Pré-visualização gratuita Conhecendo Airam
A infância de Airam foi marcada por silêncios e sombras. Nascida em uma casa simples, a mais nova de quatro filhos, ela cresceu entre as paredes estreitas de um lar onde o amor era escasso e a rotina pesada. Sua mãe, mulher de sorriso sereno e mãos calejadas, era o único colo de ternura que conhecera. Mas o destino, c***l e repentino, a levou cedo demais: aos nove anos, Airam perdeu a mãe para uma doença rápida e devastadora. A dor daquele luto transbordou, silenciosa, e nunca foi devidamente nomeada.
A ausência materna abriu uma cratera na casa. O pai, um homem endurecido pela vida, se afundou no próprio desamparo. Os três irmãos mais velhos, já adolescentes, rapidamente assumiram o papel de pequenos tiranos. Airam, ainda criança, foi transformada em empregada: lavava pratos, varria chão, dobrava roupas, cuidava da casa enquanto os outros saíam para estudar, trabalhar ou simplesmente se divertir.
— Você não tem idade pra sair — o pai decretava, sem olhar nos olhos dela
. — Fique em casa, cuide do que precisa ser feito.
Ela passava dias olhando pela janela, ouvindo o som das outras crianças brincando na rua, sentindo a liberdade do lado de fora como quem observa o mar por trás de grades. A escola era seu único respiro, mas até ali havia limitações: nada de festas, nada de amigos, nada de vida além das paredes da casa. Airam cresceu aprendendo a ser invisível, a não pedir, a não sonhar. Cada ausência, cada ordem descuidada, foi moldando nela uma mistura de obediência e desejo de fuga.
Aos dezesseis anos, contudo, algo mudou. Foi nessa época que conheceu Maurício. Ele era mais velho, charmoso, sempre bem vestido, com aquele sorriso fácil de quem parece carregar o mundo nas mãos. Maurício a esperava todos os dias na saída da escola, sempre com um presente: uma flor, um livro, uma barra de chocolate. O olhar dele era gentil, atento, e Airam, pela primeira vez, se sentiu vista.
Ele a ouvia, se preocupava, dizia que ela merecia o mundo. Aos poucos, Maurício se tornou o príncipe encantado que ela acreditava não existir. Prometia proteção, carinho, uma nova vida longe da tristeza e do confinamento.
— Comigo, você vai ser feliz. Eu vou cuidar de você — dizia, seguro de si, e Airam acreditava.
Quando completou dezoito anos, casou-se com ele, movida pelo sonho de liberdade. A cerimônia foi simples, mas para ela significava tudo: a chance de, enfim, ser dona do próprio destino. O pai e os irmãos pouco se importaram. Para eles, era só uma boca a menos em casa. Para Airam, era a esperança de recomeço.
Nos primeiros meses, Maurício parecia cumprir todas as promessas. Incentivava Airam a estudar, a buscar um emprego, elogiava cada pequeno avanço dela. Comprava roupas bonitas, levava para jantar, apresentava amigos. Ela se sentia, enfim, vivendo um conto de fadas ou pelo menos, algo próximo disso.
Mas, como nas histórias mais antigas, o encanto não durou. Aos poucos, Maurício começou a se distanciar. Passava noites fora de casa, viajava sem avisar, respondia com frieza às perguntas de Airam. Os presentes rarearam, assim como os carinhos e as conversas. O que antes era preocupação virou descaso.
Um dia, ela soube da primeira traição. Depois, vieram outras. Maurício não se importava em esconder saía, sumia, voltava com desculpas vazias. O lar, antes promessa de liberdade, virou uma nova prisão: agora mais confortável, com paredes bem pintadas, mas ainda assim uma gaiola.
Airam percebeu, com o tempo, que trocara uma cela por outra. O controle do pai e dos irmãos deu lugar ao controle velado de Maurício, que agora sequer fazia questão de mantê-la por perto. O sentimento de abandono voltou, mas agora misturado ao peso do desamor. No silêncio daquele casamento, Airam revivia a solidão da infância. Mas, em algum lugar dentro dela, uma faísca resistia. Era o mesmo desejo de olhar além das grades, de buscar o mundo lá fora, de se inventar livre não importa quantos muros tentassem erguer ao seu redor.
O conto de fadas havia se tornado pesadelo.
Mas seria dessa dor, dessa ausência de escolhas, que Airam começaria — lentamente — a construir a mulher forte, livre e inegociável que um dia viria a ser