Luke deu um sorriso de canto, mencionando os nomes com um desdém quase aristocrático.
— Aqueles que você vê comigo todos os dias. Liam, Mason, Nathan... Ella, Lili e Zoe. Aqueles que dividem a mesa comigo na faculdade. Para eles, Silver Falls não é uma cidade; é um banquete de bufê livre que os Foster protegem há gerações. Eles não têm a minha paciência. Se dependesse deles, a cidade estaria seca antes do próximo solstício.
Annabella sentiu um nó no estômago. Ela se lembrou de ter visto esse grupo no pátio da faculdade, sempre rindo de piadas internas, sempre parecendo jovens demais e bonitos demais para serem reais.
— Eles estão em todos os lugares — Annabella murmurou, conectando as faces perfeitas aos predadores que Luke descrevia. — E o meu pai? Ele é o Xerife. Como ele não vê o que está acontecendo?
— O seu pai vê o que ele consegue processar, Annabella. — Luke aproximou-se novamente, a voz baixando para um tom confidencial. — Quando um corpo aparece sem sangue na floresta, ele chama de "ataque de animal grande". Ele prefere acreditar em um urso faminto que em Nathan ou Zoe jantando sob o luar. A mente humana tem filtros de segurança para não enlouquecer.
Ele estendeu a mão, mas não a tocou, apenas sentiu o calor que emanava do pescoço dela.
— É por isso que eu te trouxe aqui. Porque você desativou seus filtros. Você tocou o gelo e não desviou o olhar. Mas saiba de uma coisa: se os outros souberem que você sabe... nem o meu controle será suficiente para garantir que você chegue em casa para o jantar.
O som cortou a noite como uma lâmina de prata, subindo as encostas do mirante com uma força que fez as grades de ferro vibrarem. Não era um som de animal comum; era um lamento carregado de autoridade, um aviso territorial que fez o ar, já frio, parecer congelar de vez.
Annabella sentiu o impacto do som no peito, o pingente de quartzo vibrando em resposta quase imediata. Ela olhou para a escuridão da reserva lá embaixo, onde as copas dos pinheiros se agitavam como um mar n***o.
— Isso... — ela começou, a voz falhando por um segundo. — Isso é o uivo de um lobo?
Luke não se moveu, mas sua expressão suavizou-se em um desprezo gélido. Ele olhou para a floresta como um rei olha para um camponês barulhento.
— Sim — Luke respondeu, a voz arrastada e monótona. — É a voz da "fera" que você tanto defende. Ele está lá embaixo, circulando o limite da propriedade como um cão acorrentado.
Annabella sentiu um aperto no coração. Ela sabia quem era.
— É o Dylan — ela afirmou, mais para si mesma do que para Luke. — Ele sabe que eu estou aqui com você. Ele está me avisando... ou está avisando você.
Luke deu um passo para a beira do precipício, os olhos fixos em um ponto invisível na escuridão.
— Ele pode uivar o quanto quiser, Annabella. Ele sabe que não pode passar do limite dele. Existe um tratado, uma linha de sangue que os Cooper não ousam cruzar sem iniciar uma guerra que eles não podem vencer. Ele está preso à terra, enquanto nós... nós somos os donos da noite.
O silêncio que se seguiu ao uivo de Dylan era tão denso que Annabella podia ouvir o próprio sangue pulsando nas têmporas. A tensão entre o mirante e a floresta era uma corda esticada ao máximo, prestes a arrebentar.
Luke caminhou até o carro com sua elegância predatória e abriu a porta do passageiro. O interior de couro preto parecia um casulo de luxo e frio.
— A noite está apenas começando, Annabella. Vamos descer e comer algo digno de uma convidada dos Foster — ele disse, o tom de voz suave, mas com um brilho de desafio nos olhos. — Deixe o barulho da floresta para trás.
Ela deu um passo em direção ao carro, a mão hesitando na maçaneta. Foi quando um vulto se materializou na sombra das árvores, no limite exato onde o asfalto do mirante encontrava a terra batida da trilha.
Era Dylan. Ele não estava transformado, mas sua postura era selvagem. Ele estava ofegante, o calor saindo de seus pulmões em nuvens densas de vapor, e seus olhos âmbar brilhavam com uma advertência feroz.
— Não entre nesse carro, Annabella — a voz de Dylan ecoou, rouca e carregada de uma urgência que fez o pingente no peito dela queimar violentamente. — Eu te levo para casa. Agora.
Luke soltou uma risada curta, apoiando o braço no teto do carro.
— Veja só... o cão de guarda resolveu latir mais perto — Luke provocou, sem desviar o olhar de Annabella. — Ele não pode passar daquela linha, Bella. Ele está preso aos instintos dele. Você quer voltar para casa no banco de couro de um Foster ou correndo entre os espinhos com um Cooper?
Annabella olhou de um para o outro. No centro desse cabo de guerra, ela sentia as duas temperaturas lutando dentro de si.
Annabella olhou para Dylan, vendo a dor e a preocupação no rosto dele, e depois para Luke, que mantinha a porta aberta como uma armadilha dourada.
O ar no mirante pareceu estalar com a voltagem daquela decisão. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do motor do carro de Luke, um ronco baixo e constante que lembrava o rosnado de um animal de metal.
Annabella respirou fundo, sentindo o ar gelado queimar seus pulmões. Ela olhou para Dylan, cujos olhos âmbar pareciam feridos pela escolha dela. A luz da lua batia no rosto dele, destacando a tensão em cada músculo de seu corpo, como se ele estivesse lutando contra uma corrente invisível que o impedia de avançar.
— Eu sei me cuidar, Dylan — Annabella disse, a voz ecoando firme no despenhadeiro. — Depois eu falo com você. Mas agora, eu preciso de respostas que você se recusa a me dar.
Ela se virou e caminhou em direção ao carro. Luke assistia a tudo com uma satisfação predatória, um brilho de vitória cruzando seu rosto pálido. Ele deu um passo para trás, abrindo ainda mais a porta para ela, e um sorriso de canto, lento e vitorioso, surgiu em seus lábios.
— Uma escolha sábia, Annabella — Luke murmurou, o tom de voz carregado de um triunfo silencioso.
Annabella parou diante dele antes de entrar, encarando-o nos olhos com uma seriedade que fez o sorriso dele vacilar por um milímetro.
— Não faça gracinhas, Luke — ela advertiu, a voz baixa e perigosa. — Eu não sou um troféu nessa guerra de vocês. Se eu estou entrando neste carro, é porque eu decidi, não porque você me convenceu.
Ela entrou no banco de couro frio, e o som da porta se fechando selou o vácuo entre ela e a floresta.
Luke contornou o carro com sua agilidade inumana e assumiu o volante. Ele engatou a marcha e acelerou, deixando para trás a figura solitária de Dylan no limite da estrada.
Pelo retrovisor, Annabella viu Dylan desaparecer na neblina, mas ela ainda podia sentir o calor do pingente de quartzo pulsando violentamente contra seu peito, como se o objeto estivesse gritando um aviso.