Entre Risos e Silêncios

1094 Palavras
O sol nasceu com força naquela manhã, pintando o céu de um azul vibrante e espalhando seus primeiros raios pela pequena casa da família. Helena já estava de pé, mexendo na panela com mingau de fubá, enquanto o cheiro doce se espalhava pelo ambiente. Ricardo afinava a enxada do lado de fora, preparando-se para mais um dia de trabalho no campo. Ayla, ainda deitada, demorou a acordar. Seus olhos piscavam devagar, e o coração batia acelerado de expectativa: seria o segundo dia de escola. A lembrança do primeiro ainda pulsava em sua mente como uma chama viva — os risos, as vogais cantadas, o carinho da professora e a presença de Pietro ao seu lado. — Bom dia, dorminhoca! — disse Pietro, entrando no quarto com uma gargalhada, puxando levemente a coberta da irmã. — Ah, Pietro! — Ayla reclamou, rindo em seguida. — Eu ainda estava sonhando com as letras! — Sonhando? — Pietro ergueu as sobrancelhas, divertido. — Então me diz, qual é a primeira vogal? — É o "A"! — respondeu ela, batendo palminhas, orgulhosa. — Igual ao meu nome! Os dois caíram na risada, e Helena apareceu na porta, com uma expressão de ternura. — Vocês dois parecem que acordam com a bateria carregada — disse ela. — Venham, o mingau está pronto. --- ## ☀️ O caminho até a escola A trilha de terra novamente os recebeu, mas, dessa vez, Ayla caminhava com mais confiança. O cheiro da vegetação molhada ainda estava no ar, mas agora ela observava cada detalhe com olhos curiosos: o ninho de passarinhos em uma árvore, uma borboleta amarela que voava na frente deles, o som de um riacho ao longe. — Pietro, será que eu vou aprender a escrever meu nome hoje? — perguntou Ayla, com um brilho de esperança nos olhos. — Talvez sim, talvez não — respondeu o irmão, tentando ser misterioso. — Mas eu sei de uma coisa: se você não aprender na escola, eu ensino em casa. Ayla sorriu, apertando a mão dele. De repente, no meio do caminho, encontraram duas crianças que também iam para a escola: Lucas, um menino magricela de cabelos arrepiados, e Sofia, uma garota de tranças longas e sorriso fácil. — Olha quem está aqui! — disse Lucas. — A menina nova! Ayla corou, mas Pietro se adiantou: — É a minha irmã, Ayla. Hoje é o segundo dia dela. — Então ela já é nossa colega! — disse Sofia, pegando a mão de Ayla com carinho. — Vem, vamos brincar de contar quantos passarinhos a gente encontra até chegar à escola! E assim foram, rindo e apontando para os galhos. No meio da brincadeira, Lucas e Pietro começaram a discutir. — Eu vi primeiro aquele sanhaçu azul! — exclamou Lucas. — Mentira, eu apontei antes! — retrucou Pietro. — Não, foi eu! Ayla e Sofia riram da cena, mas Ayla logo ficou séria: — Não briguem, por favor… é só uma brincadeira. Pietro, ao ouvir o tom da irmã, suspirou e desistiu da discussão. — Tá bom, tá bom… Lucas que viu primeiro. Lucas sorriu, satisfeito, e deram risada juntos, voltando a correr pelo caminho. --- ## 🏫 Na escola Ao chegarem, a professora Maria já estava no portão, recebendo os alunos com seu jeito carinhoso. — Bom dia, Ayla! — disse ela, se abaixando para ficar na altura da menina. — Está pronta para mais um dia? — Sim, professora! — Ayla respondeu, animada. A sala de aula parecia ainda mais acolhedora naquele dia. No quadro, estavam escritas as vogais novamente, mas agora havia também alguns desenhos: uma abelha para o "A", uma igreja para o "I", uma uva para o "U". — Hoje vamos brincar de associar palavras com vogais — explicou a professora. — Quem consegue me dizer uma palavra com a letra "A"? Ayla levantou a mão timidamente, o coração acelerado. — Meu nome! Ayla! A sala inteira aplaudiu, e a professora sorriu com orgulho. — Muito bem, Ayla. E alguém mais? A brincadeira seguiu com risadas, pequenas discussões e muita curiosidade infantil. Pietro, do fundo da sala, observava a irmã com olhos brilhantes. Ele sentia um orgulho silencioso por vê-la participando, arriscando-se, vencendo a timidez. --- ## 🍞 Hora do recreio – Brincadeiras e dramas No pátio, Ayla se juntou a Sofia e Lucas. Eles dividiam pedaços de pão com manteiga que tinham trazido de casa. Pietro, por sua vez, se misturava com outros meninos mais velhos. — Vamos brincar de roda? — sugeriu Sofia. — Sim! — Ayla respondeu, animada. Mas, enquanto corriam para formar a roda, uma menina mais velha, de cabelo preso em coque, se aproximou. Era Clara, conhecida por ser mandona e um pouco rude. — Quem deixou a novata brincar? — disse ela, cruzando os braços. — Essa roda é só para quem já sabe escrever o nome. Ayla sentiu o coração apertar, e seus olhos marejaram. Mas antes que ela chorasse, Sofia segurou sua mão. — Isso não é justo, Clara. Todo mundo pode brincar! Lucas, com coragem, também se intrometeu: — É, se Ayla não brincar, eu também não brinco. A tensão cresceu, e Pietro, vendo de longe, correu até eles. — O que está acontecendo aqui? Clara bufou, mas não respondeu. Pietro encarou-a firme. — Ninguém vai impedir minha irmã de brincar. Se você não quer, então é você quem sai da roda. Clara fez uma careta e saiu emburrada, mas o grupo de crianças voltou a rir e brincar. Ayla, embora ainda com o coração acelerado, sentiu-se protegida. — Obrigada, Pietro — sussurrou ela. — Sempre vou estar aqui, lembra? — ele respondeu. --- ## 🌙 Ao final do dia De volta para casa, Ayla falava sem parar sobre o que tinha aprendido: — Mamãe, sabia que "U" é de uva? E que "I" pode ser de igreja? — dizia, os olhos brilhando. Helena sorria, enquanto descascava mandiocas para a janta. — Você está aprendendo rápido, minha filha. Ricardo, cansado do trabalho no campo, aproximou-se e afagou os cabelos da menina. — Continue assim, Ayla. O conhecimento é o que vai abrir caminhos para você. Ayla assentiu, séria, como se entendesse cada palavra. --- ## 🌌 Antes de dormir Naquela noite, deitada em sua cama simples, Ayla lembrou-se da cena com Clara. O coração ainda doía um pouco, mas ela também se lembrava das mãos de Sofia e Lucas segurando as suas, e da firmeza do irmão defendendo-a. "Eu não estou sozinha", pensou. E com esse pensamento doce, ela adormeceu, sonhando novamente com letras que dançavam pelo céu como estrelas.
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