A Primeira Rachadura

1212 Palavras
A noite estava quente demais para abril. Eu não conseguia dormir. As lições de tiro ainda ecoavam nos meus músculos, o cheiro de pólvora grudado na pele, a voz de Dante repetindo: “Não hesite. Atire.” Mas não era a violência que me mantinha acordada. Era o silêncio depois dela. Saí do quarto sem fazer barulho, os pés descalços no mármore frio. O corredor estava vazio, as luzes de emergência lançando sombras longas como dedos apontando. Desci as escadas. E o vi. Dante estava no jardim interno, sentado num banco de ferro forjado, as costas retas, os cotovelos apoiados nos joelhos. Segurava um copo de uísque, mas não bebia. Só olhava para a fonte de mármore no centro, onde a água caía em quedas suaves, como lágrimas contidas. Ele não usava paletó. Só a camisa branca, aberta no pescoço, manchada de suor. Parecia… cansado. Humano. Quase me virei. Mas ele falou antes que eu pudesse fugir. — Você também não dorme? A voz era baixa, rouca, sem a autoridade habitual. — Pesadelos — respondi, parando à entrada do jardim. — Dos tiros? — Dos olhos da sua esposa. Ele ficou imóvel por um segundo. Depois, assentiu, como se esperasse aquilo. — Ela se chamava Isabella. Foi a primeira vez que ele disse o nome dela em voz alta. — Como ela era? Dante girou o copo entre os dedos, observando o líquido âmbar. — Teimosa. Corajosa demais. Achava que podia mudar este mundo com bondade. — Um sorriso amargo tocou seus lábios. — Ela achava que eu era um projeto de redenção. — E você? — Eu achei que ela tinha razão. Por um tempo. Silêncio. Só o som da água caindo. — O que aconteceu? — Traição. — A palavra saiu seca, cortante. — Meu próprio conselheiro a entregou aos Moretti. Disseram que ela ia testemunhar contra mim. Que tinha provas. — Ela tinha? — Não. Ela só queria proteger Sofia. Ele levantou o copo, finalmente bebeu. — No dia em que morreu, ela me pediu para sair da vida do crime. Eu ri. Disse que era tarde demais. Naquela noite, os tiros a encontraram na varanda. Sofia viu tudo. Sua voz quebrou. Só um pouco. Mas foi o suficiente. — Por isso você não deixa ninguém se aproximar de Sofia. — Por isso eu mato qualquer um que tente. Olhei para ele — o homem que mandava homens para a morte com um gesto, que governava com medo, que transformava lealdade em sangue. E vi o garoto que perdeu a mulher que acreditava nele. — Você não é um monstro, Dante. Ele riu, amargo. — Sou sim. Monstros não choram. Monstros não hesitam. Monstros fazem o que é necessário. — Então por que me ensinou a atirar? Por que me deixou ver Lúcia? Por que me olha como se eu fosse… real? Ele se virou. Os olhos azuis brilhavam sob a luz fraca do jardim. — Porque você é a primeira pessoa em anos que não tem medo de mim. Você tem medo por mim. Há diferença. Meu coração bateu mais forte. — Eu tenho medo de você. — Mentira. — Tenho. Medo de que um dia você me peça para escolher entre Lúcia e Sofia. Entre salvar uma e perder a outra. Dante se levantou. Caminhou até mim, devagar, como se eu fosse um animal selvagem prestes a fugir. — Eu nunca te pediria isso. — Por quê? — Porque já escolhi. — Ele parou a um passo de distância. — Se algo acontecer com Lúcia, eu a protegerei como se fosse minha. Porque você a ama. E você… — ele hesitou, como se as palavras queimássem sua garganta — você é a única coisa que me faz lembrar que ainda sou homem. O ar entre nós ficou espesso. Quase toquei seu rosto. Quase disse que entendia. Quase admiti que, em algum lugar entre os tiros e os silêncios, eu tinha começado a sentir algo que não era só medo. Mas então, um som distante. Passos. Vozes. Dante endureceu imediatamente. A máscara voltou. — Volte para o seu quarto. Agora. — O que foi? — Alguém está nos vigiando. Na manhã seguinte, Marta me chamou para o café da manhã. — O senhor Vane mandou dizer que o treinamento continua hoje. — Ele está bem? — Ele passou a noite no escritório. Recebeu notícias dos espiões. Moretti está oferecendo dinheiro por informações sobre você. — Sobre mim? — Sim. Parece que gostou da sua coragem no ataque. Quer saber se pode ser… convencida a mudar de lado. Ri, amarga. — Ele não me conhece. — Mas conhece sua irmã. E sabe que você faria qualquer coisa por ela. No porão, Dante estava carregando armas. — Hoje, você aprende a lutar corpo a corpo. — Ainda estamos sendo vigiados? — Sempre. — Ele me encarou. — Mas agora, eles sabem que você não é só uma babá. É uma ameaça. Começamos. Ele me derrubou três vezes. Na quarta, consegui desviar e aplicar um golpe de cotovelo nas costelas dele. — Bom — ele disse, ofegante, um brilho nos olhos. — Muito bom. — Por que Moretti quer me recrutar? — Porque viu que você protegeu Sofia sem ganhar nada. Isso é raro. Neste mundo, lealdade sem pagamento é ou loucura… ou amor. — Não é amor. — Então o que é? Não respondi. À tarde, encontrei Sofia no jardim, desenhando com giz. — Lena! — ela gritou, correndo para mim. Abraçou minhas pernas, os cachos balançando. — Papai disse que você vai me ensinar a lutar também. — Quando você for mais velha. — Por que? — Porque crianças não deveriam precisar aprender a matar. Ela me olhou, séria. — Mas o mundo é mau. — Sim. Mas você não precisa ser. Naquela noite, voltei ao jardim. Dante não estava lá. Mas havia um envelope no banco de ferro. Dentro, uma foto de Lúcia saindo do hospital, seguida por dois homens. E um bilhete: “Ela está segura. Mas não por muito tempo. — D.” Meu sangue gelou. Ele não estava me ameaçando. Estava me protegendo. Mais tarde, ouvi vozes alteradas no escritório. — Você não pode colocar ela no meio disso! — era Marco, o segurança. — Já está no meio — Dante respondeu, calmo. — E se eu não a preparar, ela morre. — E se ela descobrir quem você realmente é? — Ela já sabe. Silêncio. — Ela fica? — Ela fica. Na cama, fechei os olhos e pensei em Lúcia. Em Sofia. Em Dante, sozinho no jardim, carregando o peso de um império e a memória de uma mulher que acreditou nele. Eu não era inocente. Mas talvez… talvez eu pudesse ser o equilíbrio. Não entre o bem e o m*l. Mas entre o sangue e o futuro. No corredor, antes do amanhecer, encontrei Dante novamente. — Por que me mostrou a foto? — Para que você saiba: enquanto eu respirar, ninguém toca nela. — Por quê? — Porque você é minha. — A frase saiu simples, direta, como uma verdade absoluta. — E o que é meu, eu protejo com a vida. Não respondi. Só assenti. E, pela primeira vez, acreditei que talvez… talvez eu não estivesse presa. Talvez eu tivesse escolhido ficar.
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