Depois de deixar os seguranças sem palavras e cheios de culpa pela forma c***l e desdenhosa com que me trataram, finalmente entramos na festa.
O hotel é decorado com uma elegância deslumbrante. As mesas redondas são dispostas por família, cobertas com toalhas de linho branco. A louça incrustada de ouro, os talheres de prata e os copos de cristal lapidado me causam uma sensação estranha. São luxos que eu havia esquecido, luxos aos quais eu estava acostumada... e que agora luto para aceitar como meus.
Entro de braços dados com Ricardo e Edgard. Muitos convidados viram-se surpresos ao me ver. Alguns me reconhecem, mas ninguém diz uma palavra sobre a minha identidade. Sem dúvida, o meu pai ou os meus irmãos estabeleceram condições rígidas para que certas famílias estejam presentes e outras fiquem de boca fechada.
Segundos depois, Ricardo segura as minhas duas mãos com um sorriso: irmã, aproveite a festa. É para você... Volto em breve. Preciso finalizar alguns detalhes da organização.
— Não se preocupe, estou com o Edgard.
— Tudo bem, vou deixá-la nas suas mãos. Cuide dela. Tem muita víbora por aí. Exclama Ricardo, olhando rapidamente para certos pontos da sala.
— Não se preocupe, Richard. Responde Edgard, usando o apelido que o chama carinhosamente. — Cuidarei da Zafira com a minha vida, se necessário.
Quando Ricardo sai, Edgard e eu começamos a andar pelo lugar. Cumprimento algumas pessoas que reconheço, embora a maioria m*al ouse me olhar nos olhos. Em seguida, seguimos para a mesa de bebidas, onde as taças já estão servidas. Pego uma taça de champanhe e tomo um gole.
Mas algo não está certo.
O gosto é estranho, e o álcool imediatamente faz o meu estômago revirar. A náusea retorna, à espreita. Tenho certeza de que é nervosismo. O que mais poderia ser? Deixo o meu copo de lado, decidindo não beber esta noite. Não quero correr o risco de desabar e passar vergonha na frente dos convidados numa noite tão especial.
— Algo errado, Zafira? Pergunta Edgard, franzindo a testa. Ele sabe que gosto de álcool em festas. Não sou uma bêbada, mas adoro uma boa bebida na ocasião certa.
— Estou bem. É só nervosismo, só isso. Respondo, ignorando a ideia.
— Ah, olha! É o Roberto. Ele exclama de repente, entusiasmada, com um sorriso largo, desesperada para ir cumprimentá-lo.
Roberto, um dos seus antigos pretendentes, é um jovem que nunca quis confessar a sua homossexualidade para não se sentir excluído. Eles mantêm um relacionamento secreto, disfarçado de "amigos". Embora alguns estejam começando a desconfiar. Roberto ainda sai com modelos para desfilar, tentando não se tornar uma "vergonha" para a família.
No fundo, eu o admiro. Ele é um cara legal. Eu sei que ele ama o Edgard... mas também sei que ele é um covarde, assim como o Mateus.
— Vá lá dizer "oi", se quiser. Embora você saiba muito bem o que eu penso dele. Digo, com sinceridade. — Como amiga, você sabe que tenho uma opinião.
— Eu sei, Zafira, mas... você sabe que eu o amo.
— Eu sei. Mas ele ainda é um covarde, como o Mateus. Vá mesmo assim. Mesmo que ele esteja saindo com uma das "namoradas" dele.
— Você sabe que eu não estou com ciúmes. Eu sei que ele só faz isso para se exibir... e que me ama. Ele responde com um sorriso bobo e apaixonado.
— E eu queria encontrar um novo pretendente para você esta noite... Comento com resignação, observando Edgard se afastar. — Alguém que realmente a valorizasse, que a amasse como você merece.
Eu sei que Edgard se sente solitário. Que Roberto raramente lhe dá o seu lugar. Também sei que ele sonha com um relacionamento visível, livre, sem se esconder. Mas basta que eu o veja para que ele se esqueça de tudo, e o seu amor o domine. Então, suspiro e o deixo ir.
— Obrigada, Zafira. Volto em alguns minutos. Não quero te deixar sozinha. Diz ele com ternura.
— Vá com calma. Eu sei me cuidar... e me defender. Respondo com um sorriso torto.
— É por isso que eu te amo. Você é minha melhor amiga. Ele acrescenta, e me beija carinhosamente na bochecha antes de desaparecer entre os convidados.
Fico ali, com a bebida na mão, observando todas as famílias reunidas. Olho ao redor procurando por Mateus Torres e o encontro, como sempre, conversando com o pai de Vivian Morales. Tomo outro gole... mas o gosto faz o meu estômago revirar ainda mais. É isso, chega. Deixo a bebida de lado: hoje à noite, álcool e eu não vamos nos dar bem.
Dou mais alguns passos e encontro a mesa de petiscos. E então, sim, o meu corpo agradece. Começo a comer como se não houvesse amanhã e, estranhamente, o meu estômago começa a se acalmar.
