora — o sinal de Dylan, um aviso desesperado de que o território estava sendo invadido por verdades demais.
— Bella? Você ainda está acordada? — a voz de Thomas soou do outro lado da porta, abafada pela madeira grossa.
Luke deu um passo em direção à janela, desaparecendo nas sombras antes mesmo que Annabella pudesse piscar.
— Escolha bem em quem confiar, Annabella — a voz dele ecoou na mente dela, um sussurro telepático final. — O lobo que te protege hoje pode ser o que te acorrenta amanhã para garantir a vitória da alcateia.
Julian e Weston representam o lado político e radical dos lobos. Se eles decidirem que Annabella é "propriedade" do pacto, o carinho de Dylan pode não ser suficiente para protegê-la da própria família dele.
Ao alertá-la sobre os lobos, Luke semeou a dúvida. Ele quer que ela tema a alcateia tanto quanto teme o Clã Superior dos vampiros, deixando-o como a única opção "civilizada".
— Já estou deitada, pai! — ela exclamou, deslizando o documento debaixo do travesseiro em um movimento frenético. — Só estava fechando a janela, o vento está mudando. Boa noite!
Ela ouviu o suspiro pesado de Thomas do outro lado da madeira. Os passos do Xerife hesitaram por um segundo — o instinto de policial dizendo que algo estava fora do lugar —, mas o cansaço do pai prevaleceu.
— Tudo bem, Bella. Descanse. Tranquei tudo lá embaixo. Durma bem.
Os passos dele se afastaram pelo corredor, e Annabella soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. O silêncio voltou a reinar, mas a temperatura do quarto não subiu.
Antes que ela pudesse processar o alívio, uma sombra se moveu no canto escuro perto da poltrona. Luke não tinha ido embora; ele apenas recuara para o vácuo absoluto onde a visão humana não alcança.
Com a elegância silenciosa de um predador que decidiu ser guardião, ele caminhou até a lateral da cama e sentou-se no colchão. O peso dele era quase inexistente, mas o frio que emanava de seu corpo atravessava o lençol como uma geada.
Annabella se encolheu sob o edredom, os olhos arregalados enquanto observava a silhueta dele contra a luz fraca que vinha da rua.
— Você deveria ter ido, Luke — ela sussurrou, a voz carregada de uma exaustão emocional profunda. — Se o Dylan te sentir aqui... se o Julian ou o Weston aparecerem...
— Deixe que venham — Luke respondeu, a voz soando como uma melodia de ninar sombria. Ele estendeu a mão e, com as costas dos dedos, acariciou a têmpora dela. O toque era anestesiante. — Eu disse que não permitiria que tocassem em você. Isso inclui os "irmãos" do seu protetor.
Ele se inclinou um pouco mais, seus olhos brilhando na penumbra como joias lapidadas.
— Feche os olhos, Annabella. Eu vou ficar aqui até que você pegue no sono. Nada vai atravessar aquela janela ou aquela porta enquanto eu estiver vigiando a sua música.
Do lado de fora, nas árvores, o "Fogo" (Dylan) vigiava com fúria e lealdade ancestral. Do lado de dentro, sentado ao seu lado, o "Gelo" (Luke) oferecia uma proteção possessiva e sofisticada.
Ao aceitar a presença de Luke ali, Annabella estava escolhendo um lado, mesmo que inconscientemente. Ela estava deixando o predador entrar no lugar onde deveria estar mais segura.
Luke a alertou sobre Julian e Weston. Ao ficar no quarto dela, ele está enviando um sinal claro para a alcateia na reserva: Ela está sob a minha sombra.
O quarto de Annabella desaparece. O cheiro de sândalo e neve de Luke se transforma em fumaça de charuto e carvalho queimado.
Annabella se vê em um escritório escuro, iluminado apenas por velas de sebo que tremeluzem contra paredes de pedra bruta. O ar é pesado, carregado de uma tensão que faz seus dentes vibrarem.