Pré-visualização gratuita Aniversário de Carol
“Rosas são suas preferidas”, era o que dizia o manual da princesa. Uma menina cujo rosto nunca foi revelado, mas todos a conheciam, pelo menos era o que todos achavam.
Eu poderia começar com “Era uma vez” como todas as histórias que envolvem a realeza começam, mas a minha é um pouco diferente, na verdade não exatamente; claro que tem uma realeza envolvida mas não vivo nela, pelo menos não diretamente; é hilário estar no século XXI e conviver frente a frente com reis e rainhas. Minha rotina é um pouco diferente comparado com a rotina de uma garota comum de 17 anos, isso graças ao meu pai que é Coronel da guarda real, claro que não posso entrar no castelo, mas só de chegar pertinho já me deixa com os olhos brilhando.
O sonho do meu pai era ter um filho homem onde pudesse acompanhar ele em sua carreira militar, mas para a felicidade dele veio essa princesa aqui; diferente dele não pretendo seguir carreira militar, o meu maior sonho é viajar o mudo descobrindo histórias diferentes, ainda vou me tornar uma grande arqueóloga de sucesso.
Com cabelos longos e ondulados da cor de mel e a bochecha um pouco rosada dando vida para aquele rosto pálido e sem graça, era a primeira figura que sempre via no espelho ao acordar. Eu poderia dizer que meu estilo é um pouco eclético, vivo mudando a minha aparência, mas ultimamente só me vejo com roupas largas da seção masculina e alguns acessórios como corrente de prata e algumas pulseiras coloridas. Semana passada acabei colocando um piercing na sobrancelha, achei que combinou com meu estilo, já meu pai não achou a mesma coisa. Nunca foi do feitio dele essas mudanças radicais, ainda mais quando se trata da aparência. Quando fiz minha primeira tatuagem ele não gostou muito, mas não brigou ou falou algo. Meu pai às vezes pode parecer meio durão, mas ele é um homem muito compreensivo e entende meus gostos.
Fiquei sabendo que vai haver um baile à fantasia no palácio neste fim de semana, mas é um baile privado como quase todos são. Desde que a rainha morreu em um atentado à coroa, o rei toma todos os cuidados necessários para proteger a princesa. A real identidade da princesa nunca foi revelada, o rei fala que assim que ela completar 18 anos irá fazer uma festa revelando sua identidade verdadeira, mas até lá ela se esconde através dos muros do castelo. Imagina ser uma princesa é não poder se apresentar como tal pois a qualquer momento alguém pode te m***r, deve ser muito r**m. Voltando ao baile, um dos meus sonhos era frequentar um baile desses. Deve ser tão mágico ver as pessoas dançando no saguão do palácio com roupas de gala e música ao vivo, parece até um conto de fadas falando assim. Logo falaremos mais sobre a princesa, até porque não sei muita coisa sobre.
Na manhã pude ouvir aquele barulho irritante do despertador que parecia martelar fundo na minha cabeça.
“Triiiiiiim”...
Apesar de ouvir aquele som todos os dias, sempre no mesmo horário - às 05h30min da madrugada-, por alguma razão, neste dia em especial o “Triiiiim” do despertador me incomodou muito. Era como se um aparelho de som estivesse ligado no volume máximo. Hoje é um daqueles dias que eu só queria ficar na cama e não falar com ninguém, até pensei em fazer isso se não fosse meu pai batendo na porta e falando que se eu não levantasse iria me atrasar para o colégio.
— Bom dia princesa do papai, vamos levantar que o café já está na mesa e a senhorita tem que ir para aula.
Disse meu pai com um sorriso de lado a lado no rosto.
— Sério pai? Às 05h30min da manhã você está com esse ânimo todo?
— Vamos logo, se eu voltar aqui e a senhorita ainda estiver deitada vou ter que apelar para a gaita e aposto que sua mãe não vai gostar nada dessa ideia.
A famosa gaita do papai. Quando ele era mais novo, o sonho dele era aprender a tocar gaita, mas nunca conseguiu, por mais que ele praticasse quase todos os dias ele não conseguia dominar o instrumento. Era melhor eu levantar logo antes que ele venha com aquele barulho que consegue ser mais irritante que meu despertador.
Com todo aquele "ânimo" que estava, acabei colocando a primeira roupa que achei e desci as escadas para tomar o café da manhã. Lá estavam os dois, sentado na mesa conversando como se estivessem no primeiro encontro, é lindo ver que mesmo depois de anos meu pai e minha mãe ainda se olham como da primeira vez.
