CAPÍTULO 20

1179 Palavras
— Como assim, pai? Pode ter sido um animal, não? Um urso ou... — Annabella tenta lançar uma dúvida racional, mas a imagem das garras de Dylan gravadas na madeira surge em sua mente. — Um urso não subiria no telhado sem quebrar a estrutura inteira, Bella — Thomas rebate, guardando a arma no coldre com um estalo seco. — Seja o que for, pareceu estar vigiando o seu quarto. Vou dobrar a ronda na nossa rua hoje à noite. Abigail se vira, limpando as mãos no avental. O olhar dela é suplicante, carregado daquela intuição materna que Annabella sempre temeu. — Por favor, querida — Abigail diz, aproximando-se da filha e tocando seu braço. — Não esqueça de trancar bem as janelas do seu quarto hoje. O vento em Silver Falls está ficando gelado demais, e não queremos que nada... ou ninguém... entre sem ser convidado. Annabella sobe para o quarto sentindo o peso da mentira. Ela sabe que, tecnicamente, o "invasor" do telhado (Dylan) estava tentando protegê-la do "invasor" de dentro do quarto (Luke). Se o pai dela subir no telhado ou ficar de vigia no jardim, ele pode acabar no meio de um confronto entre um lobo furioso e um vampiro que prometeu visitá-la. Ele não se importa com fechaduras ou janelas trancadas; para ele, barreiras físicas são meras sugestões. Annabella parou diante da moldura de madeira branca da janela, a mão hesitando sobre o trinco de metal. O conselho da mãe ecoava em sua mente como um aviso sombrio, mas o peso da arma do pai na mesa da cozinha era um lembrete muito mais letal. Se ela trancasse a janela, Luke — com sua arrogância sobrenatural e sua promessa de "visita" — poderia tentar abri-la à força ou fazer um ruído que despertaria o instinto de caçador do Xerife Thomas. E um confronto entre o metal de uma bala e o gelo de um Foster no meio do corredor de sua casa era a última coisa que Silver Falls precisava. Annabella suspirou, sentindo o ar gelado da noite começar a infiltrar-se pelas frestas. Ela não trancou a janela. Em vez disso, deixou-a apenas encostada, um convite silencioso e perigoso para evitar o barulho de um vidro quebrado ou de uma madeira rangendo. Ela apagou a luz principal, deixando apenas o abajur de luz quente iluminar um canto do quarto, e sentou-se na beira da cama. O silêncio da casa era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico da chuva fina que começava a cair lá fora. De repente, o pingente de Dylan em seu pescoço, que estivera morno durante o jantar, deu um solavanco de calor. Não era a queimação de alerta máximo de ontem, mas uma pulsação constante, como um aviso de que "ele" estava perto. Mas o ar no quarto... o ar começou a mudar. Não houve barulho de passos no telhado desta vez. Apenas uma corrente de ar polar que fez as cortinas de renda dançarem suavemente. Luke materializou-se no parapeito, deslizando para dentro do quarto com a fluidez de uma sombra. Ele fechou a janela atrás de si com um clique quase imperceptível, sem fazer o menor ruído. — Você seguiu o conselho da sua mãe de forma... seletiva — Luke murmurou, a voz soando como o estalo de gelo fino sob os pés. Ele estava encostado na parede ao lado da janela, as sombras do quarto parecendo se curvar à sua vontade. — A janela está fechada, mas o trinco está livre. Você está aprendendo rápido as leis da nossa convivência, Annabella. — Meu pai está lá embaixo com uma arma carregada, Luke — ela disse, levantando-se e tentando manter a voz firme, apesar do coração martelar contra as costelas. — Ele encontrou as marcas no telhado. Se ele ouvir um sussurro que não pertença a esta casa, ele sobe. Luke deu um passo à frente, entrando no círculo de luz do abajur. Seus olhos não tinham a frieza profissional da faculdade; eles brilhavam com a mesma intensidade do beijo de ontem. — Ele não vai ouvir nada que eu não queira que ele ouça — Luke afirmou, inclinando a cabeça. — Mas o seu "protetor" da reserva... ele está lá fora, no limite das árvores, lutando contra o instinto de uivar. Ele sabe que eu estou aqui. E ele sabe que, desta vez, você não o chamou para o telhado. A presença de Thomas no andar de baixo adiciona uma camada de urgência real. Qualquer erro de Luke ou qualquer intervenção de Dylan pode resultar em uma tragédia humana. Luke veio para conversar. Ele mencionou no estacionamento que precisavam falar sobre o que Annabella se tornou. O Clã Superior e a marca de Dylan nela são os tópicos que podem mudar o rumo da guerra em Silver Falls. A atmosfera no quarto muda de romântica para investigativa em um piscar de olhos. Luke não busca o contato físico desta vez; há uma seriedade em seu rosto que faz Annabella esquecer, por um momento, o formigamento que sentiu nos lábios no estacionamento. Ele retira de dentro do sobretudo um envelope de couro envelhecido, cujas bordas parecem gastas pelo tempo, mas preservadas pelo frio. Luke se aproxima da pequena escrivaninha de Annabella, onde seus livros de Introdução ao Estudo do Direito repousam. Ele coloca o documento sobre a mesa, sob a luz amarelada do abajur. Annabella hesita, mas a curiosidade de uma futura jurista fala mais alto. Ela abre o envelope. O papel é grosso, amarelado, com aquele cheiro característico de bibliotecas esquecidas e terra úmida. É um registro de terras datado da fundação de Silver Falls. — Olhe a última cláusula, Annabella — Luke sussurra, parando logo atrás dela. O frio que ele emana parece ajudar a focar sua mente. Seus olhos percorrem a caligrafia rebuscada do século passado. Lá, em tinta nanquim desbotada, estão as assinaturas. Augustus Foster e, logo ao lado, com uma letra firme que lembra a do Xerife Thomas: Elias Willis. O conteúdo do documento faz o coração de Annabella errar uma batida. Não é apenas uma compra e venda de terras; é um acordo de "Coexistência e Vigilância". ...Fica estabelecido que a linhagem Willis guardará os limites da lei dos homens, enquanto a linhagem Foster assegurará que as sombras não transbordem. Em troca da paz e do solo, o segredo será o preço. Se um Willis trair o pacto, o solo reclamará o seu sangue. Se um Foster romper a vigília, a linhagem Willis terá o direito de invocar o fogo." Annabella levanta os olhos para o reflexo de Luke na janela escura. Ele não está sorrindo. — O seu bisavô não era apenas um colono, Annabella — Luke diz, a voz soando como um veredito. — Ele era o guardião do segredo. Os Willis sempre souberam o que nós somos. O seu pai... ele é o primeiro em gerações que foi mantido no escuro. — Por que o Jack Cooper não está aqui? — ela pergunta, a voz falhando. — Se o pacto é entre Foster e Fisher, onde entram os lobos?
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