O dia tinha sido longo, pesado, cheio de pequenos estresses que se acumulavam em silêncios. Lara saiu do trabalho mais tarde do que o costume, o corpo pedindo descanso e a cabeça pedindo calma. O céu já estava escurecendo, o sol desaparecendo atrás dos prédios e deixando um tom alaranjado sobre o asfalto úmido.
Ela caminhava em direção ao carro, ajeitando a bolsa no ombro, quando ouviu o som familiar de uma buzina curta. Ao olhar para o lado, viu o farol de um carro aceso, e um sorriso que ela reconheceria mesmo de longe.
Gabriel.
— Está perdido? Precisa de ajuda? — perguntou ela, surpresa, enquanto ele saía do carro e se aproximava com aquele sorriso tranquilo.
— Se eu dissesse que senti sua falta, você acreditaria? — respondeu ele, parando diante dela.
Ela tentou disfarçar o riso, mas a surpresa era evidente.
— Vim aqui pra te s********r por algumas horas — disse ele, abrindo a porta do passageiro. — Vem comigo. Prometo que devolvo antes da meia-noite.
Lara hesitou por um instante, olhando para o relógio. Estava exausta, mas havia algo no olhar dele — aquele tipo de insistência calma, que convidava sem pressionar — que a fez ceder.
— Tudo bem — disse ela, rendendo-se. — Mas preciso pegar meu carro na volta.
Gabriel sorriu. — Fechado.
O carro avançou pelas ruas iluminadas, o rádio tocando baixo, uma música leve que acompanhava o ritmo calmo da noite. Lara relaxou no banco, olhando pela janela enquanto as luzes da cidade ficavam para trás.
— Pra onde estamos indo? — perguntou ela, depois de alguns minutos.
— Surpresa — respondeu ele, mantendo o olhar na estrada. — Só confia em mim.
Ela fingiu uma expressão desconfiada, mas sorriu. — Isso é um sequestro, então?
— Um sequestro do bem — ele disse, rindo. — Um resgate do seu cansaço.
A estrada os levou até um mirante simples, cercado por árvores e bancos de madeira, o vento batendo suave, carregando o cheiro de terra e noite.
Gabriel estacionou o carro e desligou o motor.
— Chegamos.
Lara saiu, respirando o ar fresco, o peso do dia começando a se dissolver. — Uau… — murmurou, observando a vista. — Eu nem lembrava que esse lugar existia.
— Pouca gente lembra — respondeu ele, encostando no capô do carro. — Eu mesmo me lembrei dele hoje. Agora temos o meu local favorito, vice também deve ter o seu, e esse aqui pode ser o nosso.
Ela se aproximou, cruzando os braços para se proteger do vento. — Nosso local?
— Achei que seria legal ter um lugar assim pra gente.
Por um instante, ficaram apenas ali, observando as luzes ao redor, as janelas iluminadas, o barulho distante da cidade. Gabriel olhou para ela de lado, notando a expressão dela mudar: havia uma melancolia quieta, o olhar perdido, como se parte dela estivesse em outro tempo.
— Você pensa demais quando fica quieta — ele disse, repetindo o que já aprendera sobre ela.
Lara riu baixo, sem desviar o olhar. — É, acho que penso mesmo.
— Em quê?
Ela respirou fundo, hesitando. — No que ficou pra trás. No que ainda me assombra.
Ele não insistiu, apenas esperou. Essa paciência dele era uma das coisas que mais a desarmava.
— Posso te contar uma coisa? — ela perguntou, depois de alguns segundos.
— Pode me contar tudo.
Lara o olhou, e pela primeira vez desde que se conheceram, havia vulnerabilidade pura no olhar dela.
— Eu não costumo falar sobre isso… — começou, mexendo distraidamente nas mãos. — Mas eu vivi um relacionamento que me marcou de um jeito r**m. Não fisicamente, mas… emocionalmente. Eu era muito nova, ele um pouco mais velho tinha tudo pra dar errado e deu. E um dia ele simplesmente partiu, sem dar explicação, desapareceu no ar.
Gabriel manteve o olhar firme nela, sem interromper.
