Capítulo 20 – Estranha Entre Dois Amores

782 Palavras
A ideia do passeio partiu de Isadora. Ela mesma disse, com um sorriso que não chegava aos olhos: — Vamos sair, os três. Como antes. Henrique aceitou sem hesitar. Maya ficou surpresa, mas aquiesceu com aquele sorriso manso que fazia tudo parecer simples. Mas nada era simples. O Começo da Noite Eles escolheram um bar aconchegante, com luz baixa e música suave. Henrique dirigia. Maya no banco de trás. Isadora, no banco da frente, sentia uma barreira invisível entre ela e o resto do carro. Maya falava sobre um projeto novo no trabalho. Henrique ria, fazia perguntas, animado. A voz dele parecia mais viva quando conversava com ela. Isadora ouvia, mas não participava. Uma observadora dentro da própria vida. Quando chegaram ao bar, uma mesa na área externa estava livre. Eles se sentaram — Henrique no centro, Maya à esquerda, Isadora à direita. Mas, conforme os minutos passaram, Maya foi se inclinando para o lado dele. E Henrique inclinando-se de volta. A mesa era para três. Mas parecia feita apenas para dois. Pequenas Conexões A conversa fluía… mas não para Isadora. Henrique e Maya tinham agora um ritmo próprio. Eles completavam frases um do outro. Riam das mesmas coisas. Comentavam sobre lembranças recentes — conversas que haviam tido quando Isadora já estava dormindo. — Lembra o que eu te falei sobre equilíbrio cromático? — Maya comentou, brincando. — Claro que lembro — Henrique sorriu. — Eu usei no projeto ontem. Eles riram juntos. Isadora tomou um gole de bebida, tentando esconder a dor que cortava o peito. Quando Maya ajeitou o cabelo atrás da orelha, Henrique fez o mesmo gesto discretamente, como se imitasse sem perceber. Quando Henrique suspirou, Maya colocou a mão no antebraço dele por reflexo. Era íntimo. Natural. Inevitável. E Isadora sentiu o mundo encolher ao redor dela. A Sensação de Ser Invisível Em certo momento, o garçom veio anotar o pedido. — E para a senhora? — perguntou a Isadora. Ela abriu a boca para responder, mas Henrique se adiantou: — Ela vai querer o vinho branco, né amor? Não era maldade. Era hábito. Mas naquele instante, Isadora percebeu que Henrique nem tinha olhado para ela. Tinha assumido o pedido por memória — uma memória antiga, que já não combinava com quem ela tentava ser agora. Enquanto isso, Maya falava com o garçom sobre sabores, recomendava pratos, conversava com desenvoltura. O garçom deu mais atenção a ela. Henrique também. Isadora era só… pano de fundo. O Golpe Suave A noite parecia correr bem para eles. Não para ela. Quando o vinho chegou, Maya fez um brinde espontâneo: — Aos três. Por termos encontrado um modo de existir juntos, mesmo quando tudo parece quebrado. Henrique sorriu. — Aos três — repetiu, olhando diretamente para Maya antes de voltar o olhar para Isadora. E por um segundo — apenas um segundo — Isadora viu o que nunca quis ver: O amor estava se reorganizando na mesa. E ela não estava no centro. O Momento de Ruptura Mais tarde, ao saírem do bar, Maya tropeçou levemente na calçada. Henrique a segurou pela cintura, rápido, forte, instintivo. — Cuidado — ele disse, com voz baixa. Maya riu, sem graça. — Obrigada… Mas a forma como ela olhou para ele, por apenas um instante, trazia um mundo inteiro que Isadora não tinha acesso. Um mundo que só os dois compartilhavam. Isadora viu aquilo como quem assiste a um filme em que não participa mais. Henrique ajudou Maya a se equilibrar. As mãos deles demoraram um pouco mais do que deveriam para se soltarem. Isadora ficou parada, sentindo as pernas fraquejarem. A Conclusão Silenciosa No carro de volta, Henrique conversava animadamente com Maya. Isadora olhava pela janela, sentindo o coração bater devagar, pesado. Quando chegaram em casa, Henrique abriu a porta para Maya sair primeiro. Um gesto pequeno, cavalheiresco. Mas simbólico demais. Isadora caminhou para dentro e, pela primeira vez, percebeu: Ela estava lutando para manter um lugar que talvez já não fosse totalmente dela. Não porque Henrique a tivesse deixado de amar. Mas porque agora ele amava em duas direções. E Maya… Maya não era mais um incêndio passageiro. Era parte da paisagem. Parte da cura dele. Parte da dor dela. Final da Noite Quando foram deitar, Henrique a abraçou pelas costas. — A noite foi boa, né? — ele perguntou, com a voz tranquila. — Foi… — ela respondeu, sem conseguir esconder o vazio. Henrique não percebeu. Mas Isadora percebeu tudo. E guardou: Ela era a terceira agora. Mesmo estando há mais tempo. Mesmo amando mais profundo. Mesmo tendo sido a primeira. E essa verdade queimava mais do que qualquer ciúme. Era a sensação devastadora de ser estrangeira dentro da própria vida.
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