Ela se jogou na cama e abriu o netbook, a luz da tela iluminando seu rosto ansioso na penumbra do quarto. Seus dedos voaram pelo teclado. Ela não pesquisou sobre leis ou registros de terras desta vez.
Busca: “Temperatura corporal humana acima de 40°C constante causas”
Os resultados falavam de febre alta, insolação ou sepse. Mas Dylan não parecia doente; ele parecia transbordar vitalidade. Ele era forte, ágil e seus olhos tinham um brilho que nenhuma infecção explicaria.
Annabella mudou a estratégia. Ela lembrou do que Luke dissera no corredor da mansão — o insulto que agora parecia uma pista literal.
Busca: “Fisiologia canina vs humana temperatura”
Ela clicou em um artigo de biologia comparada e sentiu um calafrio percorrer sua espinha ao ler as linhas sublinhadas:
“Diferente dos humanos, cuja temperatura média é de 36,5°C, os lobos mantêm uma temperatura basal significativamente mais alta, variando entre 38°C e 39,5°C, podendo subir drasticamente durante períodos de atividade intensa ou excitação...”
Annabella encostou as costas na cadeira, o coração disparado. Ela lembrou do momento no porão, quando o calor de Dylan parecia uma fornalha, e de como o pingente de quartzo — uma pedra condutora — reagia à presença dele.
— Um lobo... — ela sussurrou para o quarto vazio.
Não era apenas uma metáfora de Luke para chamar Dylan de selvagem. Era uma descrição biológica. Se Dylan era o "fogo" que os Foster tentaram apagar, e os Foster eram o "gelo" que nunca derrete, a temperatura corporal dele não era um detalhe; era a prova de que ele não pertencia totalmente ao mundo dos homens.
A Faculdade de Silver Falls parecia mais cinzenta do que o normal. Os corredores de mármore ecoavam os passos dos alunos, mas para Annabella, tudo parecia um cenário de teatro. Ela mantinha a mão direita dentro do bolso do casaco, ainda sentindo o "fantasma" do calor de Dylan de domingo.
Annabella avistou Luke perto da entrada da biblioteca. Ele estava cercado por dois colegas, discutindo um caso de jurisprudência com uma calma que antes ela achava sofisticada, mas que agora parecia... inumana. Ele vestia um suéter de lã cinza que deveria mantê-lo aquecido, mas ele não parecia trocar calor com o ambiente.
— Luke? — ela chamou, aproximando-se.
Ele se virou imediatamente, o sorriso perfeito surgindo nos lábios, mas os olhos permanecendo atentos, como se estivesse farejando o ar.
— Annabella. Eu ia justamente te procurar. Como foi o seu domingo? Espero que tenha descansado do nosso... jantar intenso.
— Foi tranquilo. — Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele. — Na verdade, eu queria te devolver aquele livro de Direito Civil, mas acho que esqueci no meu armário. Você se importa de me ajudar a procurar?
Luke arqueou uma sobrancelha, notando a proximidade incomum.
— Claro.
Enquanto caminhavam pelo corredor menos movimentado, Annabella fingiu tropeçar levemente em um desnível do tapete. Instantaneamente, ela agarrou o braço de Luke para se equilibrar, deixando sua mão deslizar propositalmente para o pulso dele, onde a pele era mais fina.
Onde deveria haver o pulsar da vida, havia apenas um silêncio absoluto. A pele de Luke não era apenas fria como a de alguém que saiu do ar-condicionado; era como tocar o mármore de uma estátua deixada no sereno. Não havia batimento. Não havia calor. Não havia o fluxo de sangue que define um ser vivo.
Ela manteve a mão ali por dois segundos a mais do que o necessário. O pulso de Luke era um deserto gélido.
— Você está bem, Annabella? — Luke perguntou, a voz suave, mas com um tom de alerta. Ele não retirou o braço, mas seus olhos baixaram para a mão dela, brilhando com uma inteligência antiga e perigosa. — Você parece estar procurando por algo.
— Eu... eu só me desequilibrei. Obrigada — ela disse, soltando-o rapidamente. Suas pontas dos dedos pareciam dormentes pelo contato, como se ele tivesse sugado o calor dela.
— Sabe — Luke comentou, voltando a caminhar com sua elegância sobrenatural —, algumas coisas nesta cidade são feitas para serem frias, Annabella. O gelo preserva. O calor... o calor apenas consome e destrói. Espero que você se lembre disso quando o sol se puser.
A aula de Direito Civil nunca pareceu tão irrelevante. Enquanto o professor discorria sobre "Prazos e Prescrições", a mente de Annabella estava presa em uma escala termométrica impossível. De um lado, o calor febril de Dylan, que parecia uma fornalha de vida; do outro, o frio absoluto de Luke, que lembrava a quietude de um necrotério.
Ela estava sentada no meio do anfiteatro, mas sentia-se em um vácuo.
Annabella sentiu um calafrio na nuca. Ela não precisou se virar para saber quem a observava. Três fileiras atrás, no canto mais sombrio da sala, Luke Foster estava reclinado em sua cadeira. Ele não tomava notas. Ele não olhava para o quadro. Seu olhar estava fixo nas costas de Annabella, com uma intensidade que parecia atravessar o tecido de seu casaco.
Luke já sabia. O "tropeço" no corredor fora óbvio demais para alguém com sentidos aguçados por séculos. Ele vira o brilho de descoberta nos olhos dela e o modo como ela retirou a mão, como se tivesse se queimado no gelo.
Pelas janelas altas da faculdade, as nuvens carregadas de Silver Falls começavam a escurecer o dia, e o reflexo de Luke no vidro da janela parecia quase transparente. Ele era uma anomalia elegante, um predador que parara de fingir que estava interessado na aula para focar em sua presa mais fascinante.
Ela percebeu que era o único coração batendo em um ritmo humano naquele triângulo. O pingente de Dylan, agora escondido sob a blusa, pulsava em sincronia com o dela, como se estivesse tentando protegê-la da temperatura ambiente da sala, que parecia cair toda vez que Luke se concentrava nela.
Ele não a deixaria sair daquela aula sem confrontá-la. O segredo dele não era mais um segredo, e para os Foster, o conhecimento era uma arma que eles preferiam manter sob controle tota.
O sinal tocou, anunciando o fim da aula. O barulho de cadeiras sendo arrastadas e alunos conversando pareceu abafado para Annabella.
Ela guardou o netbook apressadamente, querendo sair dali antes que Luke a alcançasse. Mas, ao chegar no corredor, a voz dele a parou — não foi um grito, foi um sussurro que pareceu ressoar dentro de sua mente:
— A curiosidade é uma característica perigosa para uma futura advogada, Annabella. Às vezes, encontrar a prova que você procura é o início de uma sentença da qual não se pode recorrer.
Ela parou e se virou. Luke estava encostado no batente da porta, os braços cruzados, observando os alunos passarem por ele como se fossem fantasmas.
— Eu não estou procurando provas, Luke. Eu estou procurando a verdade — ela rebateu, sentindo o calor do colar de Dylan subir pelo seu pescoço.