— Eu acreditava — ela continuou. — Acreditava que quando tudo aquilo passasse, o medo, a culpa e restasse talvez o amor que me parecia ser recíproco ele voltaria. E eu esperei, esperei por quase dois anos essa volta, e quanto mais eu esperava, mais eu me perdia. Quando acabou, eu já não sabia quem eu era e foi nesse momento que você me encontrou.
Ela riu sem humor. — Naquele dia, você não me devolveu somente as chaves, você me devolveu a mim mesma. E eu não sei se estou pronta para me perder de novo em alguém.
O silêncio que seguiu foi pesado, mas não desconfortável. Gabriel respirou fundo, se aproximou um pouco e falou baixo:
— Você não precisa se justificar por ter se machucado. Nem por ainda estar aprendendo a confiar de novo no amor.
Lara o olhou, os olhos marejados.
Ela engoliu em seco, absorvendo cada palavra. — E você? — perguntou, tentando inverter o foco. — Você fala de amor como se já tivesse entendido ele por completo.
Gabriel sorriu com tristeza. — Eu também já amei errado.
Ela o observou com atenção.
— Eu me doei inteiro pra alguém que não queria ser cuidada, só admirada. E quando percebi, eu estava tentando me encaixar nas expectativas dela, perdendo quem eu era.
— E o que você fez? — ela perguntou.
— Fui embora — respondeu, simples. — E prometi a mim mesmo que nunca mais fingiria sentir menos do que sinto.
Lara o olhou com ternura. — E agora?
— Agora eu só quero algo real. Mesmo que doa. Mesmo que assuste. — Ele respirou fundo, olhando nos olhos dela. — E com você… tudo parece real demais pra fingir que é leve.
Ela sentiu o coração acelerar. A sinceridade dele tinha um peso bom — um que não machucava, mas que a fazia acreditar.
— Gabriel… — começou, hesitante. — Eu não sei até onde consigo ir.
— Tudo bem — ele disse, tocando levemente a mão dela. — Eu espero.
Lara sorriu, com lágrimas contidas. — Você fala como se tivesse todo o tempo do mundo.
— Pra você, tenho.
O vento soprou mais forte, levantando os fios soltos do cabelo dela. Gabriel a observou por um momento, e então, sem pressa, aproximou-se. A distância entre os dois se desfez num passo.
— Posso? — perguntou ele, a voz rouca.
Ela assentiu, e o beijo veio lento, calmo, como se ambos estivessem redescobrindo o que era se entregar sem medo. Não havia urgência — apenas verdade.
Quando se afastaram, Lara encostou a testa no peito dele, respirando junto.
— Faz tempo que eu não me sentia segura assim.
— É só o começo — disse ele, acariciando o rosto dela. — A segurança vem quando a gente aprende a confiar outra vez.
Ela olhou pra ele, e naquele instante soube que algo havia mudado. Que, pela primeira vez em muito tempo, alguém a via por inteiro — com as falhas, as dores e tudo o que ela achava que precisava esconder.
Gabriel a abraçou forte, e ela se permitiu ficar ali. O silêncio os envolveu, e a cidade lá embaixo parecia distante, quase irreal.
Quando ele a deixou na frente ao escritório novamente para pegar seu carro.
— Obrigada por hoje.
— Por ter te sequestrado? — ele brincou.
Ela riu, balançando a cabeça. — Por ter me devolvido um pouco de paz.
Gabriel segurou o olhar dela por alguns segundos. — Você não faz ideia do quanto é forte, Lara.
— Às vezes, eu só me sinto cansada.
— Mesmo assim, você continua. Isso já é força.
Ela suspirou, abrindo a porta, mas antes de sair, ele segurou de leve o pulso dela.
— Ei… — disse, com um tom que parecia um pedido. — Quando eu disse que te esperaria, era sério.
Ela sorriu, e o sorriso veio com um brilho novo, misto de esperança e medo.
Ela entrou em seu carro deu partida e se foi, e ele e a seguiu em seu carro até em casa para se certificar que ela iria chegar bem, o relógio marcava quase meia-noite.
Ele a observou a entrar na casa, e quando o portão se fechou atrás dela, ficou alguns minutos parado ali, olhando para o nada, com o coração cheio — e um pensamento único: ela valia cada espera.