“HOME, a organização criada em 8 de novembro de 2096, iniciada pouco tempo depois do movimento ELOAH, trouxe a proposta de garantir a paz e a vitória contra a violência no mundo, além de suas ramificações para aprimorar a saúde e educação.
A organização conta com um grande número de médicos e cientistas parceiros, que constantemente estudam em conjunto para entender diversos problemas sanitários. E com a vinda do movimento ELOAH e suas graves consequências no decorrer dos anos, os cientistas da HOME decidiram estudar o quadro genético de pessoas que carregam genes para a condição vitiligo, e também suas variações. O por que disso diz respeito em como apenas pessoas que carregam a doença fizeram parte do movimento ELOAH.
O resultado dos estudos mostrou a presença de um gene recessivo, batizado de ELO-g, presente unicamente em pessoas com vitiligo, não sendo ele responsável pela manifestação da doença. Esse gene foi extraído e incluído gradualmente nos materiais genéticos de camundongos saudáveis e treinados, gerando uma reação extremamente contrária a comandos e situações óbvias, além do maior aumento da agressividade, tal comportamento é comparado a ‘teimosia’ pelos cientistas presentes.
E às 11:32, de hoje, foi lançado um artigo complexo descrevendo esse estudo, sendo utilizado como explicação para a oposição de pessoas com vitiligo a atual monarquia mundial, liderada há 40 anos pelo rei francês, Lucien Febvre. O parlamento, após saber do artigo, estabeleceu um decreto em nome do rei, que entrará em vigor com extrema fiscalização em duas semanas:
‘(…), assim, tendo em mente o risco que pessoas portadoras do gene ELO-g podem causar, é decretado a realização de testes clínicos em todos com os cidadãos que possuem vitiligo, para a comprovação da portabilidade do gene ELO-g, e aqueles que forem portadores do gene deverão ser mandados imediatamente para os centros penitenciários de seus países. Os portadores do gene ELO-g deverão permanecer detidos nos centros penitenciários por tempo indeterminado, nesse período, a HOME estudará uma possível solução para a eliminação do gene. Dessa forma, a monarquia atual poderá exercer suas funções benéficas ao povo sem impedimentos, avançando o estado das nações e não retrocedendo. (…)’
O Centro de Saúde do HOME (HHC), também já se pronunciou em cima do decreto, garantindo; ‘os testes obrigatórios começarão em duas semanas, e até lá espera-se que os portadores de vitiligo se testem e se entreguem ao governo voluntariamente, evitando conflitos”.
— Giu? — a voz da minha mãe me tirou do transe. — Está tudo bem? — ela se aproximou do meu lado direito, e se inclinou para ver meu rosto melhor.
— Estou bem, só estava pensando. — tentei abrandar minha expressão.
— Eu te chamei várias vezes… — disse ela, abrindo a gaveta do armário para pegar minha escova de cabelo. — Quão profundo foram seus pensamentos, que nem mesmo me ouviu? — a sensação da escova passando nos meus fios foi tão acolhedora que eu poderia dormir ali mesmo.
— Aquele dia. — falei baixo, de olhos fechados. — Estava me lembrando daquele dia. — senti a escova parar, mas segundos depois ela voltou com seus movimentos.
— Procure não pensar nisso, minha filha… — minha mãe suspirou. — Sei que o momento que vivemos há alguns anos foi de pura miséria, e só piora… — ela colocou a escova na bancada e me abraçou por trás. — Mas vamos tentar tornar essa luta mais suportável e viver nossos dias unidos, o tempo passa, e um dia a vida que há em nós se acabará. Se não encontrarmos um propósito enquanto ainda estamos vivos, mesmo que seja difícil, não será na cova que vamos.
Assimilei as palavras da minha mãe, as guardando em meu coração. Me agarrei a elas fortemente, e as tornei um dos pontos que interligam a minha esperança.
— Mãe. — chamei, e ela respondeu com um murmúrio. — Será que algum dia alguém virá nos salvar dessa vida? — minha pergunta foi respondida com o silêncio. — Às vezes eu realmente desejo que, um dia, alguém venha e conserte toda essa bagunça.
— Essa bagunça não tem conserto. — minha mãe disse sobre meus ombros. — E o que não tem conserto precisa ser destruído e refeito. Um vaso defeituoso não pode ser remendado, ele deve voltar ao barro novamente, e então ser moldado da maneira correta.
— Quem será o oleiro? — sorri. — Para restituir a nossa paz? — minha mãe riu e se afastou de mim.
— Humano não será. Não tem como sair paz de uma raça tão ordinária como essa. — ela disse, retirando-se do banheiro. — Enquanto o oleiro não vem, precisamos trabalhar! A confeitaria te espera! — exclamou pelo corredor. Queria eu, que somente a confeitaria estivesse me esperando do lado de fora.