Ívyna
Dmitri aceitou uma bebida quando minha mãe ofereceu, e eu desviei o olhar por não querer transparecer nada, a situação já era uma bosta! Isso num olhar geral, mas a voz grave e baixa dele me chamou a atenção.
— Estou livre de ter bebidas entornadas em minha roupa — ele sorriu de canto, e meus olhos pescaram aquilo muito rápido — é um prazer revê -la, senhorita.
Sinto quando meus ombros sobem e descem quando respiro fundo. Pisco os cílios algumas vezes, mais apressados do que o normal. Solto o ar com calma pela boca.
— Me perdoa por isso — digo — espero não ter manchado seu terno.
Ele me olha, de cima a baixo, com uma expressão pensativa, e eu já me perguntava se ele era sempre assim. Para além disso, estava muito a fim de saber o que se passava naquela mente enquanto passeava sem permissão — com os olhos — no meu corpo. Pigarreei e os olhos dele se fixaram no meu rosto.
— Não manchou. — ele olha em direção de onde vinha a voz um tanto alta do Viktor, vejo quando o pomo de Adão desce e sobe — me perdoa, senhorita, mas não tenho palavras de conforto para você. Viktor é, bem... Você vai ficar bem, o problema dele foi com seu pai, e não é como se ele fosse r**m com as mulheres, ele até que é... Bem generoso.
Engoli nada a seco e meus dedos apertaram com força o corrimão de madeira, até que os nós ficassem brancos. Mordisquei o interior das bochechas, sentia meu corpo tremer, isso graças a voz que subia oitavas a cada vez que o tempo passava. Não demorou para que os passos fossem audíveis, e logo Viktor estava ali, sorrindo frívolo em minha direção, os cabelos loiros quase platinados, a expressão inabalável. Veio até mim e tomou minha mão, beijando o dorso. Os olhos que mais pareciam duas orbéis negras subiram encontrando o meu olhar, e meu corpo respondeu, trêmulo.
— O casamento será logo, quero que escolha tudo, do jeito que preferir... Minha noiva...
Ele fez um gesto por cima dos ombros e Dmitri entregou algo a ele, era uma caixinha de veludo quadrada, achatada e grande para um anel, na cor azul escuro, quando abriu perdi o fôlego ao ver um colar de Ágatas.
— Combina com seus olhos, minha noiva — olho por uns instantes o colar — Posso?
Pergunta apontando em direção ao meu pescoço, e então me virei de costas para ele e puxei os fios ruivos para o lado, descansando em meu ombro. Viktor passa o colar ao redor do meu pescoço, e eu arrepio quando a ponta dos dedos roçam a minha nuca antes de fechar o fecho do colar. Passo o dedo na pedra e aos poucos me viro de frente para o loiro, ele sorri, anasalado.
— Ficou lindo, não acha?
— Estou agradecia pela gentileza... — queria dizer que não iria usar aquilo mas não podia — é lindo, o senhor tem um ótimo gosto.
— Não me chame de senhor, querida... Você tem todo o direito de me chamar pelo nome.
Ele acaricia meu queixo, e minhas pernas tremem.
— Tudo bem, Viktor... Muito obrigada, eu amei.
O peso do colar descansava sobre minha pele como se fosse ferro, embora as pedras fossem leves. O toque frio se aquecia devagar contra a temperatura do meu corpo, mas nada nele me parecia um presente. Era mais como uma marca, uma coleira bonita, que dizia ao mundo sem palavras quem era o dono da minha garganta.
Segurei o fecho da pulseira, talvez inconscientemente, mas soltei antes que Viktor percebesse. Meus dedos ainda tremiam um pouco quando baixei as mãos.
— Fico feliz que tenha gostado, minha querida — ele disse, com aquele sorriso ensaiado, falso na medida certa, mas que aos olhos de qualquer estranho pareceria puro encanto.
Assenti em silêncio. O ar parecia pesar na sala, e as cortinas fechadas não deixavam entrar o suficiente da manhã que se espalhava lá fora. Eu queria respirar o vento frio do lado de fora, mesmo que frio, queria me afastar daquele aperto invisível no peito que ele me provocava, mas continuei ali, imóvel, como se meus pés estivessem presos ao carpete.