— Bom dia! Parece que alguém acordou com um humor não muito bom.
Disse minha mãe com um olhar preocupado.
— Hoje eu só queria ficar deitada na cama. Se meu pai não tivesse me acordado teria colocado esse plano em ação.
— Mas infelizmente o mundo não gira ao seu redor garotinha. Venha, fiz algumas panquecas e coloque um sorriso nesse rosto por favor.
Irei contar um pouco a histórias desses pombinhos. Meu pai se chama Ettore Rossi, um pouco diferente, mas a explicação é que ele veio de uma família italiana. Os pais dele deram esse nome dizendo que ele seria um guardião; ele conta que quando veio para o Brasil, ele ainda estava na barriga de sua mãe, então ele nunca chegou a conhecer a Itália. Meu pai tinha 19 anos quando conheceu Laura, filha do Tenente do exército brasileiro ou melhor, minha mãe. E assim eu nasci, Elisa Rossi.
— Antes de ir para base irei passar no mercado perto do seu colégio, quer uma carona filha?
— Não, obrigada, depois da aula vou na casa da Carol. É aniversário dela e a mãe dela quer fazer um almoço especial. Então vou de bicicleta mesmo.
— Tá bom.
Carol é minha melhor amiga, nós nos conhecemos desde pequenas. O pai dela trabalha junto com meu pai, mas ele está prestes a se aposentar ano que vem. Carol é um anjo em minha vida, ela me ajudou a não me afundar na depressão em uma certa época da minha vida, mas para frente contarei sobre. Acabei meu café às pressas pois Daniel havia acabado de me mandar uma mensagem avisando que estava na porta para me acompanhar até o colégio.
Daniel é um dos amigos mais próximos que tenho, posso dizer que a personalidade dele é meio assustadora às vezes, mas tirando isso ele é um bom rapaz.
Quando desci as escadas que davam acesso à rua não pude deixar de reparar naqueles cabelos cacheados pretos que refletiam a luz de longe.
Tá, o Daniel é gatinho.
— Eae gatinha, já te falaram que você está linda hoje?
Disse ele com um sorriso de canto.
— Bom dia, olha se você não tivesse me falado eu não teria notado.
— A sua ironia me destrói. Só tentei ser gentil e arrancar um sorriso do seu rosto porque pelo jeito hoje você está estressada!
Exclamou Daniel com um ar meio suspeito.
— É, não acordei muito bem…
— Quer me contar o que houve?
— Não aconteceu nada, só estou cansada mesmo.
— Olha branquela, você não consegue me enganar mais. Vai desembucha.
Disse ele parando a bicicleta em minha frente e me olhando com aquele olhar todo sedutor.
— Você não acha que estamos um pouco atrasados pra joguinhos não??
— Eu só quero saber o que aconteceu ontem que você acordou tão estressada hoje. Espera!! Ontem você saiu com a Vih, né? Foi isso?
— Saí… Já falei que não é nada! Vamos logo antes que eu me estresse com você.
— Acho que seu próximo apelido vai ser "estressadinha", porque pensa em uma menina estressada viu.
Disse ele com uma cara de deboche.
— Você me ama só pode!!
— Amo, já falei que enquanto eu puder vou te atormentar com meus cuidados e Carol aprova essa ideia. Falando em Carol hoje é aniversário dela, você vai na casa dela depois da aula?
— Vou sim, vamos fazer um almoço lá que por sinal o "princeso" também está convidado viu.
— Você acha que eu perderia a chance de estar com minha morena?
Perguntou Daniel com um sorriso todo apaixonado.
— Vocês se merecem!!
Montei na bicicleta e comecei a pedalar rumo ao colégio.
— Vai me dizer que você não gostaria de ver seus dois melhores amigos juntos?
Disse Daniel já ofegante.
— Só não quero ter que escolher um lado depois da briga.
— Nem teve briga ainda.
Daniel me olhou com um olhar meio confuso.
— Na verdade nem beijo teve ainda, está na hora de tomar alguma atitude, não acha?
— É, preciso mesmo. Mas você acha que eu teria uma chance com ela?
Nisso, Daniel já estava ficando para trás.
— Olha se você nunca chegar nela nunca vamos saber, mas de uma coisa tenho certeza, se você não pedalar um pouco mais rápido vamos chegar atrasados.
— Curta e direta como sempre.
— Sempre querido.
