Enquanto Annabella fugia em direção ao seu carro, o Xerife Thomas caminhava por uma trilha fechada, a quilômetros dali. Ele não estava sozinho. Ao seu lado, movendo-se com uma agilidade impressionante para a sua idade, estava Jack Cooper.
Thomas desligou a lanterna. Ele confiava nos olhos de Jack mais do que em qualquer tecnologia.
— Está ficando pior, Jack — Thomas comentou, a voz baixa. — Os ataques ao gado, as sombras perto da faculdade... os Foster estão pressionando o conselho para eu declarar estado de emergência e fechar a reserva de vez.
Jack Cooper parou, tocando o tronco de um pinheiro centenário. Sua mão era calejada, as unhas grossas, e ele parecia ouvir algo que Thomas não conseguia.
— Eles querem a terra, Thomas. Sempre quiseram. O eclipse está chegando e a fome deles aumenta com a escuridão. — Jack olhou para o Xerife com um respeito genuíno. — Você é um bom homem, Jack. Mas proteger esta cidade significa entender que a lei dos homens não vale nada quando a lua ficar vermelha.
— Eu protejo as pessoas, Jack. — Thomas retrucou, colocando a mão no ombro do velho amigo.
— Então mantenha sua filha longe da mansão — Jack alertou, os olhos brilhando por um segundo na penumbra. — O gelo dos Foster é mais mortal que qualquer fera que eu já vi nestas matas.
Thomas e Jack Cooper caminhavam pelo limite da reserva, onde o asfalto encontra a terra batida. O Xerife guardou a lanterna, sentindo o peso do cansaço nos ombros.
— Você só fala por enigmas, Jack — Thomas riu baixo, balançando a cabeça. — Às vezes esqueço que você passou mais tempo ouvindo o vento do que rádio de polícia.
Jack Cooper parou na borda da estrada, seus olhos captando o brilho das luzes da cidade ao longe com um desdém silencioso. Thomas colocou a mão no ombro do velho amigo.
— Escuta, amanhã é domingo. Abigail vai fazer aquele assado. Apareça lá em casa. Vamos comer, beber algo que não seja água de riacho e esquecer os Foster por algumas horas.
Jack hesitou, a pele curtida pelo sol franzindo-se em dúvida.
— E... — Thomas continuou, com um brilho sugestivo no olhar — leve o seu neto, o Dylan. Ele tem a mesma idade da minha Annabella. Ela está se sentindo um pouco isolada desde que chegamos, e seria bom ela conhecer alguém que realmente conhece as raízes deste lugar.
O sol de domingo em Silver Falls era pálido, mas o cheiro de alecrim e carne assada que vinha da cozinha de Abigail trazia uma sensação de normalidade que Annabella não sentia há dias. Ela ajudava a arrumar a mesa, tentando ignorar o leve tremor nas mãos toda vez que pensava no que Dylan dissera nas ruínas.
A campainha tocou pontualmente às 13:00. Thomas abriu a porta com um sorriso genuíno, algo que a investigação da faculdade vinha roubando dele.
— Jack! Que bom que vieram. Entre, a casa é de vocês.
Annabella congelou com um prato de porcelana na mão. Jack Cooper entrou primeiro, parecendo uma árvore antiga transplantada para uma sala de estar; ele exalava o cheiro de fumo de corda e floresta. Logo atrás, vinha Dylan.
Ele não usava as roupas sujas da reserva. Estava com uma camisa de botões azul-escura e jeans limpos, mas nada conseguia esconder a intensidade dele. Dylan parecia... grande demais para as paredes da casa. Seus olhos âmbar percorreram a sala até encontrarem Annabella. O reconhecimento foi imediato, um choque elétrico que fez o pingente de quartzo sob a blusa dela esquentar instantaneamente.
— Annabella, este é meu grande amigo Jack Cooper — Thomas disse, com a mão no ombro do velho, transbordando uma satisfação rara. — E este é o neto dele, Dylan. Eles são a alma desta região, Bella.
Thomas olhou para o jovem com aprovação, sem notar a tensão estática que se formava entre os dois jovens. Dylan deu um passo à frente. Ele não tinha a polidez ensaiada de Luke; sua presença era bruta, honesta e magnética.
Um pequeno sorriso, quase imperceptível para os outros, surgiu nos lábios de Dylan. Era um reconhecimento do segredo que compartilhavam: a fuga nas ruínas, o aviso na floresta, o calor do amuleto.
— Oi, Dylan — Annabella respondeu, a voz saindo mais firme do que ela esperava, embora sentisse o rosto esquentar.
Jack Cooper, cujos olhos eram como fendas de sabedoria antiga, alternou o olhar entre a neta do Xerife e o próprio neto. Ele franziu a testa de forma interessada, captando a vibração no ambiente.
— Esperem um pouco — Jack interveio, com uma voz que lembrava o som de cascalho rolando. — Vocês dois já se conhecem?
Annabella não hesitou. Ela sabia que mentir para homens como seu pai e Jack seria inútil, e de certa forma, ela queria que aquele vínculo fosse oficializado.
— Sim — ela disse, sustentando o olhar de Dylan. — Nos encontramos na estrada e... ele me ajudou com algumas coisas da faculdade. Dylan conhece Silver Falls melhor do que qualquer mapa que eu tenha estudado.
O almoço seguiu com Thomas e Jack relembrando histórias de patrulhas antigas, mas a conversa entre Annabella e Dylan acontecia nos silêncios e nas trocas de olhares.
— Então você está estudando os registros de terras da cidade, Annabella? — Jack perguntou, enquanto Abigail servia o assado. — Cuidado com o que lê. Os vitoriosos escrevem os livros, mas a terra guarda as cicatrizes.
— Eu comecei a perceber isso, Sr. Cooper — Annabella respondeu, sentindo o olhar de Dylan queimar sobre ela. — Algumas histórias parecem ter sido apagadas propositalmente.
— Como o incêndio da velha propriedade? — Dylan disparou a pergunta, a voz baixa e direta.
O silêncio caiu sobre a mesa. Thomas parou de rir, e Abigail hesitou com a travessa de batatas. O Xerife olhou de Dylan para Annabella, sentindo que a "ajuda" que o rapaz dera à sua filha envolvia tópicos muito mais profundos do que apenas direções de estrada.
— Esse é um assunto enterrado, rapaz — Thomas disse, com um tom de advertência profissional, mas não hostil. — Melhor focarmos no futuro.
— O futuro só acontece quando o passado é pago, Xerife — Jack Cooper murmurou, levantando sua taça de vinho em um brinde sombrio que ninguém ousou contestar.
O contraste entre o frio gélido de Luke Foster e o calor febril de Dylan começa a ganhar uma explicação que a lógica do Direito não consegue mais ignorar. Annabella está unindo os pontos, e o que ela encontra no mundo digital confirma suas suspeitas mais instintivas.
Após a porta se fechar e o som do motor da caminhonete velha de Jack desaparecer na estrada, o silêncio da casa pareceu pesado. Annabella subiu as escadas, sentindo ainda a marca do calor de Dylan onde ele a tocara brevemente ao se despedir.