— A verdade é um luxo que os seres humanos raramente suportam — Luke deu um passo à frente, e o ar ao redor dele pareceu congelar. — Você tocou o gelo, Bella. Agora você sabe que não há sangue correndo aqui. A pergunta é: o que você vai fazer com esse frio?
Luke se aproximou mais um passo, e o ar ao redor de Annabella pareceu perder alguns graus instantaneamente. O contraste entre o hálito gélido dele e o calor que emanava do pingente de Dylan em seu peito era quase doloroso.
— No fim da tarde, eu passo na sua casa — Luke disse, a voz baixa, quase uma vibração que apenas ela captava. — Precisamos conversar em um lugar onde o ruído desta cidade e as interferências externas não nos alcancem. Um lugar só nosso, Annabella.
Annabella sentiu um calafrio que não era apenas térmico. Ela sabia que aceitar era entrar voluntariamente na toca do leão, mas a sede pela verdade era maior que o medo.
— O que eu vou dizer ao meu pai? — ela perguntou, tentando manter a voz firme. — Ele é o Xerife, Luke. Ele percebe quando eu escondo algo.
Luke deu um sorriso de canto, gélido e sem humor.
— Invente algo. Diga que vai estudar na biblioteca ou encontrar aquela sua amiga, a Scarlett. Os humanos acreditam no que querem acreditar para manter a paz de espírito.
Ele inclinou a cabeça, os olhos escurecendo como o céu antes de uma nevasca.
— Não me espere na porta. Vá andando pela estrada que leva à saída da cidade. Eu te pego no caminho. Não queremos que o seu pai... ou qualquer outro "amigo" da floresta... veja você entrando no meu carro.
O pôr do sol em Silver Falls não trazia tons de laranja, mas um cinza arroxeado que parecia engolir as casas. Annabella pegou sua bolsa, sentindo o peso do netbook e do segredo que carregava.
— Vou até a casa da Scarlett terminar um trabalho de Introdução ao Direito, pai — Annabella disse, evitando o olhar direto de Thomas, que limpava sua arma de serviço na mesa da cozinha.
— Cuidado na estrada, Bella. A neblina está baixando rápido hoje — Thomas respondeu, sem levantar os olhos, mas com um tom de proteção que fez o estômago dela revirar pela mentira.
la saiu de casa e começou a caminhar pelo acostamento da estrada deserta. O cascalho estalava sob suas botas. A cada passo, o calor do pingente de Dylan parecia lutar contra o vento frio que soprava da montanha. Era como se o colar estivesse tentando avisá-la: não vá para o gelo.
De repente, o som de um motor potente e silencioso surgiu atrás dela. Um carro preto, brilhante e sem luzes acesas, deslizou até parar ao seu lado. O vidro fumê desceu lentamente, revelando o perfil esculpido de Luke Foster.
— Entre, Annabella — ele disse, sem olhar para ela. — O tempo da inocência acabou. Agora, vamos falar sobre o que você realmente descobriu.
O ar no mirante de Silver Falls era cortante, uma altitude que parecia isolar a cidade lá embaixo em um globo de neve e neblina. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo estalo do metal do motor do carro de Luke esfriando.
O lugar era uma plataforma de pedra antiga, cercada por grades de ferro enferrujadas que davam para um abismo de pinheiros negros. Luke estacionou o carro e desceu com uma suavidade que não deslocava sequer uma pedra do cascalho.
Annabella desceu do carro, sentindo o frio da montanha atravessar seu casaco instantaneamente. Antes que ela pudesse dar dois passos, Luke já estava lá. Ele se moveu com aquela rapidez que a lógica humana não conseguia processar, parando a milímetros dela.
Ele era alto, uma presença de mármore que parecia absorver toda a luz ao redor. Luke inclinou o rosto, fechando os olhos por um segundo. Ele não estava apenas olhando para ela; ele estava sentindo o calor que emanava de sua pele, o ritmo acelerado de seu coração e, principalmente, a fumaça branca de sua respiração chocando-se contra o peito gélido dele.
— Sua respiração... — Luke sussurrou, a voz soando como o vento passando por fendas de gelo. — Ela é tão quente. Tão cheia de vida. É um contraste quase ofensivo com este lugar, Annabella.
Ele deu mais um passo, forçando-a a recuar até que suas costas tocassem a lateral fria do carro. Ele baixou o rosto até que seus lábios estivessem na altura do ouvido dela, onde ele podia ouvir o fluxo sanguíneo em sua jugular.
— Você está com medo de mim, Annabella? — A pergunta foi carregada de uma curiosidade predatória, como se ele estivesse testando a resistência de um vidro fino.
Annabella sustentou o olhar dele. Ela podia sentir o frio que emanava de Luke tentando apagar o calor que o pingente de Dylan insistia em manter em seu peito. Ela respirou fundo, deixando a névoa de seus pulmões envolver o rosto escultural dele.
— Não — ela respondeu, a voz firme, embora suas mãos estivessem geladas dentro dos bolsos. — Medo é para quem não entende o que está enfrentando. Eu passei os últimos dias tentando entender. Agora eu sei que você não é o que finge ser naquelas aulas de Direito.
Luke soltou um riso baixo, um som sem alegria que não aqueceu o ambiente.
— Entender? — Ele tocou uma mecha do cabelo dela, e o contato dos dedos dele pareceu um cubo de gelo tocando sua pele. — Você tocou o meu pulso hoje, Bella. Você sentiu o vazio. A verdade é que este mundo pertence aos que perduram, não aos que queimam rápido e desaparecem como o seu amigo da floresta.
Ele se afastou apenas o suficiente para que ela pudesse respirar, mas seus olhos continuavam fixos nos dela, escuros como o fundo de um poço.
— O Dylan te deu aquele colar porque ele tem medo do que eu posso fazer. Ele acha que um pedaço de rocha aquecida pode manter o inverno longe. Mas o inverno sempre chega, Annabella. E em Silver Falls, o inverno tem o meu sobrenome.
O ar no mirante pareceu congelar ainda mais com a admissão de Luke. A confissão não veio com vergonha, mas com a frieza de um juiz lendo uma sentença. Ele se afastou um centímetro, o suficiente para que a névoa da respiração de Annabella não tocasse mais seu rosto, criando um vácuo gélido entre eles.
Luke olhou para as luzes da cidade lá embaixo, que brilhavam como brasas moribundas na escuridão da floresta.
— Você se alimenta deles, Luke? — A pergunta de Annabella cortou o silêncio, direta e sem o tremor que ele esperava. — Das pessoas lá embaixo?
Luke soltou um suspiro que não carregava calor.
— Eu? Não. Eu aprendi a disciplina do sangue frio, Annabella. Os animais da reserva oferecem o suficiente para manter a mente lúcida e a sede sob controle. Eu não sou um monstro desgovernado. — Ele se virou para ela, os olhos escuros como obsidiana. — Mas o controle é um privilégio de poucos. A maioria da minha linhagem prefere o caminho mais curto. O caminho mais... saboroso.
— Quem? — Annabella deu um passo à frente, a curiosidade superando o instinto de preservação.