CAPÍTULO 8

1182 Palavras
O ar ficou mais pesado, carregado com o cheiro de mofo e algo que lembrava cinzas antigas, mesmo décadas depois. Finalmente, ela chegou a uma clareira que o mapa da faculdade não mostrava. Ali estavam as ruínas. Vigas de carvalho carbonizadas subiam do chão como costelas de um gigante morto. O que um dia foi uma varanda imponente agora era apenas pedra enegrecida coberta de musgo. No centro do que restou da sala de estar, Annabella viu uma silhueta. Não era o seu pai. Era Dylan. Ele estava de costas para ela, ajoelhado sobre os restos de um piso de pedra. Ele não usava camisa, apesar do frio cortante, e Annabella pôde ver cicatrizes finas e claras que cruzavam suas costas musculosas — marcas que não pareciam feitas por facas, mas por algo muito mais antigo. O som que saía de Dylan não era um choro comum. Era um lamento baixo, uma vibração que parecia vir do centro da terra. Ele segurava um objeto pequeno e carbonizado nas mãos, apertando-o contra o peito com uma força que fazia seus nós dos dedos ficarem brancos. — Dylan? — o sussurro de Annabella m*l saiu, mas os sentidos dele eram sobrenaturais. Ele se virou em um movimento fluido, os olhos âmbar brilhando com uma dor tão crua que Annabella deu um passo atrás. Não havia raiva ali, apenas uma vulnerabilidade que quebrava o coração. — Você não deveria estar aqui — ele disse, a voz rouca e carregada de uma fadiga milenar. — Este lugar é onde a minha família foi apagada para que os Foster pudessem construir o império de mármore deles. Annabella se aproximou lentamente, ignorando o perigo. Ela viu que o que ele segurava era uma moldura de metal queimada, onde o rosto de uma criança m*l podia ser distinguido. — O Luke me disse que você era perigoso — ela disse, parando a poucos centímetros dele. — Mas ele nunca mencionou que a família dele tirou tudo de você. Dylan soltou um riso amargo, olhando para as ruínas. — Eles não tiraram tudo, Annabella. Eles deixaram a fera. E agora, com o eclipse chegando, eles têm medo de que a fera venha cobrar a dívida. Annabella ouve o estalar de galhos. O Xerife Thomas está se aproximando da clareira. O estalar de um galho seco ecoou como um tiro na clareira silenciosa. Annabella sentiu a mão de Dylan envolver seu pulso. O calor dele era abrasador, um contraste violento com o pavor gélido que subia por sua espinha. — Ele está aqui — Annabella sussurrou, o pânico distorcendo sua voz. Dylan não respondeu com palavras. Seus olhos brilharam com uma intensidade animal enquanto ele examinava o perímetro. Com um movimento rápido e silencioso, ele a puxou para trás de uma parede de pedra enegrecida, coberta por uma cortina de trepadeiras mortas. — Não faça barulho. Nem respire — ele ordenou, a voz m*l passando de uma vibração contra o ouvido dela. Eles se espremeram em uma f***a estreita entre o que restara da chaminé e o solo da floresta. Annabella podia ouvir o bater do próprio coração, mas o som mais alto era a respiração pesada de seu pai, Thomas, que acabara de entrar na clareira das ruínas. O feixe da lanterna do Xerife varreu o local onde Dylan estivera ajoelhado segundos atrás. Thomas parou, examinando o chão com o olhar treinado de um investigador. Ele se inclinou, pegando algo pequeno na cinza — talvez um rastro da presença deles — e praguejou baixo. — Eu sei que você está por aqui... — Thomas murmurou para o vazio, sua mão descansando no coldre da arma. Dylan aproveitou o momento em que o Xerife se virou para checar um arbusto e, com uma agilidade que Annabella m*l conseguiu acompanhar, a guiou por um túnel natural de vegetação densa que descia em direção ao riacho. Eles se moveram como sombras, fundindo-se à floresta de um jeito que a tecnologia humana da lanterna de Thomas jamais alcançaria. Após o que pareceram quilômetros, mas foram apenas centenas de metros, Dylan a levou até uma entrada camuflada por rochas e raízes de um carvalho imenso. Era uma espécie de porão de pedra, uma estrutura que o incêndio não conseguira derrubar por estar enterrada sob a fundação original. Lá dentro, o ar era frio, mas seco. Dylan soltou o pulso de Annabella e se afastou, recuperando o fôlego. A luz fraca que entrava por uma f***a no teto iluminava as cicatrizes em suas costas, que agora pareciam pulsar levemente. — Por que você me trouxe aqui? — Annabella perguntou, os braços em volta do próprio corpo, sentindo o quartzo de Dylan queimar intensamente sob o vestido. — Meu pai está lá fora arriscando a vida porque acha que existe um monstro na floresta. E o Luke... o Luke diz que o monstro é você. Dylan virou-se lentamente. A vulnerabilidade de antes fora substituída por uma aceitação sombria. — O seu pai está certo, Annabella. Existe um monstro. — Ele deu um passo em direção a ela, a luz atingindo seus olhos, que ainda mantinham o brilho âmbar. — Mas o Luke esqueceu de mencionar que os monstros dele usam coroas e bebem o sangue desta cidade há séculos. Ele apontou para as paredes de pedra do porão, onde marcas de garras profundas estavam gravadas. — Minha família não morreu em um acidente. Os Foster nos caçaram porque nós éramos os únicos que podíamos detê-los. Eles são o gelo que nunca derrete, Annabella. E nós... nós somos o fogo que eles tentaram apagar. Você quer a verdade? Dylan estava a poucos centímetros de Annabella. O ar ao redor dele parecia vibrar, distorcido pelo calor que emanava de sua pele. Ele abriu a boca para falar, os olhos âmbar fixos nos dela, buscando algo — talvez uma confirmação de que ela suportaria a verdade. — Você quer a verdade? — ele repetiu, a voz falhando, carregada de uma dor que parecia secular. Annabella sustentou o olhar, o coração batendo contra as costelas. Ela esperava uma confissão, uma explicação para o brilho nos olhos dele ou para o frio mortal dos Foster. Mas Dylan travou. Ele olhou para as ruínas carbonizadas ao redor, para as marcas de garras nas pedras, e o peso do segredo pareceu esmagá-lo. Ele fechou os olhos e respirou fundo, o maxilar tão tenso que parecia prestes a quebrar. Quando os abriu novamente, o brilho havia sido substituído por uma urgência fria. — Saia daqui, Annabella. Agora — ele ordenou, a voz baixa e áspera. — Dylan, me diga o que está acontecendo! O que meu pai está procurando? O que o Luke... — Não me peça para te condenar com o que eu sei — ele a interrompeu, dando um passo para trás, fundindo-se às sombras das vigas queimadas. — Este lugar... o cheiro de sangue ainda não saiu desta terra. É perigoso demais para você. Se o seu pai te encontrar aqui comigo, ele não vai ver uma estudante de Direito. Ele vai ver um alvo. Vá!
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR