Pré-visualização gratuita A NOVA LEI - Parte I
18 de março de 2120.
Cagliari, capital da Sardenha - Itália.
05:00 da manhã.
Senti uma pressão ser exercida em meu ombro, e logo reconheci a mão da minha mãe sobre mim. Ela esperou até que eu abrisse os olhos e me virasse em sua direção.
— Bom dia. — disse. — Está na hora.
Assenti enquanto coçava os olhos, estavam secos como de costume. Me sentei na cama e esperei, minha mãe voltou-se para mim com um copo d’água em uma mão e uma cápsula gelatinosa na outra.
— Mais um dia, não é? — perguntei ao pegar a cápsula e colocá-la na boca.
— Um novo dia. — Pude notar minha mãe sorrir suavemente, mesmo em meio ao escuro do quarto.
A grande cápsula de antocianina desceu pela minha garganta dolorosamente, e mesmo tomando-a por sete anos consecutivos, ela continua sendo uma das coisas mais difíceis de engolir nos meus dias. Levantei e andei em direção ao banheiro, ao acender a luz chequei minha pele no espelho, esperando a cápsula fazer efeito. Em cerca de quinze segundos, a mudança começou. Tenho um distúrbio crônico chamado Vitiligo, onde minha pele em sua grande maioria é morena, mas com várias manchas brancas, de diversos tamanhos. A primeira parte do meu corpo onde a transformação começa é o rosto. É como se a parte morena da minha pele se espalhasse, cobrindo por completo as manchas brancas, e rapidamente todo o meu corpo adquire uma cor só.
Até hoje, a cápsula nunca falhou, o que realmente me impressionava. Me pergunto toda manhã se no dia seguinte ela continuará a funcionar, ou se o efeito durará até o fim do dia… Talvez seja meu preparo psicológico para o caos que possa ocorrer caso algum dia meu corpo não responda mais a antocianina. Minha família é a única que sabe sobre as cápsulas, até por que confiar em alguém para compartilhar a informação seria arriscar todas as nossas vidas. O por que de eu mudar a estética da cor natural da minha pele tem uma explicação longa.
O preconceito, em suas variadas formas, realmente foi por muitas décadas uma causa social em que grande parte da sociedade lutava contra, sendo considerado crime em quase todos os países do mundo. Mas, por algum motivo obscuro que o governo encontrou, o preconceito voltou a ser algo coerente, e o pior… hoje é lei. Não mais uma lei que projete e fornece igualdade a todos, mas uma lei que separa nações.
Há quinze anos, em 2105, minha família e eu estávamos morando na Suíça por causa da oferta de empregos, onde meu pai havia conseguido uma ótima vaga. Moramos lá por oito anos, e no ano em que eu estava me formando no ensino médio, mais especificamente em 11 de junho de 2113, um anúncio ecoou em todos os jornais, pela internet, redes sociais, e também na minha escola. O texto que vi logo ao abrir a notícia no celular foi curto e claro…
“HOME afirma, através de estudos, que pessoas com vitiligo tem em seu DNA um gene causador de rebelião;”
Apenas de lembrar daquele dia sinto em meu peito um pesado baque. Gostaria de voltar no tempo e não continuar a ler a notícia, por que a cada linha que meus olhos passavam por cima, maior era o absurdo.