Capítulo 19 – Quando os Gestos Passam a Falar

887 Palavras
Os dias seguintes foram estranhamente calmos. Calmos demais. Henrique parecia reviver aos poucos. Dormia melhor. Comia melhor. Enxergava o mundo com menos sombra por trás dos olhos. Mas, acima de tudo, Henrique se tornou… mais leve quando estava perto de Maya. Não era algo que ele dizia. Era algo que via-se — no jeito como respirava quando ela entrava no cômodo, no modo como o corpo dele relaxava apenas ao ouvir a voz dela. A conexão entre os dois havia se tornado um fio invisível, permanente, inquebrável. E Isadora sentia esse fio roçar nela como uma ameaça. O Gestos Pequenos Foi durante um jantar que ela percebeu a gravidade. Os três conversavam sobre coisas banais — trabalho, séries, piadas bobas. Mas a cada risada, a cada comentário, Henrique olhava primeiro para Maya antes de olhar para Isadora. O tipo de olhar que busca aprovação. O tipo de olhar que encontra abrigo. Quando Maya contou algo engraçado, Henrique tocou o ombro dela. Naturalmente. Como se fosse um hábito novo. Isadora congelou por dentro. Não era um toque s****l. Era um toque íntimo. Um toque que dizia: eu confio em você de um jeito que não consigo explicar. E provavelmente Henrique nem percebeu o que estava fazendo. Maya percebeu. E Isadora também. O Sorriso que Dói Numa tarde, enquanto faziam compras no supermercado, Isadora testemunhou outra cena. Maya e Henrique caminhavam lado a lado, debatendo marcas de café como se fossem um casal acostumado à rotina. Henrique, distraído, passou a mão nas costas de Maya enquanto pegava algo na prateleira. Um gesto automático. Quase instintivo. Maya sorriu. Só um sorriso — pequeno, doce, involuntário. Mas era o sorriso de quem sente pertencimento. E Isadora se sentiu invisível pela primeira vez na vida. A Estratégia Silenciosa Naquela noite, Isadora tomou uma decisão silenciosa: não perderia Henrique sem lutar. Mas sua luta não seria barulhenta. Ela não gritaria, não exigiria, não imploraria. Isso só o afastaria mais. Ela tentaria reconquistá-lo pela memória. Pelo amor. Pelo vínculo de anos que nenhum encanto novo deveria substituir. Começou de forma sutil: — Preparando o prato favorito dele. — Usando a camisa que ele adorava. — Contando histórias do início do relacionamento, relembrando viagens, risadas. Coisas pequenas. Gotas de passado tentando competir com o presente. Henrique sorria, abraçava, agradecia. Mas sempre havia um momento — um milésimo de segundo — em que o olhar dele se perdia antes de voltar para ela. Como se estivesse dividindo o coração. A Aproximação de Maya Mas enquanto Isadora tentava reacender o casamento, Maya avançava sem precisar tentar. Maya apenas existia. E a existência dela era, por si só, uma força gravitacional. Uma noite, assistindo a um filme, Henrique estava deitado entre as duas. Mas ele se inclinou, quase sem perceber, para o lado de Maya. A cabeça dele descansou no ombro dela. Isadora viu. Engoliu seco. Sorriu com força. Maya não o afastou. Ela só pousou a mão de leve sobre o braço dele, como quem diz: eu te seguro. Isadora sentiu o coração quebrar em silêncio. Mas ficou ali, imóvel, porque deixá-lo seria admitir derrota. O Medo Oculto Isadora se perguntava, dia após dia: Será que ele voltaria a ser meu se Maya sumisse novamente? Ou será que o que cresceu entre eles é irreversível? O medo se tornou uma sombra permanente. Ela acordava pensando em Maya. Ia dormir pensando nos dois juntos. Ardia por dentro de uma dor que não sabia nomear. Era ciúme? Era amor? Era insegurança? Era pânico? Talvez fosse tudo junto. A Conversa que Ninguém Queria Ter Uma noite, depois que Maya foi embora, Isadora encontrou Henrique na varanda, olhando a cidade silenciosa. — Henrique… — ela começou, com a voz trêmula. Ele virou lentamente, percebendo a seriedade no olhar dela. — Eu estou perdendo você? — Isadora perguntou, quase num sussurro. O rosto dele se contorceu em dor. — Isa… você nunca me perdeu. — Mas ela te ganhou? Henrique fechou os olhos. Respirou fundo. Tentou falar e não conseguiu. Tentou novamente. — Maya me ajudou quando eu estava no pior momento da minha vida. E isso criou… algo. Eu não sei explicar. — Mas você sente algo? — Isadora insistiu. Ele não respondeu. E o silêncio foi mais doloroso do que qualquer palavra. Isadora desviou o olhar, com lágrimas que não desciam porque ela não permitia. Henrique tentou tocá-la, mas ela recuou. — Não me promete nada — disse ela, com a voz rouca. — Só… não me deixa lutar sozinha. Henrique ficou imóvel. Porque não sabia como prometer isso. A Confirmação Mais tarde naquela noite, quando Henrique acreditava que ninguém estava vendo, ele pegou o celular. E clicou no nome de Maya. Não para mandar mensagem. Só para olhar. Para sentir. Para lembrar. E quando Isadora passou pelo corredor e viu aquela cena, entendeu tudo o que precisava entender: Henrique ainda era dela… mas já não era só dela. E pior: não era culpa de Maya. Nem dele. Era da vida. Do caos. Da dor que aproximou dois corações no momento mais inesperado. Isadora voltou para a cama com o peito apertado e uma verdade que ela nunca diria em voz alta: Ela não queria mais essa relação a três. Mas iria sustentá-la porque o medo de perder Henrique era maior do que o amor-próprio que tentava sobreviver dentro dela
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