CAPÍTULO 7
— "Legal"? — ele repetiu, a palavra soando estrangeira em sua boca. — Annabella, você é fascinante. Você vê um incêndio florestal e o chama de "luz aconchegante".
— Você só fala por enigmas! — ela rebateu, cruzando os braços, sentindo o quartzo de Dylan pulsar contra seu peito como se estivesse vivo. — Primeiro diz que ele é perigoso, agora usa metáforas estranhas. Se tem algo a dizer sobre ele, ou sobre esta cidade, diga de uma vez. Pare de agir como se estivesse em um livro de poesias sombrias.
Luke deu um passo à frente, invadindo o espaço dela. O cheiro de neve e sândalo dele era tão forte que quase abafou o cheiro de pinheiro que ela trazia da floresta.
— Você quer clareza, Annabella? — Ele baixou a voz, e por um segundo, seus olhos pareceram brilhar com uma luz fria e amarelada. — Dylan Cooper não é "legal". Ele é instinto. Ele é sangue e dentes. Ele pertence à terra de um jeito que você, com sua lógica e seus livros de Direito, nunca vai entender.
Ele apontou para o peito dela, exatamente onde o colar estava escondido.
— O que você carrega aí não é um enfeite. É uma marca de propriedade. Ele marcou você antes mesmo de você saber em que tipo de jogo entrou. E o "lobo" não protege o que ama, Annabella... ele apenas guarda o que pretende consumir.
O corredor parecia estar se fechando ao redor de Annabella sob o olhar hipnótico de Luke, quando o som de passos pesados e firmes ecoou pelo mármore, quebrando o feitiço.
— Annabella? — A voz de Thomas ressoou, autoritária e cansada. Ele surgiu na ponta do corredor, ajustando o paletó que parecia apertado demais para seus ombros. — Achei que tivesse se perdido.
Luke recuou um milímetro, a máscara de polidez voltando ao rosto instantaneamente, como se a conversa sombria de segundos atrás nunca tivesse acontecido.
— Só estávamos admirando a arquitetura, Xerife — disse Luke, com uma voz tão suave quanto seda. — Sua filha tem um olhar muito perspicaz para... detalhes ocultos.
Thomas olhou de Luke para Annabella, o instinto de pai e policial captando a eletricidade no ar. Ele não sorriu.
— Está na hora de irmos, Bella. Sua mãe já se despediu da Sra. Foster. Tenho que estar na delegacia às seis da manhã de sábado; parece que a floresta não vai se patrulhar sozinha.
— Claro, pai. Vamos — Annabella respondeu rapidamente, sentindo um alívio misturado com uma frustração agoniante.
Antes de se virar, ela sentiu a mão de Luke tocar seu ombro por um breve segundo. O frio dos dedos dele atravessou o tecido do vestido, fazendo-a estremecer.
— Durma bem, Annabella — Luke sussurrou, alto o suficiente apenas para ela. — E cuidado com o que você deixa entrar nos seus sonhos. Às vezes, o que o "lobo" marca, a sombra reclama.
Dentro do SUV da família, o aquecedor estava ligado, mas Annabella continuava com frio. Ela olhava pela janela para as árvores que passavam como vultos negros na estrada de Silver Falls.
Ela apertou o pingente de quartzo através do vestido. Ele ainda estava morno, mas agora o calor parecia... diferente. As palavras de Luke giravam em sua mente como um carrossel de agulhas.
"Ele marcou você antes mesmo de você saber em que tipo de jogo entrou.
Seria verdade? Dylan a ajudara por bondade ou porque vira nela uma oportunidade? E Luke... por que ele parecia tão empenhado em pintar Dylan como um monstro, enquanto ele mesmo vivia em uma casa que parecia um mausoléu de luxo?
Annabella olhou para o pai, que dirigia com os olhos fixos na estrada nublada. Thomas estava preocupado com "animais grandes" e "leis de segurança". Ele não fazia ideia de que sua filha estava no meio de uma guerra silenciosa entre o gelo e o fogo.
O sábado amanhece em Silver Falls com aquela neblina densa que parece abafar os sons da cidade, mas para Annabella, o silêncio é barulhento. O peso das palavras de Luke e o calor constante do pingente de Dylan não a deixaram dormir.
Ela precisa de vozes humanas, de lógica e, acima de tudo, de respostas que não venham de enigmas sobrenaturais.
O café local, The Rusty Bean, é o único lugar que cheira a algo normal: grãos torrados e torta de mirtilo. Evelyn, Leo e Scarlett já estão em uma mesa de canto, com expressões que misturam preocupação e uma curiosidade devoradora.
— Você sobreviveu! — exclamou Evelyn, puxando uma cadeira para Annabella assim que ela entrou, ainda com o casaco úmido da neblina. — Queremos detalhes. O jantar foi tão assustador quanto os olhos da Harper Foster?
Annabella sentou-se, sentindo o calor do café aquecer suas mãos, mas seu coração continuava frio.
— Foi... estranho. Luke agiu como se estivesse me analisando sob um microscópio. E ele disse coisas... — Ela hesitou, baixando a voz. — Ele chamou o Dylan de "perigoso". De novo. Mas desta vez, ele usou a palavra "lobo". Como se fosse um insulto antigo.
Leo parou de mexer no seu tablet e olhou para ela seriamente.
— Os Foster e os Cooper não se bicam desde que esta cidade era apenas um posto de troca de peles, Annabella. Mas o que aconteceu há vinte anos... foi o que selou o caixão — disse Leo, olhando para Scarlett.
Scarlett inclinou-se para frente, a expressão sombria. Ela era a que mais conhecia as lendas locais, aquelas que não estavam nos livros de história da faculdade.
— Meu avô me contou isso. A família do Dylan, os Cooper, era dona de quase toda a reserva florestal. Eles eram os guardiões daquela terra. Mas os Foster queriam expandir a faculdade e as indústrias. Houve uma disputa judicial terrível, e depois... um incêndio.
— Um incêndio? — Annabella sentiu um nó na garganta.
— Na antiga casa dos Cooper — continuou Scarlett, a voz quase um sussurro. — Dizem que foi um acidente, mas ninguém acreditou. A família do Dylan perdeu quase tudo: as terras, o prestígio e... alguns dizem que houve mortes que nunca foram explicadas. Desde então, os Cooper que restaram se isolaram na floresta, vivendo como selvagens. Os Foster ganharam a cidade, mas os Cooper nunca entregaram o coração da floresta.
Annabella m*l se despediu dos amigos. Ela ignorou os chamados de Evelyn e correu para seu carro. Seguir o pai sem ser notada em uma estrada sinuosa de floresta exigia toda a sua concentração. Thomas não seguia para a delegacia; ele estava entrando cada vez mais fundo na zona proibida da reserva.
Annabella estacionou o carro a uma distância segura quando viu a viatura de Thomas parada à beira de uma trilha desativada. Ela viu o pai descer, lanterna em punho, e entrar na mata fechada. Em vez de segui-lo diretamente, ela tomou um atalho lateral, guiada por um instinto que parecia emanar do pingente em seu peito.