Dmitri, ao lado, permanecia discreto. Observava, calado, uma sombra colada ao brilho exagerado de Viktor. Por um instante, meu olhar se atreveu a encontrá-lo, e foi como se eu tivesse pedido socorro em silêncio, mesmo sabendo que não viria ajuda alguma dali. Seus olhos não desviaram de mim — fixaram-se, firmes, sem pressa alguma. Havia algo ali, algo que me deixava confusa, algo que com certeza nasceu no dia em que esbarrei nele. Não era piedade, não era frieza. Era um tipo de entendimento mudo, que queimava como brasa debaixo de cinzas. O qual senti vontade de descobrir.
— Iremos agora, minha secretária vai entrar em contato para saber o que vai querer para o casamento, fique a vontade, espero que fique tudo de seu agrado.
Assenti, voltando os olhos para os dele, foi quando ele sorriu ladino e olhou por cima dos ombros em direção ao Dmitri. Meu coração acelerou, o receio de que ele enxergasse coisas que não existiam invadiu meu peito.
— O Dmitri não é tão mau assim, querida, não precisa olhar para ele com temor.
Suspirei aliviada, mas disfarçando o ato, é claro...
— Desculpa, eu... só estou apreensiva...
O loiro assentiu e pousou os olhos em mim de novo, como se eu fosse o centro de tudo.
— Tudo bem — O sorriso dele se fechou em algo que parecia carinho, mas me gelava — Preciso ir, tenho assuntos importantes para hoje.
Ele inclinou o corpo para frente, tomou minha mão outra vez e, sem pressa, beijou o dorso. O toque dos lábios dele foi leve, mas eu me senti invadida, justamente por não querer nada que venha dele, mas graças a meu pai, teria que ir além de beijos na mão, e isso revirava meu estômago.
Meus olhos, sem permissão, desviaram para Dmitri, que mantinha a postura reta. Não havia nada de ostensivo em sua expressão, mas de alguma forma aquele olhar neutro era mais perturbador do que qualquer palavra que pudesse dizer.
Viktor se afastou, ajeitou a lapela do terno e fez um gesto breve com a cabeça. Dmitri se moveu logo depois, como uma sombra obediente. Os passos deles ecoaram pelo corredor, pesados, marcados, e cada batida parecia empurrar meu peito mais fundo contra o vazio que se abria.
Quando chegaram à porta, Viktor não se voltou para me olhar. Mas Dmitri, sim.
Ele girou levemente o rosto, e seus olhos me alcançaram. Não havia sorriso, nem gesto de despedida. Apenas aquele olhar direto, intenso, que atravessou a distância como uma lâmina. Foi rápido, um segundo talvez, mas ficou em mim como uma cicatriz feita a ferro. Havia algo de indizível naquela troca
A porta se fechou atrás deles, abafando o som dos passos. O silêncio que restou parecia mais alto que qualquer grito.
Segurei o colar com força, como se pudesse arrancá-lo, mas minha mãe entrou na sala antes que eu me atrevesse a tanto. Sua expressão satisfeita me obrigou a soltar a corrente e sorrir sem vontade.
— É lindo, não é, Ívyna... bem, pelo menos, com toda essa... desordem. Você se casará com um homem bonito, e que vai te dar tudo. —disse, aproximando-se e ajeitando os fios do meu cabelo sobre o ombro. Não era um gesto de carinho, era de culpa... E eu sabia, ela jamais me trataria desse jeito. — Ele realmente tem um bom gosto, e acredito que esse ponto fora da curva, vai acabar sendo bom... Quer dizer. As dívidas de seu pai em partes são culpa sua, para manter seus gostos, seus caprichos...
Engoli o nó que subia pela garganta, queria gritar que tudo o que eu tinha foi exigência dela, eu sabia que vivaria bem com pouco, mas apenas assenti, por ser covarde demais para enfrentar ela.
— Sim, mãe... tem razão...