— Você achou que eu estaria chorando por você? Pergunto a Mateus, que abre os olhos como se estivesse vendo um fantasma.
Ele nunca imaginou que a dona de casa submissa que ele deixou para trás apareceria ali, de frente, desafiadora.
— Bem, você se enganou, meu amor. Sou uma mulher diferente agora. Mais forte. Mais determinada. E garanto uma coisa: você vai se arrepender de tudo.
Ele pisca, confuso, magoado, com o ego ferido.
— Como você entrou nessa festa? Ele pergunta finalmente. — Você era... uma dona de casa. Hoje à noite, só a elite está convidada.
— Você é o único que pode se misturar com a elite? Pergunto, sem tirar os olhos do Mateus. — Com certeza você acha que sim. Você esfregou na minha cara que eu não era boa o suficiente para te acompanhar em uma dessas festas. E olhe para mim... aqui estou eu. E se você olhar de perto, tenho sido o centro das atenções desde que entrei por aquela porta.
— Amor... é mais do que óbvio como ela entrou neste lugar. Interrompe Vivian, a v***a, com seu sorriso venenoso. — Ela provavelmente teve um amante antes de vocês se divorciarem.
— Calma, Vivian. Nem todos nós somos do seu tipo. Respondo friamente, no momento em que Alberto Morales, o pai dela, abre caminho entre os convidados, visivelmente chateado.
— Como ousa? Quem é você? Ele pergunta, indignado. Ele não me reconhece. Ela começou a fazer negócios com o meu pai depois que desapareci.
— Pai! Vivian choraminga, agarrando-se ao braço dele como se tivesse cinco anos. — Ela acabou de me chamar de va*dia! Você tem poder nesta festa, pai. Tire ela daqui, estou tão ofendida!
— Calma, filha. Vou fazê-la pagar por cada ofensa. Ele responde, virando-se para mim. — Quem é você? Me diga antes que eu chame a segurança e te expulse.
— Quem sou eu? Repito, divertida, enquanto olho para as minhas unhas como se a presença deles me entediasse. — Você não tem qualificação para saber. Mas não se preocupe... você só vai descobrir esta noite.
— Essa mulher faminta se acha importante. Interrompe Sonia, minha charmosa ex-sogra. — Não se engane, essa mulher não passa de uma dona de casa sem educação. Ela é a ex-mulher do meu filho. Ela viveu às custas da nossa família por três anos.
As suas palavras fazem cabeças se virarem. Algumas cheias de julgamento, outras de curiosidade mórbida. Algumas se perguntam o que uma simples dona de casa está fazendo num evento como este. Outras, aquelas que conhecem a minha verdadeira identidade, encaram os meus agressores com espanto. Mas, como sempre, ninguém diz nada. Ninguém me defende.
Não importa. Eu não preciso mais delas.
— Então você é a ex-mulher inútil do Mateus. É por isso que você está aqui, certo? Pergunta Alberto, franzindo a testa.
— Claro que sim. Responde Sonia, com o seu veneno de sempre. — Esta mulher não suporta que o meu filho a tenha deixado por uma grande mulher como a sua filha.
— Faça alguma coisa, pai. Tire ela daqui! Vivian insiste, sem conseguir esconder a sua insegurança. Eu percebo. Ela sabe que estou incrível e que Mateus não consegue tirar os olhos de mim.
— Calma, meu amor. Vou chamar os guardas. Anuncia Alberto, ereto como um ga*lo. — Guardas!
Perfeito. Esta noite, muitas coisas vão mudar. A vida deste homem também.
E a melhor parte é que eu ainda não mexi um fio de cabelo.
No meio da confusão, Edgard aparece ao meu lado, visivelmente chateado.
— Essas pessoas de novo? Desculpa por ter te deixado sozinha.
— Calma, Edgard. Eles não sabem o que os espera se encostarem um dedo em mim. Digo, sorrindo calmamente.
— Este é seu amante atual? Vivian cospe, olhando-me diretamente nos olhos. — Foi por isso que você entrou aqui?
— Amante atual? Alberto pergunta, franzindo a testa para Edgard. — Mas é Edgard Fernández! Ele é homossexual.
Felizmente, meu amigo nunca teve vergonha de ser quem é. Ele o usa com orgulho e classe.
— Estilista Edgard Fernández? Vivian exclama, surpresa. — Eu tenho muitos vestidos dele! Mas eu não conhecia a imagem dele...
— Sr. Fernández, exijo que tire essa mulher daqui... ou eu tiro. Alberto responde, desafiador.
— Experimente só. Responde Edgard, com os olhos brilhando, parado na minha frente.
— Muito bem! Guardas! Alberto grita novamente.
Mas, nesse exato momento, a voz do Mateus corta o salão, nos obrigando a ficar em silêncio.
— Espere, Alberto. Deixe-me falar com ela.