— Xerife Thomas, Sra. Willis... e a encantadora Annabella. — Harper estendeu uma mão gélida. — É um prazer ver que o sangue novo da cidade tem tanta vitalidade.
Quando Harper tocou a mão de Annabella, o pingente de Dylan sob o vestido deu um solavanco de calor, quase como um batimento cardíaco. Harper retraiu os dedos sutilmente, um vinco quase imperceptível surgindo entre suas sobrancelhas perfeitas. Ela sentira a barreira.
O refeitório era iluminado apenas por candelabros de prata. A prataria era pesada e a comida, embora impecável, parecia intocada pelos Foster.
Aiden e Thomas discutiam a segurança da cidade, mas Luke mantinha sua atenção fixa em Annabella. Ele girava o vinho tinto na taça, observando o líquido viscoso manchar o cristal.
— Sabe, Annabella — começou Luke, o tom de voz casual escondendo uma intenção afiada —, eu estava lendo sobre as antigas tribos que habitavam esta floresta antes dos meus antepassados chegarem. Eles tinham o hábito curioso de carregar pedras e amuletos... acreditavam que isso os protegia de forças que não entendiam.
— Superstições fascinantes, não acha? — interrompeu Harper, do topo da mesa. — Povos antigos e selvagens sempre tentaram dar sentido à sua própria natureza brutal através de objetos sem valor. Quartzo, pedras de rio... eles achavam que isso os mantinha "humanos".
Luke inclinou-se para frente, o olhar fixo no decote de Annabella, onde o calor da pedra agora criava uma mancha levemente avermelhada em sua pele.
— Mas a verdade, Annabella, é que nada pode proteger uma presa quando ela decide caminhar voluntariamente para dentro da toca do predador. — Ele sorriu, um gesto que revelou apenas o brilho perfeito de seus dentes. — Você não concorda que a inteligência e a lei são proteções muito mais eficazes do que... um pedaço de rocha escondido?
A mesa de jantar dos Foster parecia dividida por uma linha invisível. De um lado, o som das risadas sociais e o tilintar de talheres; do outro, um silêncio carregado de eletricidade estática.
Thomas estava imerso em uma conversa técnica com Aiden e outros dois conselheiros da faculdade sobre o policiamento da fronteira. — O Direito Natural, Aiden, nos diz que a segurança é o primeiro contrato social — dizia Thomas, gesticulando com a taça, sem notar que o anfitrião m*l tocava em seu próprio vinho.
Ao lado, Abigail ouvia atentamente Harper, que descrevia com uma polidez gélida os planos para o próximo baile de gala da fundação. Harper sorria, mas seus olhos nunca deixavam de monitorar a postura de Annabella, como uma águia observando um movimento estranho na grama.
No centro desse redemoinho, Luke se inclinou na direção de Annabella. A voz dele baixou para um registro que apenas ela poderia captar, uma frequência que parecia vibrar diretamente em seus ossos.
— Você ainda está vendo o Dylan, Annabella? — A pergunta não foi um sussurro; foi uma constatação.
Annabella sentiu o pingente de quartzo sob o vestido pulsar com um calor súbito, quase como um aviso de incêndio contra sua pele. Ela sustentou o olhar de Luke, recusando-se a baixar a cabeça.
— Ele mora perto da minha casa, Luke. Silver Falls é uma cidade pequena, você mesmo disse — ela respondeu, tentando manter a voz firme enquanto sentia o frio da mansão lutar contra o calor da pedra em seu peito.
— Proximidade não justifica... i********e — Luke retrucou, os olhos escurecendo até parecerem duas fendas de ônix sob a luz das velas. — Eu avisei que ele é perigoso. Mas sinto que você trouxe algo dele para dentro da minha casa. Algo que não pertence a este lugar.
Ele estendeu a mão sobre a mesa, os dedos longos e pálidos parando a milímetros do pulso de Annabella.
— Você está brincando com uma força que não entende, Bella. O que ele te deu? — Ele inclinou o rosto, o nariz dilatando sutilmente enquanto captava a energia da pedra de Dylan. — Posso sentir o cheiro da terra e do bicho vindo de você. É... ofensivo.
O silêncio que se seguiu à frase de Annabella foi tão denso que o tilintar do talher de Aiden no prato de porcelana soou como um tiro. Harper parou de falar com Abigail no mesmo instante, seus olhos gélidos fixando-se na nuca de Annabella.
Talvez eu prefira o cheiro da terra ao cheiro de museu desta casa, Luke — Annabella disse, a voz clara o suficiente para cortar a névoa de conversas paralelas.
O sorriso de Luke não desapareceu; ele se transformou em algo mais afiado, quase admirado. Ele recostou-se na cadeira, observando-a como se ela fosse uma obra de arte que subitamente ganhara vida e começara a morder.
— Um museu... — Luke repetiu, saboreando as palavras. — Curioso. Museus guardam o que é eterno, Annabella. A terra... a terra apenas consome o que apodrece.
Annabella sentiu o quartzo de Dylan queimar contra seu peito, um calor de advertência. A atmosfera na mesa tornou-se sufocante. Ela precisava de ar, longe daqueles olhares que pareciam ler seus pensamentos.
— Com licença — ela disse, levantando-se com uma elegância forçada que aprendeu nas aulas de etiqueta da mãe. — O calor desta sala está um pouco... opressor. Vou procurar um pouco de água.
Antes que Thomas pudesse protestar ou que Abigail fizesse uma pergunta, Luke já estava de pé, movendo-se com aquela rapidez silenciosa que fazia os pelos do braço de Annabella se arrepiarem.
— Eu a acompanho, pai — Luke disse para Aiden, sem desviar os olhos de Annabella. — Nossa convidada de honra não deve se perder nos corredores. Afinal, como ela mesma disse, um museu pode ser vasto e cheio de... segredos esquecidos.
Ele estendeu o braço, oferecendo-o a ela. O gesto parecia cavalheiresco, mas Annabella sabia que era uma escolta. Sob o olhar vigilante de Harper, ela não teve escolha a não ser aceitar, sentindo o frio do tecido do terno de Luke contrastar com o calor febril que o colar de Dylan emanava sob seu vestido.
Eles saíram da sala de jantar e entraram em um corredor ladeado por tapeçarias imensas e retratos de ancestrais dos Foster que pareciam seguir cada passo deles com olhos pintados.
— Você é corajosa, Annabella. Ou muito imprudente — Luke sussurrou enquanto caminhavam. — Trazer o amuleto de um lobo para a mesa da minha mãe é como levar uma tocha acesa para um depósito de pólvora.
As luzes do corredor eram baixas, fazendo com que as sombras de Luke e Annabella se esticassem pelas paredes de papel de parede de seda. O frio da mansão parecia lutar contra o calor que emanava do pingente escondido de Annabella.
— Por que você chamou o Dylan de "lobo", Luke? — Annabella parou, virando-se para ele. A pergunta saiu mais afiada do que ela planejava. — Eu o conheci. Ele me ajudou. Ele parece... uma pessoa legal, apesar do que você diz.
Luke parou abruptamente. Ele inclinou a cabeça para o lado, observando-a com uma intensidade predatória, e então soltou uma risada curta e seca. Não era uma risada de alegria; era o som de cristal se quebrando.