Depois de um longo caminho chegamos no Colégio, era uma escola bem antiga e foi exatamente isso que me chamou a atenção. Ela parecia com um castelo cheio de torres e pontes. As vezes dava a impressão que estávamos estudando em Hogwarts pelo seu formato um pouco medieval. E lá estava ela, sem dúvidas a Vih era a menina mais bonita daquela escola. A gente tinha saído ontem, mas não saiu como planejei, na verdade nada saiu como planejei.
—O-o-o-oi Vih!
Estava tão nervosa que m*l saíram as palavras da minha boca.
— Oi.
Me olhou como se estivesse atrasada para um compromisso importante.
— Tudo bem? Ontem depois que você foi embora pensei que mandaria mensagem.
— E porque eu mandaria? A gente tinha acabado de conversar.
Disse Vih levantando uma de suas sobrancelhas como se estivesse indignada com o que falei.
— Pensei que você tinha gostado do que rolou.
— Olha Elisa eu gostei, mas como deixei bem claro desde o começo eu não quero nada com ninguém. Então o que rolou ontem lá na lanchonete fica lá Ok?
Já com um tom de despedida ela me encarava esperando minha resposta.
— Ok…
Daniel se aproximou assim que a Vih me deixou lá plantada de boca aberta. Ele já não era muito fã dela, mas depois de ter escutado o jeito que ela me tratou, teve certeza de que ela não era uma boa pessoa.
— Mulheeer!! Ta que a Vih nunca foi flor que se cheira, mas precisava falar assim?
Disse Daniel com um tom meio revoltado e sarcástico ao mesmo tempo.
— Não importa, a gente se engana com certas pessoas. Vamos procurar Carol que ela sim é importante.
Depois desse banho gelado que recebi tudo que eu mais desejava era não ter saído da cama hoje, mas não era justo com a Carol, não era justo descontar a minha indignação nela. A primeira aula era de matemática e estava prestes a começar e nada de Carol aparecer. Às vezes ela enrolava, mas hoje com toda certeza bateu o recorde de tempo.
Não demorou muito para ela chegar e roubar à cena como sempre faz. Sem dúvidas ela era a menina mais animada daquele lugar e tenho sorte por ter ela como amiga. Onde ela passa ela arrasta uma multidão de pessoas, tá explicado o porquê da paixão dela por teatro.
— Oi meu amor!
Disse ela com um sorriso tão lindo no rosto se direcionando para mim.
— Oi princesa, pensei que não viria hoje.
— Bem que eu queria, mas minha mãe não gosta muito dessa ideia.
— É, mas de uma coisa eu sei, o cheiro de coisa velha está forte viu.
— Ha ha ha, cheia de graças você né.
— Oh meu bem, você sabe que eu te amo né? Meus parabéns, que você continue sendo essa pessoa maravilhosa, só um pouco menos chata, ok!?
— Mesmo tentando ser fofa não a perde a piada né, Obrigada.
Disse Carol me dando um abraço bem apertado.
— Desculpe atrapalhar o momento gay de vocês duas, mas agora é minha vez de dar um abraço na aniversariante mais linda do mundo.
Disse Daniel com um brilho profundo nos olhos.
— Aí está o menino mais cheiroso que eu conheço!
Exclamou Carol abraçando Daniel.
No instante em que Daniel a abraçava, ele colocou um colar com um pingente no formato de um lobo em seu pescoço.
— É o seu favorito!
Disse ele a admirando.
— Você lembrou, obrigada ele é lindo!
Sem dúvidas o lobo é o animal favorito de Carol, ela ama ler sobre esses animais. O professor acabou entrando na sala e acabou com nosso mini recreio do lado de fora.
Não tenho muita coisa para falar das aulas, foram aulas comuns como todas. Assim que deu a hora de ir embora a gente acompanhou Carol até casa dela para o almoço que a mãe dela preparava. Sem dúvidas aquele cheiro maravilhoso que dava para sentir a um quarteirão antes da casa era a comida da Tia Sofia. A mãe da Carol fazia o melhor risoto de camarão do mundo.
— Se o cheiro está bom assim imagina o gosto…
Disse Daniel com uma cara de fome chegando na casa da Carol
— Deve está ótimo, com toda certeza esse risoto tá incrível.
Assim que entramos na casa fomos direto para o quarto de Carol para esperar o almoço ficar pronto. Sendo assim, poderíamos conversar e colocar as novidades em dia.
— Carol, acho que Elisa precisa nos contar alguma coisa.
Disse Daniel me encarando f**o.
— Preciso?!
— Não banca a cínica vai, hoje você acordou meio pistola com a vida e quando toquei no assunto da Vih você ficou mais nervosa ainda. E eu vi o jeito que ela te tratou hoje cedo.
