Ao Amanhecer.

821 Palavras
A Chegada da Princesa Naquela manhã silenciosa, um grito de dor cortou o ar da casinha humilde onde Helena se contorcia em trabalho de parto. Ricardo segurava a mão da esposa com força, tentando transmitir calma, embora o coração batesse acelerado. Brayan e Henrique, assustados, olhavam pela fresta da porta, enquanto Pietro, o caçulinha, chorava sem entender o que estava acontecendo. — Vai dar tudo certo, meu amor… respira, respira — dizia Ricardo, com a voz trêmula, tentando se convencer tanto quanto a esposa. E então, entre lágrimas e suor, nasceu ela: **Ayla Hellena**, uma menina pequena, mas com olhos que pareciam maiores do que o corpo frágil. O primeiro choro dela ecoou pela casa como música, arrancando suspiros de alívio. Helena, cansada, sorriu e segurou a filha junto ao peito. — Minha bonequinha… meu presente do céu… Ricardo, emocionado, passou a mão na cabeça da filha, os olhos marejados. — Ela é tão pequena… mas tão bonita… Do lado de fora, Pietro foi o primeiro a correr até a mãe quando a porta se abriu. Seus olhos brilharam ao ver a irmã. — Posso segurar? — perguntou, estendendo os braços gordinhos. Helena sorriu. — Ainda não, meu amor. Ela é muito frágil. Mas você pode olhar bem de pertinho. O menino aproximou-se, quase prendendo a respiração, e sussurrou: — Oi, princesa… eu sou o Pietro, seu irmão… vou cuidar de você. Henrique, apesar da timidez, também se inclinou curioso, enquanto Brayan apenas observava, sério, sentindo que a responsabilidade aumentava. Ele sabia, ainda que em silêncio, que dali em diante teria de ser mais que um irmão: teria de ser como um braço direito do pai. --- ### 🌧️ O peso da pobreza Os dias seguintes foram uma mistura de alegria e preocupação. A família não tinha quase nada. A casa, feita de madeira e barro, m*l protegia do frio. A comida era pouca: arroz, feijão ralo e, quando havia sorte, um pedaço de carne de segunda. Helena, ainda fraca do parto, fazia o possível para amamentar Ayla, mas a fome também a corroía. Ricardo saía todos os dias em busca de b***s, carregando no olhar a culpa de não poder oferecer mais. — Eu prometo que vou dar um futuro melhor pra vocês — murmurava sozinho, à noite, olhando para o teto escuro. Mas, apesar da miséria, havia algo de novo na casa: uma energia diferente, um brilho silencioso. Os vizinhos que vinham visitar comentavam: — Essa menina tem algo especial… olha só esse sorriso, parece que entende tudo… E, de fato, Ayla sorria cedo demais para um bebê. Bastava ouvir a voz dos irmãos para abrir um sorriso desajeitado, encantando a todos. --- ### 👨‍👩‍👧 O amor dos irmãos Cada um dos irmãos se relacionava com Ayla de uma forma única. Brayan, o mais velho, a observava com seriedade, mas no fundo nutria um amor imenso. Muitas vezes, quando os pais dormiam, ele se levantava para verificar se a irmã estava coberta. Henrique, sempre meio rebelde, fingia desinteresse, mas era o primeiro a correr quando ela chorava. — Tá bom, bonequinha, não chora não… o Henrique tá aqui… — dizia, balançando a caixa de madeira que servia de berço. E Pietro, o mais novo, não desgrudava. Inventava canções, fazia caretas e chegava a dividir seus brinquedos quebrados com ela. — Olha, Ayla, esse carrinho é seu agora. Mas não morde, tá? — avisava, como se ela já fosse entender. Helena, ao ver a cena, não resistia às lágrimas. — Deus me deu quatro tesouros… --- ### ✨ Um sopro de esperança Apesar das dificuldades, a chegada de Ayla parecia mudar algo invisível. Era como se a vida, dura e amarga, tivesse ganhado uma centelha de cor. Uma noite, quando todos estavam reunidos na sala, Ricardo disse: — Sabe, eu sinto que essa menina vai trazer sorte pra gente. Talvez a vida esteja tentando nos mostrar um recomeço. Helena sorriu, acariciando os cabelos da filha. — Recomeço ou não, já é a maior sorte da minha vida tê-la aqui. E naquele instante, até Brayan, que raramente demonstrava emoção, concordou: — É… parece que a casa ficou mais clara desde que ela chegou. Ninguém respondeu, mas todos sentiram o mesmo. --- ### 🌱 Pequenas epifanias As primeiras semanas com Ayla foram marcadas por pequenas epifanias. * O dia em que ela abriu os olhos e pareceu seguir o movimento do pai com a cabeça. * A vez em que acalmou Pietro com um sorriso quando ele chorava por ter caído. * O silêncio diferente que tomou conta da casa em momentos de desespero, como se o olhar da menina fosse um lembrete de que ainda havia esperança. Helena acreditava que Deus tinha mandado um anjo para morar com eles. — Essa menina não é só minha filha — dizia em voz baixa, enquanto a embalava. — Ela é um presente. E presentes assim não vêm por acaso.
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