Nisso dava para ver o lado sombrio do Daniel criando forma
— Ah é verdade, ontem você saiu com ela né. O que aconteceu ontem à noite?
Perguntou Carol com a esperança de ter sido bom.
— Sabe o que é gente? eu acho que não é uma boa falar sobre isso agora.
— Mas porque não?
Perguntaram Daniel e Carol juntos formando um coro.
— Ontem saímos para jantar, foi incrível no começo, estava indo tudo como planejado, na verdade, foi uma ideia dela me levar no restaurante. Com toda certeza aquele jantar foi uns dos mais românticos que já tive. Ela tomou todo cuidado para ser perfeito, estava me colocando no pedestal e como sua prioridade, pelo menos nas primeiras horas.
Uma longa pausa veio e no fim um suspiro frio e sem vida.
— Tá, continua!
Exclamou Carol com um olhar preocupado.
— Ela recebeu uma mensagem no celular que mudou tudo, ela literalmente saiu do vinho para água em segundos. Ela se tornou uma pessoa irreconhecível depois daquela mensagem, parecia que ela havia tirado sua máscara. Ela me deu um banho frio com palavras secas e sem vida, depois de muitas promessas ela simplesmente disse que aquele era o limite. Ela levantou e pediu a conta e logo em seguida com um abraço forçado ela se foi. Juro que tentei entender o que aconteceu, mas o fato dela não ter nem explicado o porquê, me deixou chateada e com raiva ao mesmo tempo.
— Talvez ela tenha recebido uma notícia r**m…
Disse Carol franzindo a testa.
— Pensei nisso no começo, mas quando cheguei em casa ainda tive a esperança dela me responder e explicar o que aconteceu, mas não. E hoje ela simplesmente ignorou o fato de eu ter ficado preocupada.
— Você gosta dela?
Perguntou Daniel com aquela cara de deboche
— Não sei, devo gostar... É confuso na verdade. Mas isso não importa porque aposto que o risoto de sua mãe já está pronto e eu estou morrendo de fome.
— Vamos lá, mas não pense que vai fugir desse assunto.
Disse Carol com um tom meio bravo.
Quando descemos as escadas até a cozinha, a mãe de Carol tinha feito uma mesa linda com bolo, docinhos e não podia faltar o risoto de camarão.
— Vamos cantar os parabéns antes!!
Disse Sofia vindo da sala com um pano de prato no ombro.
E todos começaram a cantar juntos…
“Parabéns pra você
Nesta data querida
Muitas felicidades
Muitos anos de vida”
Sem dúvida aquele risoto estava maravilhoso, parece que havia renovado todas as minhas energias. Logo que terminamos de comer fui entregar o presente para Carol, eu escolhi um disco de vinil, pode soar meio estranho, mas é um disco de Pink Floyd sua banda favorita.
Poderia ter feito uma playlist no spotify e compartilhado com ela, mas achei que poderia dar utilidade para um velho tocador de disco que ela tinha em seu quarto.
— Eu amei, sem dúvidas esse foi o melhor presente de todos. Não desmerecendo o colar Daniel. Vocês dois são incríveis.
Disse Carol dando pequenos pulinhos de alegria
Depois do almoço resolvemos subir para o quarto para continuar conversando, foi enquanto sugeriu um assunto um pouco interessante.
— Elisa seu pai é da guarda real, certo? Você ficou sabendo do baile a fantasia que vai ter no castelo esse fim de semana?
Perguntou o Daniel meio intrigado.
— É, meu pai comentou comigo. Meu sonho é conseguir entrar nesse baile.
— Será que ele não consegue te colocar lá dentro? Já que é um baile a fantasia ninguém vai perceber que você é uma estranha.
— Poderia tentar, mas estaria colocando o cargo dele em risco.
— Não é possível que o Coronel da guarda não consiga um ingresso para sua filha. Seria bom, quem sabe assim você não conhecesse a real identidade da princesa.
Falou Carol com um tom suspeito.
Isso ficou martelando em minha cabeça, não pelo fato de poder saber quem é a princesa até porque todos iriam estar fantasiados. Não tinha muito interesse na princesa e sim em entrar no castelo. Mas por um instante as lembranças da noite passada voltaram como um tiro em minha cabeça. Prefiro não contar toda a verdade do acontecido de ontem, pelo menos não por enquanto.
Tentei ao máximo aproveitar o final daquela tarde com meus amigos para tentar distrair a cabeça e não deixar as lembranças me consumirem. Eu só precisava de um boa noite de sono, afinal, amanhã é outro dia.